Cresce o número de cursos de graduação e pós interdisciplinares

Proposta defendida pelo Ministério da Educação, formações que integram diferentes áreas de conhecimento se popularizaram no País

Priscilla Borges, iG Brasília |

A despeito das polêmicas causadas por eles, os cursos superiores interdisciplinares têm se tornado mais populares e numerosos no País. O movimento que começou na pós-graduação, com a criação de programas de mestrado e doutorado que interligavam áreas diferentes do conhecimento, chegou à graduação pelo jeito mais simples: a abertura de novos cursos e universidades. No entanto, abrir áreas tradicionais às novidades ainda é um desafio, como reconhece o próprio Ministério da Educação, e gera resistência.

Segundo o dicionário, interdisciplinar é aquilo que é comum a diferentes disciplinas. Para os especialistas que cuidam da formação dos futuros profissionais brasileiros, o significado vai além. “A complexidade da vida está aumentando. A cada dia, multiplicamos conhecimentos e temos problemas mais difíceis para solucionar. Não conseguiremos mais encontrar as respostas que buscamos em uma única área”, afirma o coordenador de avaliação da área interdisciplinar da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Arlindo Philippi Jr.

O educador acredita que as diferentes áreas de conhecimento terão de trabalhar juntas para encontrar soluções para os problemas da sociedade atual. Philippi Jr lembra que grandes universidades e centros de pesquisa do mundo já têm levantado o debate sobre as formações interdisciplinares há mais de 20 anos. No Brasil, a década de 1990 foi o marco nesse sentido. Para ele, o movimento em prol da troca de saberes entre as áreas começou na pós-graduação porque é na pesquisa que as necessidades de apoio entre áreas se tornam mais evidentes.

“Os núcleos de excelência em conhecimento científico, tecnológico e centros de inovação já apostam nessas parcerias. O plano de apoio ao desenvolvimento científico do País, criado na década de 1980, estimulou a criação de grupos de pesquisa interdisciplinares também. É interessante observar que hoje não só o número de programas de pós-graduação com foco interdisciplinar está aumentando, como também a complexidade das propostas. São projetos mais amplos, que visam a formar o novo profissional que o mundo precisa”, destaca Philippi Jr., que também é professor da Universidade de São Paulo (USP).

Em média, o número de programas de mestrado, doutorado e especialização interdisciplinares aumenta 20% a cada ano. O dobro do que ocorre com as áreas tradicionais de pós-graduação, cujas taxas de crescimento estão em torno de 10%. Hoje, há 288 programas nessa área. Em 1998, eram 34. Só este ano, 129 propostas de cursos para pós nessa área foram protocolados na Capes.

Por outro lado, Philippi explica que é na área interdisciplinar que se concentram as maiores taxas de negação da abertura de programas. Enquanto nas áreas de conhecimento tradicionais a taxa de aprovação de propostas varia entre 60% e 80%, na interdisciplinar, o mesmo índice não passa de 30%. “As pessoas ainda não compreenderam muito bem o que significa criar um programa interdisciplinar. Não é uma mera junção de especialistas em áreas diferentes. É preciso mostrar que, de fato, os estudantes vão compreender a conexão entre os conhecimentos”, diz o coordenador.

Reunidos em Brasília nos últimos três dias, coordenadores de programas de todo o País debateram o tema para conhecer os resultados do trabalho feito pela Capes nos últimos 10 anos, quando a coordenação de avaliação da área interdisciplinar foi criada.

Graduação

As universidades estão ampliando a formação interdisciplinar já na graduação. Ao todo, 29 instituições federais de ensino superior oferecem bacharelados interdisciplinares. Juntas, chegam a aproximadamente 9,5 mil vagas. O número representa cerca de 4% do total de vagas oferecidas pelas federais em todo o Brasil. “O papel indutor do MEC foi indispensável nesse processo. A maioria dos cursos interdisciplinares na graduação foi criado a partir do programa de expansão das universidades, o Reuni”, ressalta o coordenador geral de expansão e gestão das instituições federais, Murilo Carmargo.

Para Camargo, as universidades descobriram no modelo uma saída para alguns dos maiores problemas enfrentados por elas, como o abandono, a evasão, a falta de mobilidade acadêmica entre os cursos. “O importante, e que as universidades estão descobrindo, é que as especializações devem ocorrer de forma continuada, após uma formação básica ampla”, destaca. “O modelo favorece a construção do conhecimento, essencial na era que vivemos”, diz.

Philippi acredita que a resistência à mudança é natural. “O desconhecimento causa estranhamento. Com o conhecimento que temos hoje, dividido como é, não temos como resolver os problemas vividos pela sociedade mundial. Esse novo profissional necessita de estar pronto para estabelecer parcerias. A formação de tantos doutores no País, 11 mil ao ano, tem impulsionado a absorção desses profissionais pelas instituições. Consequentemente, eles têm criado novos grupos e novos programas”, defende.

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