Estudo da Fundação Lemann mostra que notas de alunos na Prova Brasil são mais altas nos sistemas de ensino que adotam os materiais

O uso de apostilas tem beneficiado os estudantes cujas escolas adotaram o material em sala de aula. As justificativas seriam a mudança provocada nas aulas e o melhor aproveitamento do tempo, de acordo com estudo realizado pela Fundação Lemann divulgado nesta terça-feira.

Os dados da pesquisa revelam que a adoção dos materiais provocou um aumento de cinco pontos nas notas dos alunos na Prova Brasil, exame nacional que avalia os conhecimentos de matemática e língua portuguesa. Para Paula Louzano, coordenadora do estudo, o impacto é importante. “As metas do Ministério da Educação dizem que um aluno precisa evoluir nas notas 50 pontos entre 5º e o 9º ano. Isso significa 12 pontos a cada ano. Então esse ganho de cinco pontos simboliza metade de um ano escolar”, afirma.

Durante a pesquisa, foram observadas escolas com diferentes perfis. A amostra de 7,5 mil colégios das redes municipais de educação do estado de São Paulo possuía escolas que utilizaram as apostilas entre 2006 e 2007 (depois da aplicação da primeira Prova Brasil), outras que só começaram a usar esses materiais depois de 2008 e um grupo que nunca utilizou esse tipo de material.

As notas dos alunos dessas escolas foram comparadas para se obter um resultado mais preciso sobre o impacto desses materiais no processo de ensino e aprendizagem das escolas. Os pesquisadores explicam que os sistemas que utilizam esses materiais – em São Paulo, há 291 municípios nessa situação – fornecem, além das apostilas para os alunos, material específico para o professor, capacitação pedagógica, acesso a portais educativos e, em alguns casos, acompanhamento pedagógico para os professores.

De acordo com Paula, as comparações ponderam ainda outras características consideradas fundamentais para o sucesso escolar das crianças: a escolaridade familiar, a formação dos professores, a infraestrutura das escolas. Além de avaliar os aumentos das médias das notas dos estudantes, o estudo da Fundação Lemann também traz números sobre a capacidade do colégio de melhorar a condição do aluno.

Paula explica que, em 2005, apenas 20% dos estudantes das escolas observadas apresentaram conhecimentos adequados de português e matemática na Prova Brasil. Em dois anos, esse montante passou para 25%. “É um aumento bastante representativo. É importante analisarmos isso também”, ressalta a pesquisadora.

Experiências populares
Em São Paulo, a quantidade de municípios que adota materiais diferentes dos concedidos pelo governo federal, que distribui livros didáticos às escolas, aumentou 89% nos últimos cinco anos. Em 2006, eram 154. Agora, são 291. Destes, apenas 73 utilizam materiais elaborados pelas próprias prefeituras ou secretarias municipais. O restante compra apostilas de empresas privadas ou organizações não-governamentais.

“Esse não é um tema fácil. Nas pesquisas que estamos realizando desde 2008, percebemos a resistência de muitos professores, mas também observações positivas sobre os materiais. Acho que temos de aprender com esses métodos. Queríamos apresentar os dados para discutirmos o que fazer a partir deles”, destaca Paula.

Mudanças na sala de aula
O bom resultado de alunos ao usar apostilas é, na verdade, um efeito colateral. É o que acredita o coordenador do departamento de Educação da Universidade de São Paulo, na área de Metodologia do Ensino, professor Nilson Machado.

Segundo o professor, as apostilas que indicam exatamente como abordar cada assunto em sala de aula ajudam no planejamento, provocaram um avanço na organização e planejamento das aulas, “mas isso acontece a custo da uniformização do que é dado. Todos os alunos, não importa a realidade deles, recebem a mesma aula”.

Em um quadro em que a condição de trabalho dos docentes impede o planejamento mais aprofundado das aulas, as apostilas surgem como uma solução dinamizadora. “Elas melhoram a organização da aula, pois impede que o professor passe um bimestre inteiro em um único assunto, mas o colégio perde a identidade, o professor perde a identidade e por conseqüência o aluno perde na qualidade do ensino”, afirma o coordenador.

Modelos como o adotado pela Secretaria de Educação de São Paulo, que desenvolveu um caderno para o professor, com sugestões de como abordar os temas em sala de aula, com dicas de atividades, seriam os mais indicados, segundo o especialista. “o caderno do professor não elimina o livro didático e mantém uma conversa com o professor. Ele não diz como fazer, só sugere”.

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