¿Capitães da Areia¿, a narrativa pela ótica de meninos de rua

Romance mais vendido de Jorge Amado transforma menores abandonados em heróis

Marina Morena Costa, iG São Paulo

Não há violência maior do que o abandono. E é justamente essa violência que Jorge Amado explora e coloca sob a ótica da vítima em “Capitães da Areia”. Na obra, de 1937, os heróis são os meninos de rua. “Pela primeira vez na literatura brasileira, o menor abandonado é o centro da história. Hoje ele é motivo de preocupação, mas há 73 anos era confundido com deliquente e a discriminação era grande”, afirma Eduardo de Assis Duarte, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador da obra de Jorge Amado.

AE
Jorge Amado posa em sua casa em Salvador, em foto de 1996
Duarte destaca que “Capitães da Areia” não tem grande importância estética, formal, e sim política. “Jorge Amado usa a forma de romance tradicional, ele se apega à herança romântica do século 19. Não é um livro de vanguarda modernista. A importância da obra é de natureza política. Trata-se de um livro politicamente revolucionário para a época”, afirma o professor e autor da tese de doutorado “Jorge Amado: Romance em tempo de utopia”.

“Capitães da Areia” foi censurado, e Jorge Amado preso pela polícia do Estado Novo (1937-45), regime de exceção instituído por Getúlio Vargas que limitava a liberdade política. Mais de mil exemplares de livros foram queimados em uma grande fogueira em praça pública em Salvador.

“Na época, o livro foi um escândalo. Além da questão do erotismo, o ponto de vista das crianças ladras não era aceito. Jorge tem um olhar humano e as transforma em figuras humanas e não em monstros. O autor não defende o roubo, mas ele mostra porque as crianças agem assim. Elas roubam porque têm fome, porque não têm pai e mãe”, elenca Duarte.

Romantismo

O pesquisador avalia que há dois pontos extremamente românticos na obra: o personagem Professor, que rouba só livros e lê as histórias à noite para os outros meninos, e o crescimento do pequeno marginal que se torna líder de seu povo – Pedro Bala não vira chefe de quadrilha, ele se torna uma liderança política. “Esses elementos compõem o encanto do livro. Há uma chama romântica de alavancar o oprimido, um otimismo e uma esperança em relação a ele. Os meninos são heróis idealizados e, no fundo, são puros.”

Apesar de ser uma obra com estrutura romântica, há elementos realistas na obra, como a crítica social. E os estudantes devem estar atentos a questão dos estilos de época. “Por ter sido publicado em pleno modernismo, ‘Capitães’ tem uma linguagem moderna, próxima dos avanços do modernismo – menos formal, com traços de oralidade. Mas a estrutura é romântica: o bem vence o mal, o herói supera tudo e há o exagero romântico.”

Uma cena que exemplifica o “exagero romântico” citado por Duarte é o suicídio de um personagem durante uma crise de consciência. O menino estava prestes a ser adotado por uma mulher de classe média, mas cede à pressão do bando e permite que eles assaltem a casa de sua futura mãe. Culpado e perseguido pela polícia, ele se joga do alto do Elevador Lacerda, em uma cena tipicamente romântica do sacrifício do herói.

Jorge Amado tinha apenas 25 anos quando escreveu “Capitães da Areia”. “É um livro de um jovem, que acredita que os pobres vão salvar o País”, resume Duarte. Para o pesquisador, a obra representa um grande painel da miséria, a partir de um olhar terno e sensível, que toma partido dos menores e mostra que eles são vítimas de um problema muito mais amplo, o abandono dos pobres no Brasil. “É uma violência muito maior do que a praticada pelo bando de garotos. É uma violência sistêmica. Não há violência maior do que o abandono. Só a morte”.

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