Como alcançar qualidade na nova Universidade da Fronteira Sul

Criar cultura e disciplina universitárias em alunos é desafio da instituição. Bom nível também passa por envolvimento dos docentes

Tatiana Klix, enviada a Chapecó (SC) e Erechim (RS) |

Apesar da concepção da nova Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) conter elementos que são diferenciais em relação a outras federais mais antigas e consolidadas, como cursos voltados à área rural, ao desenvolvimento sustentável, ao cooperativismo e à educação, a instituição com campi em Santa Catarina, no Paraná e no Rio Grande do Sul tem em comum com a maioria das universidades um objetivo a ser perseguido: a qualidade.

O desafio é compartilhado por estudantes – que esperam para o quanto antes a conclusão das cinco sedes definitivas com todos laboratórios e bibliotecas organizados –, professores – que citam estrutura física, núcleos de pesquisa e alunos bem preparados como pontos a desenvolver – e reitoria.

“Se a UFFS não conseguir ser de qualidade, é problema. Mas é uma questão de tempo, ela vai ser”, promete o reitor Dilvo Ristoff, para quem a tarefa passa pela qualidade do corpo docente e o envolvimento dos alunos.

O processo de seleção da universidade – realizado pelo Enem com uma nota de corte para os candidatos de escola pública – consegue fazer dela uma instituição popular, mas também pode abrir espaço para que nem sempre os mais bem preparados sejam aprovados. Segundo o reitor, algumas precauções foram tomadas para evitar que estudantes com deficiências na formação ingressassem na UFFS, como o veto a alunos com nota zero em alguma das provas do exame e a exigência mínima de um 3 na redação.

Mesmo assim, nesse primeiro ano de funcionamento, muitos calouros estão estranhando a nova rotina de estudos universitária. “Tem que estudar muito, principalmente para cálculo, química e física”, conta César Tiago Forte, de 18 anos, que estuda agronomia em Erechim.

Os professores sentem as dificuldades na sala de aula e trabalham para ajudá-los a adquirir disciplina para o estudo.

“Muitos vêm com deficiências do ensino médio e não estão acostumados a se dedicar. Digo para eles esquecerem um pouco a vida social”, diz o professor de Matemática Marcos dos Reis, de 38 anos.

A dica não é pontual, mas uma estratégia da instituição, que incentiva os estudantes a se envolverem integralmente com a universidade.

“Temos que colocar a turma para estudar, manter eles o dia todo aqui dentro e evitar que tenham que trabalhar lá fora”, diz o reitor.

Para isso, a UFFS distribui bolsas de permanência (R$ 250) para 650 alunos e de iniciação acadêmica (R$ 450) para 250, quase a metade dos 1972 alunos. O músico Allan Vieira, de 30 anos, é um dos que recebe o benefício para desenvolver uma atividade de pesquisa. Há 10 anos sem estudar, agora participa de um grupo de filosofia com outros três colegas. Um texto escrito por eles já foi aprovado para ser apresentado em três encontros acadêmicos. “Quanto mais envolvido no estudo, mas instigante fica”, relata.

Arte/iG
Fonte: UFFS

Tronco comum

O programa pedagógico da UFFS inclui uma série de disciplinas que alunos de todos os cursos têm que cumprir no primeiro ano. No chamado tronco comum estão aulas de português, estatística, história, sociologia, metodologia científica e a temida matemática, a que os alunos tiveram maior dificuldade no primeiro semestre, chegando em algumas turmas a atingir 50% de reprovação.

Prevendo dificuldades que surgirão nas cadeiras de cálculo, alguns docentes aproveitam a disciplina inicial para dar uma espécie de pré-cálculo, embora essa não seja a ideia que o reitor tem para nenhuma dessas matérias.

“O tronco comum não foi criado para se compensar eventuais fragilidades. Foi concebido para dar aos indivíduos um conjunto de competências mínimas. Uma pessoa tem que saber um pouco de estatística para ler um jornal e interpretar um gráfico, por exemplo”, explica Ristoff.

Esse conceito, no entanto, parece que ainda não está claro dentro da instituição e encontra algumas resistências de docentes e alunos. Para Evandro João Donin, de 26 anos, estudante de agronomia, a dificuldade fica nas aulas de humanas.

“A única disciplina na qual fui reprovado no ensino médio foi história, e agora eu tenho que fazer história de novo”, protesta. Mesmo assim, está satisfeito com a atenção dada pelos professores de todas as áreas e acredita que logo as “coisas vão fluir”.

As dúvidas e os protestos são percebidos pela professora de arquitetura Danielle Reche, de 29 anos, que apoia o tronco comum, mas teme que acabe sendo usado para nivelar a turma. “Sou a favor se forem esclarecidos seus objetivos. Tem que ser algo para ajudar na formação para a vida”, conclui.

Conheça nesta quinta-feira a história da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em Santarém.

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