Avaliação seriada da UnB passa por balanço após 15 anos

Programa que avalia alunos ao final de cada série do ensino médio será analisado pela instituição para passar por aperfeiçoamento

Priscilla Borges, iG Brasília |

No próximo fim de semana, 64 mil estudantes deverão fazer as provas de um projeto que se tornou pioneiro entre as instituições federais de ensino superior: o Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB). Há 15 anos, alunos do ensino médio passaram a ser selecionados em etapas, ao final de cada série cursada. As provas de cada etapa concentram apenas as matérias daquele ano e há possibilidades de recuperar a nota tirada na série anterior, já que os pesos de cada teste são crescentes. Hoje, instituições como as universidades federais de Uberlândia, Lavras e de Sergipe usam modelos semelhantes. 

Para os estudantes, essa é a forma mais fácil de garantir uma vaga na universidade. O vestibular, além de momento único, é mais concorrido que o PAS. O programa oferece 2 mil vagas anualmente, sempre no fim do ano. As 4 mil vagas disponíveis na instituição nessa época são divididas entre o vestibular tradicional e o PAS. A diferença é que, da avaliação seriada, só podem participar os estudantes ainda matriculados no ensino médio, que tenham feito as provas dos anos anteriores.

Fellipe Bryan Sampaio
Weudes, Sarah, Nayara e Daniel apostam no PAS como melhor forma de entrar na universidade. Provas mais simples e menos conteúdos os atraem

Weudes Santos, 17, Sarah Fernandes, 16, Daniel Batista, 18, e Nayara de Sousa, 15, contam que os professores, desde o início do ensino médio, afirmavam que investir no PAS era o melhor negócio para quem queria chegar à Universidade de Brasília. Por imaturidade, como eles mesmo definem, demoraram a se dar conta disso. Hoje, no 3º ano, eles recomendam o programa a todos os estudantes que encontram. “É mais fácil porque vamos nos aperfeiçoando a cada ano e é menos concorrido”, comenta Weudes.

Escola pública

Apesar de ser uma das propostas da avaliação quando foi criada, a ampliação de egressos de escolas públicas na universidade não foi avaliada ao longo desses anos. Há cinco anos, quando houve um primeiro balanço do programa, divulgou-se apenas que 20% dos aprovados no PAS eram de colégios públicos. O número exato nunca foi divulgado, mas o Decanato de Graduação da UnB promete mudar isso e está preparando um grande balanço do programa para os próximos meses.

Sarah acredita que o fato de a cobrança das matérias ser dividida ao longo do tempo é uma das maiores vantagens do programa. Apesar disso, nem todos se sentem estimulados a participar do PAS. “Muita gente desiste no meio do caminho porque acha que não vai passar. Talvez, se houvesse cotas para alunos da rede pública, eles teriam mais motivação para disputar as vagas”, opina Weudes. “Muitos acabam se dedicando para concursos ou fazendo o vestibular depois”, diz Daniel.

A professora de literatura Ana Maria Gusmão, que dá aulas na escola de Weudes, Daniel, Sarah e Nayara, o Centro de Ensino Médio Setor Leste, em Brasília, concorda que nem todos os estudantes estão interessados no PAS ou mesmo na universidade. “Aqui precisamos trabalhar também a auto-estima desses meninos. A isenção da taxa de inscrição no PAS para os alunos da rede pública foi muito importante para estimulá-los. Mas muitos ainda não se sentem capazes ou precisam trabalhar”, ressalta.

Hugo César Alves da Silva, 18 anos, é egresso de escola pública e está cursando gestão ambiental no campus da UnB que fica em uma cidade satélite de Brasília, Planaltina. Para ele, a diferença de recursos oferecidos na rede pública e na privada tornam as condições de competição desiguais entre os alunos. “O aluno precisa estudar sozinho, só a escola não dá conta. Acho que as provas do PAS poderiam ser formuladas de acordo com cada área. Ajudaria muito”, pondera.

Segundo a decana de Graduação da UnB, Márcia Abrahão, a universidade criou uma comissão para discutir e avaliar os processos seletivos da instituição. “O aprimoramento é natural. As decisões tomadas para torná-los melhor serão feitas em cima de dados qualitativos e quantitativos”, comenta a decana. “Esse esforço faz parte da reestruturação da universidade, que inclui mudanças nos currículos também”, afirma.

Desde que foi criado, o PAS já selecionou mais de 13 mil estudantes. Este ano, o curso mais concorrido é medicina, com 26 candidatos por vaga. No vestibular do ano passado (os dados do que será realizado este mês ainda não foram divulgados), a concorrência chegou a 141 candidatos por vaga. Ao todo, 2 mil vagas serão oferecidas aos inscritos na 3ª etapa, que são 12.317 jovens. As provas serão aplicadas a partir das 13h.

Aproximação das escolas com universidade

O PAS mudou, além de tudo, a relação das escolas e da universidade. O Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe), responsável pelos processos seletivos da UnB, estabeleceu um projeto de integração entre os docentes idealizadores do programa e os professores das escolas de educação básica de Brasília. Colégios públicos e particulares passaram a ter voz durante a definição de conteúdos cobrados nas provas das três séries.

“A proposta principal era fazer um processo que avaliasse o ensino médio no DF. O PAS colocou conteúdos de artes no processo de avaliação e seleção da UnB, porque o vestibular também foi influenciado por isso, e ainda conteúdos de filosofia e sociologia. Foi um processo construído pela comunidade escolar”, ressalta Paulo Portela, coordenador acadêmico do Cespe.

De acordo com Portela, a UnB conseguiu o que pretendia com a avaliação seriada: selecionar jovens com um perfil diferente do tradicional, que soubessem integrar conhecimentos. Para ele, a avaliação agora é importante para rever o modelo e, se necessário, propor mudanças para fortalecer a avaliação. Este ano, modificações foram feitas na seleção para os próximos anos: os candidatos da 1ª etapa serão mais exigidos em leitura e escrita.

As questões com respostas abertas terão uma nota de corte. Nos três anos de programa, os candidatos responderão algumas. Ao final do processo, terão de ter acertado 20% da nota máxima possível de ser obtida com elas. Além disso, a nota mínima exigida para a redação subiu de 3 para 4 pontos. Segundo a decana de graduação da UnB, as mudanças são fruto de uma pesquisa realizada com os colegiados dos cursos da universidade, que pediram uma seleção mais rígida na área de leitura e escrita.


SERVIÇO
Datas das provas: 4 (1ª etapa) e 5 de dezembro (2ª e 3ª etapas)
Horário de início: 13h
Abertura dos portões: 12h
Duração: 4 horas (1ª e 2ª etapas) e 5 horas (3ª etapa)

    Leia tudo sobre: educaçãovestibularavaliação seriadaUnBPAS

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG