Dois alunos com altas habilidades revelam ao iG seus macetes para tirar boas notas na hora da prova, confira

“Eu considerava normal tirar boas notas na escola, achava que tudo era fácil e pensava que em alguma hora ficaria difícil. Mas até hoje eu não achei nada difícil, eu consigo”, diz a estudante Danielle Maria Araújo Pereira, de 15 anos. Descoberta por um grupo de “caçadores de superdotados” que localiza alunos de altas habilidades na rede municipal do Rio de Janeiro , ela passou na prova do Colégio Pedro II aos 11 anos de idade e agora, prestes a entrar no ensino médio, quer dar início à preparação para o vestibular do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). “Vou cursar engenharia de infraestrutura e ser piloto de caça”, avisa.

Danielle e João Paulo: superdotados que não abrem mão de horas de estudos após as aulas
Flávia Salme/iG
Danielle e João Paulo: superdotados que não abrem mão de horas de estudos após as aulas

Apesar do boletim recheado de boas notas e de ter sido aprovada em todos os concursos que participou – inclusive de redação – , Danielle frisa que tudo que conquistou até agora foi com muito esforço. “Eu não preciso ser a melhor de todos, preciso dar o meu melhor”, ressalta. “É uma ilusão achar que o superdotado não tem que estudar”, ela conta. “Nunca fui para uma prova sem estudar. Fico muito nervosa, preocupada. O mais importante, para mim, é saber que estou preparada”, diz.

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Maria Clara Sodré, diretora do Ilecca
Flávia Salme/iG
Maria Clara Sodré, diretora do Ilecca
Doutora em educação de superdotados pelo Teachers College da Columbia University, em Nova York (EUA), Maria Clara Sodré afirma que não há garantias de que os superdotados sejam os primeiros alunos. “Se o superdotado está em uma escola chata, ele tira notas baixas. Tem crianças que tocam o terror, mas é porque a aula não está sendo bastante interessante”, diz Maria Clara, que dirige o Instituto Lecca, uma organização da sociedade civil de interesse público (Oscip), que localiza crianças superdotadas de baixa renda nas escolas municipais da capital fluminense e as prepara para conseguir uma vaga nas escolas públicas de qualidade.

Vida normal

Apesar do desempenho escolar acima da média e dos prêmios que ganhou em concursos de redação, Danielle conta - um pouco contrariada - que já tirou nota vermelha. “Um seis em matemática ( a média do Pedro II é sete ), não gosto nem de lembrar. Quando você sabe que é um superdotado não admite tirar essa nota. Cheguei a perguntar se tinha deixado de ser inteligente, mas sei que não é assim. As circunstâncias influenciam”, relata a jovem.

Também descoberto pelo Ilecca, o estudante João Paulo Santos Oliveira, de 13 anos, também se entrega aos estudos para garantir as boas notas. Embora tenha aprendido a ler nos primeiros meses da classe de alfabetização (CA), ele diz que seu maior interesse é por matemática, que apesar de ser sua matéria de melhor desempenho, já lhe rendeu um susto: “É uma matéria bem difícil, cheguei a tirar 4,9 e fiquei em recuperação. Mas tenho de admitir que eu relaxei”, diz ele, que pretender ser engenheiro civil.

Embora superdotados, Danielle e João juram que levam uma vida normal, com direito a curso de inglês duas vezes por semana (eles ganharam bolsa da Cultura Inglesa por meio do Ilecca). Saem com amigos, vão ao cinema e nem são mais BV (boca virgem, na gíria dos jovens). “Engraçado, as pessoas acham que a gente não tem vida. Mas a gente tem vida normal. Fim de semana a gente curte; às vezes esquece um dever de casa ou não entende uma aula. A diferença é que sei lidar com isso, sei que tenho de correr atrás depois”, diz Danielle.

João entrega que ainda dedica as (poucas) horas livres que tem à internet e aos jogos de computadores. “Mas uso pouco, muito pouco. Menos de uma hora por dia”.

A seguir, veja a dica desses superalunos para ter um bom rendimento na escola.

Danielle foi descoberta aos seis anos de idade e desde então recebe educação especial de organizações que contam com patrocínio privado
Flávia Salme/iG
Danielle foi descoberta aos seis anos de idade e desde então recebe educação especial de organizações que contam com patrocínio privado
iG: Existe macete para garantir boas notas?
Danielle:
Eu presto muita atenção nas aulas e faço muitas anotações. Observei que do C.A. ao sexto ano o aluno aprende que o que vai cair na prova é o que o professor escreve no quadro negro. Aí, quando chega no sétimo ano, o professor para de escrever no quadro e os alunos param de escrever nos seus cadernos. Acho que registrar as observações do professor durante a aula é muito importante, só prestar atenção não basta, acaba esquecendo.

João: Faço todos os deveres de casa e também anoto o que o professor diz durante a aula. E sempre faço resumos, tento organizar os assuntos de maneira que me ajude a entender melhor um determinado conteúdo.

iG: Há alguma dica para entender matemática?
Daniele:
Em matemática fazer o dever de casa é “o” caminho, não tem jeito. É treino constante, e o dever te ajuda. Não dispenso nenhum dever de matemática.

João : Eu concordo. Para entender matemática tem que fazer exercício, ajuda a fixar a matéria. Às vezes, até refaço os antigos para relembrar. Procuro fazer o dever de casa no mesmo dia, porque se deixar para a última hora posso esquecer ou fazer correndo, o que não é legal.

iG: Muitos alunos também consideram a língua portuguesa uma disciplina bem difícil, análise sintática, por exemplo, costuma ser um trauma...
Danielle:
Primeiro eu tento pôr na minha cabeça que não há coisa difícil. Pensar assim desestimula. Sei que nada é fácil, mas me convenço de que sou capaz e vou conseguir. Se alguma matéria me parece complicada, estudo mais. Análise sintática é coisa chata, mas eu gosto muito de escrever. Então, faço um texto e tento fazer exercícios em cima do que escrevi, que é um jeito que me permite, inclusive, escrever corretamente. O que posso dizer é que assim como matemática, gramática é uma disciplina que você só aprende fazendo exercícios. Agora, para escrever não tem outra fórmula: tem que ler.

João é bom em matemática, mas já levou um susto na matéria:
Flávia Salme/iG
João é bom em matemática, mas já levou um susto na matéria: "Eu relaxei", diz
João: Eu não sou daqueles que gostam muito de escrever, mas procuro levar a matéria bem. Me concentro nas aulas e faço os exercícios, isso ajuda bastante a entender a matéria.

iG: Estudar na véspera da prova funciona?
Danielle:
No meu caso, tem efeito psicológico. Tenho plena consciência de que tudo que estudei durante o bimestre está ali guardado na minha cabeça, mas se eu for para a prova sem ler ao menos um resumo, alguma coisa vai dar errada ( risos ). Não se aprende nada na véspera, mas estudar antes da prova ajuda a rever alguma coisa que ficou meio esquecida e dá mais confiança.

João: Eu costumo preparar resumos.

iG: Vocês dois contam que após as aulas ainda estudam cerca de quatro horas em casa. Na época de provas esse ritmo aumenta?
Danielle:
Muito. Em época de provas eu só paro para comer, tomar banho e dormir. Já perdi a noção de tempo de quantas horas passei estudando.

João: Eu também, nessa questão aí minha resposta é muito parecida com a dela.

iG: E em quantas horas vocês dedicam ao lazer, participam de práticas esportivas e até mesmo usam a internet?
Danielle
: Esporte para mim é tão importante quanto qualquer outra disciplina, tenho de fazer. Antes eu tinha um pouco mais de tempo e fazia teatro, adorei porque estudei os russos e descobri Dostoiévski ( Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, 1821 - 1881 ), me apaixonei. Larguei o teatro, mas permaneci entre os livros, gosto muito de ler e de escrever crônicas. Até o ano passado eu não tinha internet, mas agora tenho e confesso que não gosto muito, não. Uso para pesquisar alguma coisa. Tenho amigos que têm a vida na rede e se perderem aquilo parece que ficam sem chão. Entendo, mas não é a minha.

João: A internet lá em casa é recente e eu também não sou muito ligado, acho que não fico conectado nem uma hora por dia. Quando entro, uso o Orkut, o Messenger ou vou jogar alguma coisa. Mas, sei lá, acho que estou há cinco dias sem entrar.

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