Apostilas melhoram desempenho de estudantes

Estudo da Fundação Lemann mostra que notas de alunos na Prova Brasil são mais altas nos sistemas de ensino que adotam os materiais

Priscilla Borges, iG Brasília, e Carolina Rocha, iG São Paulo |

O uso de apostilas tem beneficiado os estudantes cujas escolas adotaram o material em sala de aula. As justificativas seriam a mudança provocada nas aulas e o melhor aproveitamento do tempo, de acordo com estudo realizado pela Fundação Lemann divulgado nesta terça-feira.

Os dados da pesquisa revelam que a adoção dos materiais provocou um aumento de cinco pontos nas notas dos alunos na Prova Brasil, exame nacional que avalia os conhecimentos de matemática e língua portuguesa. Para Paula Louzano, coordenadora do estudo, o impacto é importante. “As metas do Ministério da Educação dizem que um aluno precisa evoluir nas notas 50 pontos entre 5º e o 9º ano. Isso significa 12 pontos a cada ano. Então esse ganho de cinco pontos simboliza metade de um ano escolar”, afirma.

Durante a pesquisa, foram observadas escolas com diferentes perfis. A amostra de 7,5 mil colégios das redes municipais de educação do estado de São Paulo possuía escolas que utilizaram as apostilas entre 2006 e 2007 (depois da aplicação da primeira Prova Brasil), outras que só começaram a usar esses materiais depois de 2008 e um grupo que nunca utilizou esse tipo de material.

As notas dos alunos dessas escolas foram comparadas para se obter um resultado mais preciso sobre o impacto desses materiais no processo de ensino e aprendizagem das escolas. Os pesquisadores explicam que os sistemas que utilizam esses materiais – em São Paulo, há 291 municípios nessa situação – fornecem, além das apostilas para os alunos, material específico para o professor, capacitação pedagógica, acesso a portais educativos e, em alguns casos, acompanhamento pedagógico para os professores.

De acordo com Paula, as comparações ponderam ainda outras características consideradas fundamentais para o sucesso escolar das crianças: a escolaridade familiar, a formação dos professores, a infraestrutura das escolas. Além de avaliar os aumentos das médias das notas dos estudantes, o estudo da Fundação Lemann também traz números sobre a capacidade do colégio de melhorar a condição do aluno.

Paula explica que, em 2005, apenas 20% dos estudantes das escolas observadas apresentaram conhecimentos adequados de português e matemática na Prova Brasil. Em dois anos, esse montante passou para 25%. “É um aumento bastante representativo. É importante analisarmos isso também”, ressalta a pesquisadora.

Experiências populares
Em São Paulo, a quantidade de municípios que adota materiais diferentes dos concedidos pelo governo federal, que distribui livros didáticos às escolas, aumentou 89% nos últimos cinco anos. Em 2006, eram 154. Agora, são 291. Destes, apenas 73 utilizam materiais elaborados pelas próprias prefeituras ou secretarias municipais. O restante compra apostilas de empresas privadas ou organizações não-governamentais.

“Esse não é um tema fácil. Nas pesquisas que estamos realizando desde 2008, percebemos a resistência de muitos professores, mas também observações positivas sobre os materiais. Acho que temos de aprender com esses métodos. Queríamos apresentar os dados para discutirmos o que fazer a partir deles”, destaca Paula.

Mudanças na sala de aula
O bom resultado de alunos ao usar apostilas é, na verdade, um efeito colateral. É o que acredita o coordenador do departamento de Educação da Universidade de São Paulo, na área de Metodologia do Ensino, professor Nilson Machado.

Segundo o professor, as apostilas que indicam exatamente como abordar cada assunto em sala de aula ajudam no planejamento, provocaram um avanço na organização e planejamento das aulas, “mas isso acontece a custo da uniformização do que é dado. Todos os alunos, não importa a realidade deles, recebem a mesma aula”.

Em um quadro em que a condição de trabalho dos docentes impede o planejamento mais aprofundado das aulas, as apostilas surgem como uma solução dinamizadora. “Elas melhoram a organização da aula, pois impede que o professor passe um bimestre inteiro em um único assunto, mas o colégio perde a identidade, o professor perde a identidade e por conseqüência o aluno perde na qualidade do ensino”, afirma o coordenador.

Modelos como o adotado pela Secretaria de Educação de São Paulo, que desenvolveu um caderno para o professor, com sugestões de como abordar os temas em sala de aula, com dicas de atividades, seriam os mais indicados, segundo o especialista. “o caderno do professor não elimina o livro didático e mantém uma conversa com o professor. Ele não diz como fazer, só sugere”.

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