¿Auto da Barca do Inferno¿, uma peça com quase 500 anos

Texto de Gil Vicente, escritor português, coloca personagens perante um julgamento moral

Marina Morena Costa, iG São Paulo

Em um porto, almas encontram duas barcas: uma vai para o Inferno, comandada pelo Diabo, e a outra, a da Glória ou do Paraíso, segue para o céu, liderada pelo Anjo. A peça teatral de Gil Vicente, escrita em 1517, é composta de pequenas esquetes, cenas nas quais personagens representantes dos diferentes tipos da sociedade medieval portuguesa encaram o destino após a morte.

“Nenhuma personagem tem nome. Elas são chamadas pela profissão ou função social – Fidalgo, Agiota, Parvo (débil, tolo, inocente), Frade, Judeu, Juiz, Procurador – ou por nomes populares. Representam tipos sociais em um auto da moralidade católica”, explica Márcio Ricardo Coelho Muniz, professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisador da literatura medieval portuguesa.

Todas elas carregam consigo objetos que representam sua classe social, seu apego à vida terrena e aos prazeres. O destino está traçado, não há negociação. Durante o diálogo com o Diabo e o Anjo, Gil Vicente mostra as razões da condenação – ou da absolvição – criando um discurso moral, porém irônico, satírico, sem o peso da moralidade. “Algumas personagens, ao final da cena, tomam a consciência de que são pecadores, mas não são todos”, afirma Muniz, que estuda a lírica trovadoresca galego-portuguesa e o Teatro de Gil Vicente.

A peça traz representantes das três grandes instituições da sociedade medieval: nobreza (fidalgo), igreja (frade) e justiça (Juiz). “São os sustentáculos da sociedade do antigo regime”, diz Muniz.

O leitor deve ter em mente que Gil Vicente era um autor da corte, financiado por ela, e era para o rei e a grande nobreza que ele escrevia suas peças. “O ‘Auto da Barca do Inferno’ circulou pela sociedade portuguesa, foi representado em feiras e festas populares. Mas a moralidade cristã que ele traz era uma mensagem para a nobreza”, explica Muniz.

Linguagem

Uma das chaves para a compreensão do texto é a linguagem. Por ser muito antigo, o texto traz um vocabulário próprio da época, por isso é importante ter uma edição que traga um bom glossário. “A linguagem é um elemento de dificuldade, mas não é uma barreira. Os estudante deve trabalhar com o sentido geral, com a caracterização da personagem e a argumentação durante os diálogos. Ele não deve esperar que vá entender palavra por palavra”, avisa Muniz.

O professor destaca ainda habilidade linguística de Gil Vicente para criar discursos cômicos, líricos, religiosos e morais. “Há uma série de brincadeiras no texto. Uso de diminutivo, ironias. Essas são as nuances que os estudantes devem observar durante a leitura.”

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