Brasileiros participam de feira mundial de ciências e engenharia

Estudantes foram selecionados no Brasil e irão competir nos EUA por bolsas de estudo e prêmios que somam US$ 4 milhões

Marina Morena Costa, iG São Paulo |

Vinte oito jovens brasileiros embarcaram neste sábado (7) para participar da maior feira de ciências para estudantes do ensino médio, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Eles são responsáveis por 18 projetos finalistas em diferentes categorias em duas feiras brasileiras de ciências, a Febrace e a Mostratec.

Na competição mundial, a Intel International Science and Engineering Fair (ISEF – sigla em inglês para feira internacional de ciência e engenharia) os brasileiros vão competir com mais de 1.500 estudantes de 65 países. Durante uma semana, do dia 8 a 13 de maio, os competidores irão apresentar seus projetos aos jurados e ao público em geral e participar de palestras com ganhadores de prêmios Nobel. Os prêmios em dinheiro e em bolsas de estudo em universidades americanas somam mais US$ 4 milhões, segundo os organizadores.

A maioria dos projetos classificados apresenta alternativas na produção de energia e soluções sustentáveis para o meio ambiente. Carlos Guilherme Lopes Grotto, de 17 anos, criou um carvão feito com coco babaçu, mandioca e lodo, que pode ser usado tanto na indústria como domesticamente, para se fazer um churrasco, por exemplo.

“Ele é menos poluente, libera quantidades menores de CO² e metais tóxicos, e é mais eficiente, tem maior poder calorífero, do que o carvão de origem vegetal”, explica Carlos. O estudante se formou no ano passado em uma escola particular de Imperatriz, no sul do Maranhão, onde desenvolveu o projeto, e agora cursa engenharia de bioprocessos na Universidade Federal do Tocantins (UFT).

A ideia para o projeto de Carlos surgiu de um problema da região onde morava, produtora de carvão vegetal. “Os jovens são geniais em descobrir problemas de verdade e apresentar soluções inovadoras”, afirma Roseli de Deus Lopes, professora da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace).

Marina Morena Costa
William, a professora e coordenadora do projeto, Maria das Graças, e Wanderson
Viajando com a ciência

Esta é a segunda vez que o projeto de Wanderson Magalhães da Costa e William Braga de Sousa, ambos de 17 anos, os leva para outro país. A primeira foi em agosto do ano passado, quando eles apresentaram o programa de robótica educacional no Fórum Internacional de Ciência e Engenharia, em Santiago do Chile. Lá, ganharam o primeiro lugar na categoria geral, que incluía também projetos universitários.

Alunos do Colégio Liceu Estadual de Maracanaú, na região metropolitana de Fortaleza, Wanderson e William montaram oficinas de robótica, com a aplicação prática de conceitos de matemática e física para alunos da 1ª e 2ª série do ensino médio que apresentavam dificuldades. Em vez de aulas de reforço, os estudantes montavam pequenos robôs com materiais recicláveis ao custo de R$ 55 cada.

“Obtivemos um aumento de 68% na média geral desses alunos em Matemática, o que equivale a 2,5 pontos, e uma melhora de 86% nas notas em Física (ou 3,6 pontos)”, comemora Willian. Maria das Graças França Sales, coordenadora do projeto e professora das disciplinas envolvidas, conta que o interesse dos alunos pela escola aumentou depois do projeto. “Eles estavam desmotivados e não entendiam onde iriam usar a teoria. A robótica mostrou na prática”, aponta.

A dupla de estudantes aprendeu espanhol em dois meses para se apresentar no Chile. Neste ano, tiveram um reforço em inglês e participaram de um workshop de apresentação de projetos oferecido pela Intel, patrocinadora da viagem de todos os estudantes para os EUA. “Percebemos que nossos estudantes tinham potencial, mas não eram premiados. Há três anos começamos a treiná-los para a apresentação e demos um salto: em 2009 foram cinco prêmios, e em 2010, 19 premiações e duas menções honrosas”, destaca Rubem Paula Saldanha, gerente de educação da Intel.

Escolas-feiras-universidades

Estudantes e professores relatam que as premiações em feiras científicas provocam verdadeiras revoluções em suas escolas. Alunos antes desestimulados, que não viam utilidade nas disciplinas do ensino médio , passam a aprender na prática. “Todos os nossos ex-alunos que participaram de projetos científicos continuaram os estudos. Estão em universidades públicas ou são bolsistas do Prouni (Programa Universidade para Todos, que concede bolsas de estudo para alunos de baixa renda em instituições particulares de ensino superior)”, aponta a professora Maria das Graças.

Roseli afirma que o objetivo da Febrace é justamente este: provocar os estudantes e despertar suas vocações profissionais. “Nós (a Politécnica da USP) queremos estudantes apaixonados pela ciência e pela tecnologia, que tenham certeza do curso que escolheram, e não aqueles que caem de paraquedas e talvez nem queiram estudar engenharia”, comenta.

Projetos científicos também trabalham a interdisciplinaridade, competência cobrada nos vestibulares e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Para desenvolver uma ideia, o aluno usa diversas competências e múltiplas áreas do conhecimento. “O professor de português tem que estar envolvido. Em 10 anos de Febrace, percebemos uma melhora muito significativa no registro e na documentação dos projetos”, comemora Roseli. 

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