Brasil não tem candidatos a Nobel de Química, dizem vencedores

Laureados com o Nobel da área que participam de evento em Campinas (SP) dizem que País ainda tem longo caminho a seguir

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo |

Antonio Scarpinetti/Unicamp
O suíço Kurt Wüthrich, prêmio Nobel de Química em 2002 dá palestra na Unicamp
Na opinião de ganhadores do prêmio Nobel de Química, o Brasil ainda está longe de ter um agraciado com este título, ao menos na área em que atuam. O iG conversou com o japonês Ei-ichi Negishi, premiado em 2010, o norte-americano Richard Schrock (2005) e o suíço Kurt Wüthrich (2002) e todos disseram que não conhecem candidatos no País.

Os três premiados, junto com uma quarta Nobel, a israelense Ada Yonath (2009), e mais 14 palestrantes brasileiros e internacionais participam esta semana de um evento na Universidade de Campinas patrocinado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Acompanham a programação da Escola São Paulo de Ciência Avançada um seleto público de estudantes da graduação e pós-graduação das universidades estaduais paulistas e convidados de instituições estrangeiras, muitos dos quais são fãs dos Nobel.

Antonio Scarpinetti/Unicamp
Nobel em Química em 2005, Richard Schrock com alunos na Unicamp
O norte-americano premiado por desenvolver catalisadores que permitiram aperfeiçoar diversos processos nas indústrias petroquímica, farmacêutica, veterinária e agroquímica, está no Brasil pela primeira vez. Disse que nunca foi convidado antes, que não tem contatos profissionais com pesquisadores brasileiros e desconhece as pesquisas realizadas no País. A possibilidade de um brasileiro ganhar o Nobel, portanto, não existe para ele. “Nem eu, nem ninguém pode visualizar isso”, respondeu categoricamente. “Não sei dizer em outras áreas, talvez Medicina ou Física, mas não em Química.”

Nem eu, nem ninguém pode visualizar isso (Schrock, sobre um Nobel em Química para o Brasi)

Negishi prevê um cenário mais otimista. Para o pesquisador japonês, que ganhou o Nobel por suas contribuições para reações químicas catalisadas pelo paládio , o Brasil está crescendo rapidamente e há esperança para o futuro da pesquisa se as pessoas se prepararem. “Atualmente não há candidatos conhecidos ao prêmio, mas no mundo atual, cada vez mais, qualquer um pode fazer algo muito bem em qualquer lugar e se destacar. Isso vale para esportes, artes e não acho que seja diferente para ciências”, diz, sem arriscar uma área ou um nome proeminente. “Eu nunca acertei, exceto por dizer que eu seria um Nobel. Mesmo assim, levou quase 30 anos entre as primeiras previsões e o prêmio.”

O suíço Wüthrich é o mais acostumado ao Brasil. Conta que já veio ao País “umas 10 vezes”, conhece pesquisadores daqui que atuam em seu campo e já visitou laboratórios de Química no Rio de Janeiro, mas não conhece candidatos brasileiros ao Nobel.

Para o pesquisador, premiado por desenvolver a técnica de ressonância magnética nuclear para esclarecimento de estruturas de compostos químicos, o desenvolvimento de pesquisa precisa de estabilidade para criar tradição. "O sobe e desce no Brasil não proporciona um ambiente de sucesso", diz. “Pode acontecer de alguém fazer uma descoberta promissora, mas normalmente é preciso investir em pelo menos duas gerações: uma boa que forme uma melhor.”

Muito atrás de China, Rússia e Índia
Para eles, a melhora na economia que coloca o Brasil ao lado de Rússia, Índia e China no grupo de países emergentes conhecido como Bric não se estende ao desenvolvimento científico. Todos concordam que os Estados Unidos ainda são a maior potência nesta área, mas enaltecem o progresso de outros países. “Os EUA continuam no topo, embora a diferença entre eles e outros locais tenha diminuído. A Europa, surpreendentemente, mantém seu posto, apesar da crise econômica, e a China vem crescendo”, diz Negishi.

Eles estão em outro patamar em relação ao Brasil e isso é algo que vocês têm que aceitar.” (Wüthrich, sobre o restante do Bric)

O norte-americano avalia que entre os emergentes o destaque é exclusivamente da China. “Eles têm a preocupação de publicar nos periódicos mais renomados, então naturalmente tomamos conhecimento do que estão fazendo”, afirma Schrock, acrescentando que não vê o mesmo ocorrer no Brasil.

Wüthrich ressalta o passado da Rússia com vários prêmios em Matemática e Física e diz que, se fosse por padrões científicos o Brasil não pertenceria a esse grupo. “A China é um gigante e eles têm feito enormes esforços científicos. Como a Índia, eles já possuem prêmio Nobel. Eles estão em outro patamar em relação ao Brasil e isso é algo que vocês têm que aceitar.”

Crédito ao sistema educacional
Os laureados têm também opinião parecida em relação à participação do sistema educacional nos prêmios que obtiveram. O suíço explica que em seu país 80% dos professores acadêmicos são estrangeiros. “O primeiro fator para a Suíça ter 3,5 prêmios Nobel para cada milhão de habitantes é a abertura à internacionalização. Não há tratamento especial aos suíços, queremos os melhores”, conta.

Divulgação
Ei-ichi Negishi, Nobel de Química em 2010
Sua própria história também mostra a valorização dada pelo país à pesquisa. Quando ganhou o Nobel em 2002, estava prestes a se aposentar e respeitar uma legislação rígida na Suíça que estabelecia 65 anos como a idade máxima de trabalho. “Eu já tinha até um contrato com um laboratório norte-americano quando ganhei, mas o governo mudou a lei para que eu pudesse ficar e manter a formação das novas gerações.”

Além da Suíça, Wüthrich estudou alguns anos nos Estados Unidos. O japonês Negishi, que também frequentou escolas norte-americanas, diz que divide seus próprios créditos principalmente com os Estados Unidos. “A educação acima da graduação que recebi lá contou com alguns dos melhores cientistas que conheci”, afirma. O norte-americano nunca estudou em outro lugar. “Não posso reclamar, acho que tive tudo que precisava.”

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