Aulas de programas contra atraso escolar começam em 646 cidades

Após preparação que durou quase três anos, MEC coloca em prática reforço em municípios com piores rendimentos escolares

Priscilla Borges, iG Brasília |

Assegurar a aprendizagem das crianças e dos adolescentes brasileiros no tempo certo ainda é um desafio para o Brasil. Os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) mostram que a repetência e o abandono fazem parte da realidade de milhares de estudantes. Desde cedo.

Para tentar mudar essa realidade, de atrasos de pelo menos dois anos na trajetória escolar das crianças do ensino fundamental, o Ministério da Educação colocou em prática projetos de aulas de reforço para as crianças que não aprenderam a ler, escrever e fazer contas corretamente mesmo em séries mais avançadas. Há um mês, as primeiras atividades de programas de aceleração da aprendizagem contratados pelo MEC começaram em 646 municípios.

As discussões e a preparação para colocar as propostas de correção de fluxo escolar em prática iniciaram há quase três anos. Em 2007, o MEC criou o Plano de Ações Articuladas, pacto feito com os municípios que obtiveram os piores rendimentos no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), avaliação que mede a qualidade de ensino da rede escolar do País. Em troca de recursos financeiros e apoio técnico oferecidos pelo governo federal, os dirigentes municipais teriam de elaborar ações para garantir qualidade de ensino.

À época, mais de 700 municípios pediram ajuda para corrigir o fluxo escolar. Queriam recursos pedagógicos que os auxiliassem a acelerar os estudos das crianças que não aprenderam na idade correta. O MEC avaliou programas de aceleração de aprendizagem de institutos ligados à educação e contratou três para fornecer capacitação e material aos municípios que mais precisam (os 1.242 com os resultados mais baixos no Ideb).

O Instituto Ayrton Senna, o Instituto Alfa e Beto e a organização não-governamental Geempa foram os escolhidos. Os projetos deles fazem parte do que o MEC chama de Guia de Tecnologias Educacionais, publicação que indica ferramentas avaliadas pelo ministério para solucionar problemas em diferentes tópicos educacionais como alfabetização, educação inclusiva, gestão escolar.

Falta de estrutura

Nos últimos dois anos, os municípios escolheram as ferramentas, assinaram termos de compromisso com o MEC e prepararam professores para trabalhar com os alunos em sala de aula. Inicialmente, 1.149 cidades de 26 Estados manifestaram interesse em receber capacitação e material didático de uma das tecnologias. Ao todo, 830 mil estudantes seriam beneficiados.

Fellipe Bryan Sampaio
Para que as crianças atrasadas aprendam, metodologia do Ayrton Senna exige acompanhamento individual dos alunos pelo professor
O problema é que, durante esse período, muitos municípios desistiram de implantar os programas de fato. No mês de agosto, os primeiros alunos atrasados começaram a ser atendidos, em 646 cidades, quase a metade dos que queriam o reforço inicialmente. A falta de estrutura física e de professores são algumas das dificuldades enfrentadas pelos dirigentes municipais durante a execução dos projetos.

As metodologias dos programas de correção exigem profissionais dedicados exclusivamente às turmas de aceleração, que precisam participar de cursos de formação inicial e que serão acompanhados por coordenadores. Esses também terão de ser designados pelos municípios, que precisam reservar salas de aula especiais para o funcionamento dos programas. Jussari, cidade baiana com um dos piores rendimentos na 8ª série e com altos índices de atraso nas primeiras séries do fundamental, por exemplo, desistiu do programa do Instituto Ayrton Senna pela falta de professores para assumi-lo.

“Uma das maiores limitações para enfrentar essa realidade de atraso escolar é a capacidade técnica. Mas há limitações de gestão também. Esse é um trabalho que envolve formação e qualificação de professores, investimentos em infraestrutura das escolas e até garantia de uma rede social de proteção para crianças e adolescentes, que garantam a permanência delas na escola para aprender”, analisa o diretor de políticas de formação de materiais didáticos e de tecnologias da Secretaria de Educação Básica do MEC, Marcelo Soares.

Inês Miskalo, coordenadora da área de Educação Formal do Instituto Ayrton, aponta ainda dificuldades de comunicação em locais mais distantes, a falta de dados tabulados sobre a situação dos alunos, de espaço físico e professores em quantidade suficientes e dispostos a estar em contato permanente com o instituto. “O limite de alunos por turma, a ambientação da sala e a metodologia não adiantam sem a disposição para mudar a cultura de ensino. O professor tem de se envolver e saber relatar a situação de cada aluno, o que dá muito trabalho. Isso é o mais difícil”, pondera.

Experiências de sucesso

Em todos os projetos de correção contratados pelo MEC, o aluno tem de ser o centro da aula. O planejamento das aulas e das estratégias para fazê-los aprender tem ser feito de acordo com o avanço de cada turma e estudante. Os mecanismos de avaliação e recuperação passam a ser constantes, dia a dia. A leitura e a escrita são metas perseguidas a todo instante. No caso do Geempa, as aulas da aceleração são feitas no contraturno.

O Instituto Ayrton Senna recebeu o maior número de parceiros. Mais de 500 municípios escolheram os programas Se Liga (direcionado à alfabetização dos que estão nas séries iniciais do ensino fundamental) e Acelera (para corrigir a defasagem de alunos um pouco mais velhos). Nos dois programas, as crianças não podem passar mais de um ano. “A gente tem de fazer um investimento maciço para que o aluno tenha sucesso nesse período. Se ampliarmos, estamos dando espaço para mais fracasso”, explica Inês.

No Distrito Federal, há muitas escolas que utilizam as metodologias do instituto. Mas não são financiadas pelo MEC e, sim, pelo governo local. Na escola CAIC Assis Chateaubriand, em Planaltina, há quatro turmas dos programas em atividade. Odith Farago, diretora do colégio, garante que os resultados foram percebidos rapidamente. “Tínhamos alunos de 12 e 13 anos na 2ª série do ensino fundamental. Isso é muito ruim inclusive para a autoestima deles, que não aprendiam. Pelo menos 50 estudantes passaram pelo projeto e aprenderam”, afirma.

Fellipe Bryan Sampaio
Fábio Santos conta que na turma de aceleração conseguiu aprender a ler a escrever
Nas salas de aula do projeto, quando alguém pergunta se as crianças estão aprendendo, a resposta é rápida. Em coro, os alunos dizem que sim, sorridentes. Jhennefer Lorrany Silva Costa, 10 anos, diz que adora as aulas. Garante que, agora, consegue ler o que não lia. Layene Moraes, 10 anos, conta que lê todos os papéis que encontra pela frente e já sonha em ser juíza. “A professora ajuda muito”, garante Jhennefer Lorrany.

Fábio Santos, de 13 anos, deveria estar na 7ª série. Mas ainda não conseguiu sair do equivalente à 4ª série. Por isso, foi colocado na turma do Acelera na escola de Planaltina. A vontade de colaborar com as aulas passou a ser enorme. No meio dos colegas, não é mais tão diferente. Os pré-adolescentes à sua volta têm os mesmos gostos. A professora lhe dá a atenção que precisa. “Cheguei aqui sem saber de nada. Agora, já sei ler direito e aprender ficou bem mais fácil”, garante.

Nas salas de aula, cartazes com os nomes de todos da turma mostram quem leu os livros recomendados, quem fez as tarefas, as atividades planejadas para cada dia. O professor sabe o que deve fazer e os estudantes também. As atividades são monitoradas pelos coordenadores, que visitam a escola a cada 15 dias. “A autoestima do professor também muda. O trabalho dele reflete sucesso. Acredito no meu trabalho”, afirma Suely Sodré, professora do Se Liga desde 2007.

Em números

A realidade dos estudantes da escola CAIC Assis Chateaubriand é a mesma de milhares de crianças e adolescentes brasileiros. A Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, publicada na semana passada, mostra que a trajetória de fracasso escolar das crianças brasileiras começa nas primeiras séries do ensino fundamental.

Em média, os alunos dessa etapa da educação básica mantêm um atraso de dois anos em relação ao ideal. As crianças de 10 anos de idade, que deveriam estudar na 4ª série, possuem apenas 2,3 anos de estudos concluídos. Aos 12, chegam a quatro anos. Aos 14, quando completariam os oito anos de ensino fundamental obrigatório (o País está em transição para nove anos), chegam a 5,8 anos de estudo.

Não é estranho que, depois desse início educacional, apenas metade dos adolescentes de 15 a 17 anos esteja cursando o ensino médio (etapa em que todos os brasileiros nessa faixa etária deveriam estar matriculados). Para conter o atraso escolar, não basta melhorar a qualidade de ensino para os que estão entrando na escola agora. É preciso recuperar a aprendizagem dos que ficaram para trás. "Seja qual for a tecnologia utilizada, para nós, do MEC, todos os esforços devem ser empreendidos para se garantir o direito básico de toda criança e adolescente brasileiro, que é o direito de aprender", comenta Marcelo.

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