Cidade campeã de medalhas quer aparecer no ranking do Enem

Única escola de Cocal dos Alves tem a maior média entre as estaduais do Piauí, mas critério de participação a exclui de lista

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo |

Campeã de medalhas em competições educacionais, Cocal dos Alves , no interior do Piauí, subiu 40 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2010 enquanto a média brasileira dos estudantes do último ano aumentou 10 pontos. A nova nota da única escola de ensino médio do município, a Augustinho Brandão, é 585,6 – enquanto a do País, 511. Seria suficiente para o 1º lugar entre as estaduais piauienses, mas no ranking que lista apenas as instituições em que mais de 75% de alunos participaram da prova, o município ficou de fora.

Cinthia Rodrigues
Alguns dos estudantes premiados com troféus e medalhas nas olimpíadas de matemática
Apenas 56% dos alunos matriculados no 3º ano fizeram o Enem – mesmo porcentual entre todos os estudantes do Brasil. A explicação para a falta de adesão em massa dos estudantes, como na maior parte das escolas públicas , é o baixo interesse em cursos superiores, para os quais a nota na prova poderia dar acesso. A situação é agravada pelo grande porcentual de alunos que fizeram Educação de Jovens e Adultos (EJA). O Ministério da Educação (MEC) desconsidera essa modalidade na nota geral, mas em Cocal dos Alves, como não existe turma de EJA em ensino médio, os adultos que concluem o fundamental em unidades rurais, voltam para uma turma regular na etapa seguinte.

Agora, para aparecer no próximo ranking, os professores e a direção da escola convenceram os alunos a fazer a prova deste ano, mesmo que, a princípio, não pensem em continuar os estudos. “Só três não se inscreveram no Enem 2011”, diz a diretora, Kuerly Vieira de Brito. “A nota pode cair, já que vamos colocar pessoas que fizeram EJA, em que o conteúdo de um ano é passado em um semestre, para fazer a mesma prova que os demais, mas a vida é cheia de riscos.”

O convencimento aos alunos foi possível antes do prazo para inscrições no Enem porque os educadores já sabiam que o Ministério da Educação (MEC) sugeriria a divisão das escolas por porcentual de participação no Enem antes da divulgação nesta segunda-feira. A informação foi dada pelo próprio ministro, Fernando Haddad, ao professor de matemática, Antonio Cardoso do Amaral, quando o cocalalvense foi convidado a conhecer Brasília em julho depois que a cidade se destacou pelo sexto ano consecutivo na Olimpíada Brasileira de Matemática para Escolas Públicas.

“Eu disse a ele que entendo haver uma haver uma justiça maior quando em dar nota para uma escola quando há uma grande participação no exame, mas que não concordava em não divulgar o restante das notas, pois a situação na minha cidade é muito diferente e nós queremos acompanhar o resultado do nosso trabalho”, explicou Amaral, ao iG enquanto ainda procurava dados de 2010, entre os vários rankings diferentes que se formaram.

Em uma lista completa, com as 23 mil escolas brasileiras que tiveram estudantes inscritos no Enem, a Augustinho Brandão ficaria em 4.122º lugar. Se consideradas apenas as públicas 17.211 instituições públicas, subiria para a 481ª posição. Se a nota fosse só a de matemática, iria parar no 258º lugar. No Piauí, a posição seria a 51ª no geral, e a quarta pública geral atrás de três federais: Instituto Federal, Colégio Agrícola Bom Jesus e Campus Amilcar Ferreira Sobral. Novamente, considerada apenas a média em matemática, seria possível subir para a 2ª posição. Entre as públicas estaduais, seria a primeira da rede.

Cidade será tema de documentário do MEC

O desempenho em contraste com a precariedade da cidade chamou atenção dos governos estadual e federal. Em visita a cidade, o iG mostrou que os 5,6 mil habitantes vivem principalmente na zona rural e faltam laboratórios, quadra, biblioteca e até refeitório nas escolas .

Um novo prédio para a Augustinho Brandão está pronto desde julho. A inauguração aguardava a agenda de políticos , segundo informou a Secretaria de Educação, mas agora será realizada durante a filmagem de um documentário sobre a cidade. Desde o início do mês uma equipe ligada ao MEC está na cidade e, segundo a diretora Kuerly, eles farão as últimas tomadas até segunda-feira na escola atual e, em seguida, os alunos vão para o novo prédio. “Vamos fazer a mudança sem cerimônia oficial, se tiver, vai ser depois.”

Cinthia Rodrigues
A diretora Kuerly em frente à única escola de ensino médio de Cocal dos Alves

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