Professora que fez livre docência sobre assunto em 1977 ainda luta pelo ensino correto da cartografia na escola e dá nome a prêmio

Quem a vê recebendo a medalha de comendadora da Marinha com ar angelical e confortáveis sapatos coloridos, imagina que a matriarca da alfabetização cartográfica no Brasil é uma senhora frágil. Engano que se desfaz com alguns minutos de conversa. Lívia de Oliveira, 83 anos, premiada pelos serviços prestados ao País, se autointitula uma “briguenta” e defende a modernização do estudo de Geografia.

Arquivo Pessoal
Lívia de Oliveira recebe a medalha de comendadora por aulas de Geografia
“O Atlas que se usa nas escolas não é escolar. Nem o do MEC (Ministério da Educação). São para adultos, não para crianças”, repete desde 1977, quando falou do assunto pela primeira vez em sua livre docência em Geografia na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). Depois disso, se tornou titular em 1983 e se aposentou em 1994, mas continua orientando pesquisas sobre o tema na pós-graduação. “Não sei fazer crochê e não tenho cachorro, então...”, conta rindo.

Além de orientar mestrados e doutorados, viaja para falar em congressos de cartografia. “Avançamos, mas continuam me perguntando: o que é isso?”, reclama, acrescentando a resposta: “Alfabetizar não é fazer o aluno ler e escrever? Então, a gente quer que ele leia e faça mapas, do jeito deles, não em um padrão adulto.”

Lívia conta que a vocação que a mantém trabalhando na velhice, não a acompanhou desde cedo. Nascida em Mairinque, interior de São Paulo, ela se mudou para a capital paulista para fazer o ginásio (equivalente a segunda etapa do ensino fundamental). “Hoje as pessoas saem de cidade pequenas para fazer faculdade, no meu tempo, se quisesse passar do primário, já tinha que sair de casa”, lembra.

Inteligente, passou pelo colégio e foi admitida na Universidade de São Paulo (USP), quando o “vestibular” era uma prova escrita e oral diretamente com os professores que seriam os mestres. Só que naquela época, a escolha de Lívia foi por Enfermagem. “Me formei e trabalhei 11 anos, aí briguei com o grupo e resolvi mudar de área.”

Geografia foi uma escolha da mãe dela, que era professora primária e apaixonada pelo tema. “Ela não me deu opção, falou que já tinha me deixado fazer o que quisesse da primeira vez e daquela eu ia seguir o que ela falasse”. Deu certo. Formada pela segunda vez pela USP, ela foi designada para dar aulas à primeira turma de Geografia de Rio Claro e, de lá, vem mudando o ensino da disciplina para crianças.

Prêmio com inscrições abertas

A medalha que foi entregue a Lívia em maio, veio das mãos de um fã. O coronel Nei Erling não economiza elogios. “Nos congressos de Geografia ela é hour concour”, diz. E, desde 2008, ele também divulga pelo País um prêmio que homenageia a professora.

Em sua 4ª edição, o prêmio brasileiro de Cartografia Infantil “Lívia de Oliveira” procura conscientizar as escolas da importância das crianças desenvolverem representações do espaço. As categorias são divididas em até 8 anos, entre 9 e 12 anos e de 13 a 15 anos. As inscrições devem ser feitas pelos professores com envio do material para a Sociedade Brasileira de Cartografia (Av. Presidente Wilson, 210 – 7º andar, Centro, CEP 20030-021, Rio de Janeiro – RJ). Mais informações no site www.cartografiaescolar.blogspot.com

Desenho do matogrossense Gabriel dos Santos, 8 anos, ficou em 1º lugar na edição de 2010
Divulgação
Desenho do matogrossense Gabriel dos Santos, 8 anos, ficou em 1º lugar na edição de 2010

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