Conheça alunos beneficiados pelo Ciência sem Fronteiras nos EUA

Sete brasileiros vão estagiar na Nasa. Dilma promove programa de bolsas de estudo no exterior em visita oficial aos Estados Unidos

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Selecionados pelo programa Ciência sem Fronteiras , lançado em julho do ano passado pelo governo federal, sete estudantes brasileiros, vindos de diferentes regiões do país, terão uma oportunidade única nos próximos meses nos Estados Unidos. Paralelamente aos estudos na Catholic University of America (CUA), em Washington D.C., eles vão estagiar no centro de formação da agência espacial americana, o Nasa Goddard Space Flight Center, na cidade de Greenbelt, no estado de Maryland, a uma hora de distância da universidade.

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Com o objetivo de promover o programa Ciência Sem Fronteiras, a presidenta Dilma Roussef visita nesta terça-feira, em Boston, duas das mais respeitadas instituições de ensino dos EUA , a Universidade de Havard e o Massachusetts Institute of Technology (MIT). A expectativa é de que cerca de um quinto das 101 mil bolsas que o governo quer oferecer a brasileiros seja nos os Estados Unidos.

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O pequeno grupo faz parte de um contingente maior, de 650 estudantes brasileiros, que chegou aos Estados Unidos em janeiro desse ano para uma graduação-sanduíche que termina em dezembro. De diferentes formações ligadas às ciências exatas, os sete estudantes têm em comum o fato de terem se submetido a um rigoroso processo de seleção, que incluiu, além de uma redação em inglês, a aprovação em um exame de proeficiência, para comprovar o nível de fluência no idioma.

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Atualmente, eles moram no alojamento da universidade, recebem alimentação gratuita e ganham uma bolsa de US$ 300 mensais. "Trata-se de uma rara oportunidade para o amadurecimento pessoal e profissional desses jovens, que voltarão ao Brasil com o conhecimento necessário para desenvolver áreas da ciência carentes de mão de obra especializada", afirmou à BBC, Duília de Mello, astrônoma brasileira de projeção internacional, que dá aulas na CUA e foi responsável pelo programa de estágio na Nasa, onde faz pesquisas.

Quem são

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Fernando Jaeger, parananense de 23 anos, vai trabalhar em projeto de veículo aeroespacial
Aos 23 anos, Fernando Jaeger é natural de Guarapuava, no Paraná e estudava Engenharia Mecânica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, São Paulo. Tinha concluído o terceiro ano da faculdade, quando decidiu se inscrever no programa "para melhorar o inglês, crescer pessoal e profissionalmente, além de conhecer uma nova cultura". Jaeger sempre quis fazer intercâmbio. Sabia falar inglês, mas não tinha domínio no idioma. "Hoje, já falo fluentemente", diz.

Logo depois de chegar aos Estados Unidos, conta que se surpreendeu com a receptividade dos americanos. "O pessoal aqui tem sido bastante acolhedor", diz. Ele e os outros brasileiros têm participado dos eventos de confraternização promovidos pela faculdade, ainda "que não sejam tão numerosos". Em seu tempo livre, ele frequenta a academia da faculdade. "Também aproveito para visitar o lado cultural da capital americana", diz.

Jaeger está entusiasmado para o início do estágio na Nasa, onde vai trabalhar no projeto DMV Dust Migitation Vehicle, uma espécie de veículo aeroespacial que usa energia solar para reduzir a poeira lunar que se acumula e se espalha quando há um pouso na Lua. Como "bom paranaense", Jaeger diz estar sentindo falta do "churrasco".

BBC
Guilherme Cruzatto é paulistano e vai contribuir em projeto de balão na Nasa
Guilherme Cruzatto , de família de classe média, é paulistano e tem 23 anos. Estudava engenharia elétrica na Universidade Cruzeiro do Sul, na capital. "Decidi me inscrever porque estudar no exterior por um ano me pareceu uma oportunidade única que ainda não tive", disse. "Já tinha planos para fazer isso com meu próprio dinheiro, mas ainda não tinha conseguido juntar a quantia necessária", acrescenta. Cruzatto já sabia falar inglês, mas hoje se considera "quase fluente". Segundo ele, "nós, brasileiros, procuramos ficar juntos em grande parte do tempo, mas sempre estamos abertos para conhecer alunos daqui e interagir com a cultura americana".

Cruzatto vai trabalhar em um projeto da Nasa chamado Cosmology Large Angular Scale Surveyor (CLASS), "através de um balão que tenta buscar o entendimento da origem do universo". Diz que "sente saudade do Brasil", mas que considera isso "normal". "Acredito que esse programa será uma das experiências mais enriquecedoras de nossas vidas, e toda saudade que sentimos ou sentiremos no futuro será muito bem recompensada", conclui.

BBC
Estudante da UnB, Lucas Oliveira nunca havia viajado de avião para fora do país
Natural de Natal, no Rio Grande do Norte, Lucas Oliveira estudava engenharia mecatrônica na Universidade de Brasília (UnB). Aos 21 anos, nunca tinha viajado de avião para fora do país. "O máximo a que cheguei foi à Venezuela, de carro", diz. Sem condições financeiras para pagar a anuidade de uma universidade americana, Oliveira decidiu se inscrever no programa que viu como "uma oportunidade incrível de aprimorar o idioma e a minha carreira".

O resultado veio pouco antes do recesso do fim do ano. "Já estava de malas prontas para visitar minha família quando chegou a carta da faculdade", diz. "Foi um dos melhores dias da minha vida", acrescenta. Em julho do ano passado, ele já havia feito parte de um pequeno grupo de estudantes selecionado para um curso de quatro semanas no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em Brasília.

Segundo Lucas, os americanos foram "receptivos" e "as aulas de engenharia daqui têm mais mulheres, ao contrário do Brasil", o que, segundo ele, "é ótimo; foi uma das primeiras coisas que perguntamos".
"Mas não sou muito chegado a festas, mas aproveito meu tempo livre para jogar basquete e, às vezes, futebol com a galera", diz.

BBC
Matheus Teixeira, da UnB, acredita que aprende mais no EUA: "Eles passam mais dever de casa"
Matheus Teixeira
, nascido em Porto Velho, Rondônia, mudou-se com a família para Brasília aos oito, cidade que seu avô, potiguar, ajudou a construir na década de 50. Teixeira estudava Engenharia Mecatrônica na Universidade de Brasília (UnB) quando, a um ano de terminar a faculdade, decidiu aplicar para o programa. "Estava pessimista; achava que não seria chamado, quando recebi a carta da faculdade comunicando minha aceitação", conta.

Segundo ele, a faculdade nos Estados Unidos é bem diferente da do Brasil. "Eles passam mais dever de casa", diz. "Sinto que estou aprendendo mais", acrescenta. Teixeira vai estagiar no projeto Primordial Inflation Polarization Explorer (PIPER), um balão que medirá a polarização da radiação cósmica de fundo, que ajuda a explicar a origem do universo. "Amo meu país e quero voltar logo para a minha terra, onde vou colocar em prática tudo o que aprendi aqui", resume.

BBC
Para Pedro Nehme, de Brasília, as aulas nos EUA são "complementares às do Brasil
Pedro Henrique Nehme
é natural de Brasília e tem 20 anos. Estudava Engenharia Elétrica na Universidade de Brasília (UnB) quando decidiu se inscrever no programa. "Sempre quis estudar nos Estados Unidos, país que acumula a maior quantidade de prêmios Nobel do mundo", disse. Também ficou motivado porque "fazia iniciação científica e tinha um amigo que havia estudado no MIT".

Dos dez estudantes de sua faculdade que pleitearam uma vaga no programa, Nehme foi um dos quatro selecionados. Para Nehme, as aulas nos Estados Unidos são "complementares às do Brasil. Aprendo aqui o que não aprendi no Brasil e vice-versa". "Mas eles passam muito dever de casa", afirma.

Segundo ele, os colegas americanos são "de maneira geral, acolhedores". "Como há poucos brasileiros por aqui, eles querem nos conhecer", conta. "Não sabem muito do Brasil, e, vez ou outra, me perguntam se eu falo português ou brasileiro".

As festas são "poucas", porque "a universidade é católica e não permite esse tipo de evento dentro do câmpus, onde nós, estudantes, moramos", alega. Embora fluente no idioma, ainda sofre "com o sotaque dos funcionários do restaurante da universidade, que são do interior dos Estados Unidos. São pessoas mais humildes, que nem sempre nos entendem. Normalmente, acabam colocando mais comida no prato do que eu peço", brinca.

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Tito Fideles estudou 2 anos no ITA antes de se candidatar para bolsa nos Estados Unidos
Não é a primeira vez que Tito Fideles , de 25 anos, carimba seu passaporte. Em 2001, ele passou uma temporada de seis meses na casa da tia nos Estados Unidos. Dez anos depois, em 2010, voltou ao país de férias e, no ano passado, resolveu fazer trabalho voluntário no México. Ela já havia concluído dois anos de Engenharia Mecânica Aeronáutica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, São Paulo, quando aproveitou para embarcar numa experiência que, segundo ele, "nos dá a oportunidade de estudar em uma faculdade de alto nível nos Estados Unidos e vivenciar novas culturas, com alunos de todo o mundo".

Fideles domina com facilidade o inglês, embora o sotaque acabe por revelar, vez ou outra, sua origem brasileira. "Daí começam a falar espanhol comigo e, educadamente, eu peço para conversar em inglês, pois quero treinar mais o idioma", brinca.

Na Nasa, Fideles trabalhará junto com Jaeger no projeto DMV Dust Migitation Vehicle, o veículo espacial que usa energia solar para reduzir a poeira acumulada e lançada por aeronaves que exploram a Lua. Do Brasil, ele sente saudades dos amigos e da família, além de "poder voltar de uma festa de madrugada porque aqui tudo fecha muito cedo", brinca.

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Quando chegou aos EUA, Victor Addono disse que teve dificuldades, mas foi apoiado por professores
Victor Addono,
aos 21 anos, já conhecia os Estados Unidos, onde havia feito parte do Ensino Médio numa escola em Chicago, no Estado americano de Illinois. Ele estudava Matemática Aplicada e Computacional na Universidade de São Paulo (USP) havia dois anos, quando decidiu aplicar para o programa por ser "extremamente tentador em função do lado financeiro e outras oportunidades futuras".

Quando chegou à CUA, conta que teve dificuldade em assimilar o conteúdo - em algumas áreas, mais avançado do que o no Brasil. "Precisei correr atrás do que não aprendi, mas fui muito ajudado pelos professores", diz. Addono, que já tinha amigos dos tempos de escola nos Estados Unidos, confirma a receptividade dos americanos. "A comunidade de estudantes foi muito acolhedora e amigável".

Na Nasa, ele vai estagiar em simulações matemáticas voltadas para a física aplicada. "Nosso objetivo é desenvolver métodos com os quais poderemos analisar o material estudado sem danificá-lo ou destruí-lo", resume.

Ciências exatas como prioridade
O programa Ciência sem Fronteiras prevê distribuir 101 mil bolsas de intercâmbio para estudantes de universidades brasileiras, da graduação ao pós-doutorado, até 2015. O objetivo é, principalmente, suprir o déficit de profissionais ligados às áreas de ciências exatas.

Embora tenha recentemente conquistado o posto de sexta maior economia do mundo, o Brasil ainda está na 47ª posição entre 125 países em termos de produção de inovações científicas e tecnológicas, segundo um levantamento elaborado pela Confederação da Indústria da Índia, em parceria com o Instituto de Administração Europeu Insead e a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI).

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