Representante da diretoria foi provocado, vaiado e saiu escoltado de audiência pública. Ao iG, disse que é contra fim de curso

Uma audiência pública que questionava ações recentes da reitoria da Universidade de São Paulo (USP) nesta quinta-feira acabou com o único representante da direção da instituição abandonando o local após ser intimidado por dois funcionários. O coordenador de Relações Institucionais, Wanderley Messias da Costa, saiu da Assembléia Legislativa sem falar enquanto cerca de 400 pessoas gritavam “covarde”. Ao iG, ele disse que concorda com a maioria das demandas apresentadas por alunos, docentes e funcionários da universidade.

Coordenador de Relações Internacionais da USP, Wanderley Messias da Costa, que saiu sem falar depois de ouvir por duas horas
AE
Coordenador de Relações Internacionais da USP, Wanderley Messias da Costa, que saiu sem falar depois de ouvir por duas horas
O evento foi agendado pelo deputado Carlos Gianazzi (Psol) para debater recentes demissões e gastos com compra de imóveis na USP. Com a divulgação na semana passada do relatório que prevê o fechamento de 330 das 1.020 vagas da USP Leste e o fim do curso de Obstetrícia, ganhou o apoio dos estudantes.

Cinthia Rodrigues/iG
Representante dos estudantes e dos funcionários falaram para cerca de 400 pessoas
O convite oficial para prestar esclarecimentos foi feito ao reitor, José Grandino Rodas, que não compareceu. Costa foi convidado paralelamente pelo deputado por telefone e aceitou. “Na terça-feira liguei para o reitor e avisei que iria. Ele disse que não compareceria, mas que não via problemas na minha presença”, conta.

Último chamado a compor a mesa da audiência, o coordenador foi muito vaiado. Por cerca de duas horas, representantes dos professores, funcionários e alunos se alternaram ao microfone com deputados que pediam a saída de Rodas. “O nosso objetivo aqui é um só: rodar o Rodas. Ele não tem moral para continuar reitor”, disse o diretor do sindicato dos funcionários, Magno Carvalho. O presidente da associação dos docentes da USP (Adusp), João Zanetic, disse que não respeita o reitor “nem como acadêmico, nem como colega”.

Agressão não foi vista pela plateia

A provocação ao representante da direção começou enquanto uma das funcionárias demitidas pela USP em janeiro fazia um pronunciamento. Atrás de uma pilastra, uma mulher cutucou o ombro de Costa. “Você não tem nada que estar aqui, pau mandado”, disse a mulher que assumiu à reportagem do iG a intenção de provocar o representante da universidade, mas não quis se identificar. “Estou aqui porque fui convidado, a senhora não tem o direito de me agredir”, respondeu o Coordenador de Relações Institucionais.

De verde, mulher que provocou a saída de Costa se posicionou ao lado dele, atrás da pilastra
Cinthia Rodrigues/iG
De verde, mulher que provocou a saída de Costa se posicionou ao lado dele, atrás da pilastra
Em seguida, um outro rapaz se dirigiu a Costa, que pediu a ele que falasse ao ouvido por causa do barulho. “Você não tem que falar nada, tem que ficar com o ouvido doendo e só”, afirmou o jovem em volume suficiente para a reportagem que estava a um metro de distância escutar. Costa, imediatamente, fechou a pasta e saiu. “Agora vocês expliquem no microfone porque eu não vou falar nada.”

Ninguém esclareceu, e os estudantes cercaram o coordenador na saída aos gritos de “covarde”. Foi preciso que policiais militares o escoltassem até uma escada.

“Eu entendo, já estive no lugar deles”

Por telefone, Costa afirmou que também já foi presidente da Adusp e entende as manifestações. “Eu fui um dos que defendi a criação da USP Leste e o curso de Obstetrícia, eu ia lá conversar com a comunidade. Até em reunião em igreja eu fui. Não mudei de ideia de 2004 para cá, sou contra o fechamento da carreira”, disse.

Na época da criação do campus, o atual coordenador de Relações Internacionais era prefeito da Cidade Universitária. Para ele, a comissão que fez o relatório sugerindo o fechamento de vagas errou. “Primeiro por não ter representante de obstetrícia, segundo por não ter debatido a questão e, terceiro, por ter divulgado antes de conversar com os interessados”.

Costa acredita que a união provocada pelo documento entre professores, funcionários e estudantes ainda terá consequências maiores. “A USP Leste é um projeto social, qualquer coisa que se faz lá tem repercussão. O que vimos hoje na Assembleia é um tsunami. A mobilização dos alunos é impressionante”

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