Aprovados, piso e plano de carreira do professor esperam Justiça

Falta de infraestrutura e má formação dos educadores são carências da profissão

Cinthia Rodrigues e Priscilla Borges, iG São Paulo e Brasília |

O Dia do Professor de 2010 deveria ser o terceiro no Brasil com o piso salarial, aprovado por unanimidade pelo Congresso Nacional em julho de 2008, e o segundo com plano de carreira em todos os Estados, sancionado no ano passado pelo ministro da Educação, Fernando Haddad. Os dois pontos, no entanto, não estão garantidos até hoje, e a profissão segue entre as mais desvalorizadas financeiramente no País, com educadores reclamando da falta de formação adequada para acompanhar as rápidas transformações da sociedade e da precariedade em estrutura nas escolas.

A lei que aprovou o piso salarial e previa o plano de carreira é questionada na Justiça pelos Estados. “Ganhamos algumas batalhas nos últimos anos, mas elas ainda não começaram a valer e são travadas outras negociações que seriam vinculadas a isso, como a garantia de progresso na carreira”, afirma o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Franklin de Leão. Para ele, só quando houver uma garantia de salário mínimo e progressão a profissão voltará a atrair bons profissionais.

O piso salarial aprovado em 2008 era de R$ 950 e já foi reajustado para R$ 1.024. Originalmente, a lei determinava que o valor seria o mínimo para todos os profissionais, independente da carga horária exercida, mas a interpretação do Ministério da Educação e dos Estados é de que vale apenas para quem tem carga horária de 40 horas semanais, a máxima prevista por lei. Segundo levantamento da CNTE, pelo primeiro critério, apenas o Mato Grosso estaria em dia. Pelo segundo, quatro Estados ainda estariam pagando abaixo: Alagoas, Ceará, Goiás e Tocantins.

A má remuneração é apontada como causa da falta de interesse dos jovens pela carreira. Uma pesquisa da Fundação Lemann, realizada com vestibulandos a partir dos resultados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em 2008, apontou que os 5% com as piores notas na avaliação querem ser professores. Os melhores vão para áreas médicas e de engenharia, exatamente as que pagam melhor.

Despreparo com a nova geração

Para o presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Carlos Sanches, uma das maiores dificuldades para quem está na carreira é falta de preparo das faculdades e universidades brasileiras para a prática. Na opinião dela, os professores não estão prontos para encarar a nova geração de estudantes do País. Conectados o tempo inteiro pela internet e celulares, capazes de realizar múltiplas tarefas ao mesmo tempo e entediados com o modelo de ensino que recebem, esses alunos se tornam “problemas” para os docentes, que terminam frustrados e, muitas vezes, ficam doentes.

“Não conseguimos preparar melhor os professores para lidar com os desafios do século 21”, lamenta. “O ambiente que o aluno encontra na escola é muito diferente do que está fora dela. Se esse ambiente escolar não for mais atrativo, não resolveremos problemas como a evasão e o déficit de aprendizagem dos estudantes”, afirma.

Sanches lembra que o número de professores doentes, em licença médica, por diferentes motivos, é alto em todos os municípios brasileiros. “Essa frustração por não conseguir fazer o aluno aprender é terrível. Os professores não conseguem se sentir realizados”, comenta.

Pesquisa publicada este ano pelo sindicato dos professores do Paraná mostra que 5 mil dos 60 mil docentes da rede estão afastados por motivo de saúde e 30% deles por estresse, depressão e outras doenças mentais.

Integrante do Conselho Nacional de Educação, Clélia Brandão Alvarenga Craveiro, acredita que os professores têm de se manter indignados, mostrar que não podem organizar uma escola diferente sem condições para isso. “A indignação e a paixão têm de estar sempre acesas na vida do professor. E eles só terão condições de trabalho decentes quando a educação for prioridade.”

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