Custo para estudar em universidade pública em outra cidade é alto

Início de ano para estudantes aprovados em vestibulares do País significa um período de mudanças. Traz as apreensões de iniciar uma nova etapa na vida acadêmica, conhecer outras pessoas, frequentar um ambiente diferente e, em alguns casos, sair da casa dos pais e morar com amigos ou sozinho.

Anderson Dezan, Carolina Rocha e Priscilla Borges |

O estudante do curso de Engenharia Mecânica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Rafael Moreira, de 23 anos, divide, desde junho de 2009, um apartamento no bairro do Maracanã, zona norte do Rio, com dois amigos e uma amiga. Todos nasceram no município de Cabo Frio, no interior do Estado do Rio, e foram cursar o nível superior na capital fluminense. Antes de dividir o imóvel, Rafael chegou a morar em uma pensão em Vila Isabel com outros 11 universitários.

Alugamos esse apartamento por causa da proximidade com a faculdade. Assim não temos gastos com transporte. A principal vantagem em dividir um apartamento com amigos é ter privacidade e mais conforto, afirma o estudante.

Assim como Moreira, muitos estudantes optam por freqüentar universidades públicas ¿ que os liberam do pagamento de mensalidade - fora da cidade onde moram. Mas eles têm de se preparar: o custo é bem salgado.

O iG Educação fez um levantamento em cidades como São Paulo, São Carlos, Rio de Janeiro, Brasília e Londrina e constatou que, logo de cara, o estudante terá de desembolsar até cerca de R$ 7 mil com contrato de aluguel, seguro fiança, compra de móveis e eletrodomésticos etc. Os gastos mensais ficam em torno de R$ 1,5 mil ( veja a tabela )


Aluguel

Depois da matrícula, os pais precisam escolher o local onde o filho vai morar. Entre as opções mais procuradas estão apartamentos pequenos com um ou dois dormitórios, quitinetes e vagas em pensionatos.

Os preços no Estado de São Paulo variam de cidade para cidade - R$ 300 para quitinete próxima à Universidade de São Paulo (USP) e R$ 1,2 mil para apartamento de dois dormitórios em bairro próximo à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Segundo pesquisa realizada pelo Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi), de dezembro a fevereiro, os apartamentos de um dormitório tiveram reajuste de 8% e os de dois e três dormitórios subiram até 17% em regiões como Centro e Butantã (zona oeste), devido à proximidade e ao fácil acesso à USP.

Em Campinas, não houve alteração no valor do aluguel, mas os preços são mais salgados que em São Paulo, de acordo com o Secovi. A média do valor de um apartamento no bairro Mansões Santo Antônio e Centro com dois dormitórios é de R$ 1,2 mil, sem contar condomínio e demais despesas. Campinas tem uma média de valor de aluguel um pouco mais alta que as outras cidades da região, pois o polo tecnológico está sempre contratando gente de fora e a procura por apartamentos é bastante grande o ano todo, explica a diretora de locação da regional de Campinas, Rosana Chiminazzo. 

Os pais precisam ser ágeis, pois o período entre a matrícula na universidade e o início das aulas é curto. Maithê Almeida de Araújo, que acaba de se formar em Medicina Veterinária pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), conta que teve pouco tempo para encontrar um lugar para morar. Por sorte achou seu apartamento em apenas um dia de busca. As imobiliárias responsáveis pela locação dos apartamentos próximos às universidades fazem plantão nos dias de matrícula para divulgar as opções, conta a veterinária que morava em Santos, litoral de São Paulo, e se deslocou 532 km para estudar. 

Bruno Nunes Caldeira Stefani, estudante do último ano de Engenharia de Produção na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), também conseguiu o imóvel rapidamente. Ele cruzou 230 km saindo de São Paulo rumo ao interior. Encontrar o imóvel foi o mais fácil. Dei sorte de pedir orientação para a maior imobiliária da cidade, que tinha um grande número de apartamentos, e consegui alugar em menos de uma semana, lembra o universitário, que pagava há quatro anos R$ 250 de aluguel por um apartamento de um dormitório no bairro ao lado da cidade universitária. 

Em São Paulo, a procura pode ser mais difícil. Esta época do ano é desfavorável para o estudante, pois as pessoas estão mais dispostas a mudar por causa das férias e a procura maior é por apartamentos de um ou dois quartos. Com isso, diminui a disponibilidade deste tipo de imóvel e o valor do aluguel aumenta, explica o diretor de locação residencial do Secovi, Hilton Pecorari Baptista.

Outra dificuldade é que muitos condomínios vetam estudantes. Muitos síndicos não aceitam estudantes no prédio para evitar bagunça, diz Teresa Cardoso, corretora da imobiliária Ligue Imóveis, especializada em apartamentos no bairro do Butantã.

A maioria das imobiliárias exige que os locatários tenham um fiador na cidade onde o imóvel está sendo alugado. Caso eles não tenham, a alternativa é pagar o seguro fiança. Atualmente não usamos mais o depósito de três aluguéis como garantia, então os pais podem fazer o seguro fiança, que normalmente é dividido em quatro parcelas, explica o diretor do Secovi. O valor pode chegar a 130% do valor do aluguel.

Brasília

O aluguel de um apartamento de um quarto (ou mesmo quitinetes) no Plano Piloto, onde está localizado o principal campus da Universidade de Brasília (UnB), não sai por menos de R$ 500 (em área comercial). Nas áreas residenciais, o valor pode ultrapassar R$ 1 mil. Sem contar a taxa de condomínio que, em geral, cobre somente as despesas com água.

A estratégia mais utilizada pelos estudantes que chegam a capital é alugar apartamentos maiores ¿ e próximos da universidade ¿ e dividir com colegas. Assim, eles podem caminhar ou ir de bicicleta para as aulas ou, dependendo da distância, pagar tarifas mais baratas nos ônibus. O local preferido pelos jovens são as quadras conhecidas por 400, em que há apartamentos menores e com menos luxos (como elevadores ou garagens).

Nos prédios dessas quadras, alugar um apartamento de dois ou três quartos custa entre R$ 1,2 mil a R$ 1,9 mil, em média. A variação depende do estado de conservação do imóvel, da oferta ou a localização. As taxas de condomínio também variam muito: R$ 180, R$ 200, R$ 250 e até R$300.

Gustavo Capela, 23 anos, deixou de morar nos Estados Unidos com os pais para estudar Direito na Universidade de Brasília. O jovem, que é carioca, ficou sozinho na cidade quando passou no vestibular, há cinco anos. Ele conta que a saga de alugar um apartamento foi grande. As imobiliárias exigiram dois fiadores com renda superior a três vezes o valor do aluguel (que era de R$ 700 à época) e que tivessem imóvel próprio em Brasília.

Gustavo Capela / Foto: Igo Estrela/Agência ObritoNews

Alugou um apartamento mobiliado de um quarto na 407 Norte, quadra bem próxima à UnB. Pagava mais R$ 200 de condomínio e ia a pé para a universidade. Para economizar, em vez de comer no Bandejão, fazia comida em casa. Nos finais de semana, também procurava fazer programas mais baratos e que não fossem longe de casa. Se uma pessoa viver só com o básico do básico, gasta pelo menos R$ 1,5 mil por mês. Sozinho, eu gastava mais de R$ 2 mil. E olha que sempre fui pão-duro, conta.

Agora que está se formando, Gustavo decidiu dividir um apartamento de três quartos com colegas. Ele pretende continuar na universidade fazendo mestrado e se preparando para concursos. Juntos, pagarão um aluguel de R$ 1,7 mil e uma taxa de condomínio de R$ 200. Apesar de não ser barato, acho que vale a pena ter esses gastos para ter essa vivência na universidade pública. Não só pela qualidade do ensino, mas pela possibilidade de conviver com a gente de todos os cantos e de todos os jeitos, afirma.

Rio de Janeiro

De acordo com dados da Pnad, do Intituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2007, a região metropolitana do Rio de Janeiro possui cerca de cinco milhões de domicílios, sendo 20% deles, ou seja, 1 milhão, alugados. Baseado em uma pesquisa informal, o Sindicato da Habitação do Rio de Janeiro (Secovi-Rio) estima que algo em torno de 5% desses (50 mil unidades) são procurados pelos estudantes de fora do Rio.

Foi bem difícil arrumar um apartamento para alugar por causa do fiador. Acabamos conseguindo por sorte. Descobrimos que uma senhora estava alugando um apartamento em um prédio na mesma rua da faculdade. Ela facilitou o contrato para a gente e fechamos o acordo, relembra Rafael Moreira, estudante da UERJ.

O universitário e os três amigos pagam por mês um aluguel de R$ 500, por um apartamento de dois quartos, sala, cozinha e banheiro. O condomínio custa R$ 270. O valor que pagamos está na média do mercado. Temos amigos que pagam mais pelo apartamento que moram, avalia.

Segundo o Secovi-Rio, diversas imobiliárias estão buscando facilitar a vida dos estudantes, evitando o estresse na hora de conseguir um fiador. Algumas administradoras, por exemplo, oferecem o seguro fiança em nome dos pais.

De acordo com o vice-presidente de Locações do Secovi-Rio, Antonio Paulo Monnerat, o maior número de estudantes que procuram os apartamentos vem de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. Os bairros mais procurados são Botafogo, Flamengo, Gávea, Leblon e São Conrado pela proximidade com as praias e a facilidade de locomoção.

Ao realizarmos o contrato de locação, imprimimos uma carta endereçada ao síndico comunicando a entrada no novo locatário. O próprio estudante fica encarregado de entregar o documento, em mãos, afirma Monnerat, lembrando que o novo morador passa a se submeter ao regulamento interno do edifício, podendo ser advertido caso não respeite as regras.

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