Aprender ciência com ajuda da ficção

A ficção científica pode se tornar um elemento desencadeador da aprendizagem e organizador dos conceitos a serem explorados em uma atividade didática, principalmente no ensino de ciências. Essa é uma das principais conclusões de um estudo feito na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).

Agência Fapesp |

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O estudo, publicado na revista Ciência & Educação, utilizou como estudo de caso o filme Parque dos Dinossauros (1993), de Steven Spielberg, para analisar os conceitos da biologia molecular.

De acordo com Aguinaldo Robinson de Souza, professor do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência da Unesp, no campus em Bauru (SP), a introdução do filme possibilitou a oportunidade de reflexão crítica do papel das ciências na sociedade.

A escolha do filme se justifica pelo fato de que, a todo instante, recebemos, dos meios de comunicação, as mais diversas informações sobre os avanços recentes na área de biologia molecular, sem percebermos como é escasso o entendimento da maioria dos conceitos apresentados, disse à Agência FAPESP o autor do artigo ao lado de Marcilene Cristina Gomes-Maluf, professora de química da Escola Agrotécnica Federal de Cáceres (MT).

Souza explica que a proposta do trabalho foi buscar no imaginário o processo de construção do pensamento científico, em uma relação entre o imaginário e o real. A ficção científica se transforma em um instrumento metodológico, passa a ser o elemento que informa o conhecimento a ser explorado e, ao mesmo tempo, é o aparato que oferece as imagens de experiências a serem realizadas, disse.

O trabalho foi aplicado em uma disciplina de biologia molecular em um curso de graduação em Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade do Estado de Mato Grosso, no campus universitário do Médio Araguaia. A turma, composta por 48 alunos, foi dividida em dois grupos. Um que havia assistido o filme e outro que não.

A inserção do filme se deu em dois momentos da disciplina. No início, para a turma A e, ao fim da disciplina, para a turma B. Ao longo do trabalho, coletamos dados sobre o conhecimento dos pesquisados, ora na forma de mapas conceituais, ora na forma de formulários diagnósticos, explicou.

O resultado indicou que a inserção do filme no fim do trabalho da disciplina gerou descrédito em relação ao conhecimento adquirido, ocorrendo uma total mudança na organização de seus mapas conceituais e nas respostas de seus formulários.

Pode-se afirmar que a inserção de filme de ficção científica deve ser efetuada no início das atividades, pois ele serve como um aparato desencadeador da aprendizagem e organizador dos conceitos que serão explorados. A exibição após a exploração dos conceitos da disciplina acaba gerando uma insegurança em relação à validade teórica. É como se sua inserção ao término das atividades levantasse dúvidas sobre a validade dos conceitos aprendidos, destacou Souza.

Segundo ele, a proposta, a partir do estudo da biologia molecular, era encontrar respostas para a principal questão colocada no filme: existe a possibilidade de reconstrução da vida de seres extintos, no caso dinossauros, a partir de fragmentos de DNA, ou seja, a ciência apresenta condições para que se afirme a possibilidade de recriar a vida?

Para o professor das Unesp, a ficção científica pode ser considerada como o ponto de partida para uma proposta metodológica no ensino de ciências. Ao trabalhar entre esses dois universos, a ficção favorece o acesso a diferentes produções da ciência, dando oportunidades, com base em uma obra artística, do contato com as transformações que a ciência tem imprimido, apontou.

O pesquisador conta que o trabalho prosseguirá com outras abordagens metodológicas e também outras aplicações em sala de aula como, por exemplo, incluir a interatividade por meio das tecnologias da informação e comunicação.

Os interessados em mais informações sobre ensino de ciências podem acessar o site do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência .  

Para ler o artigo A ficção científica e o ensino de ciências: o imaginário como formador do real e do racional, disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP).

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