¿Antologia Poética¿, as três fases de Vinicius de Moraes

Livro com poemas selecionados pelo próprio autor mostra a evolução da obra do ¿poetinha¿

Marina Morena Costa, iG São Paulo

Para mergulhar na “Antologia Poética” de Vinicius de Moraes, é preciso ler com bastante atenção o texto que abre o livro, escrito pelo próprio autor em 1949. Nesta apresentação, Vinicius faz uma advertência e explica a construção da antologia, organizada por ele. O poeta faz uma autoapreciação crítica de sua obra, suas fases e seu desenvolvimento

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Vinicius de Moraes, o poetinha
O “poetinha”, como Vinicius ficou conhecido, divide a antologia em três partes, que seriam as fases de sua obra. A primeira parte é mística e religiosa, a segunda, uma fase de transição, e a terceira parte do livro, de tendência esquerdista, com temas como a valoração do trabalho humano e os preconceitos de classe e de meio. Esta terceira parte da “Antologia” seria a segunda fase da obra de Vinicius de Moraes, aquela que ele vê como definitiva.

“Grande parte da crítica segue o modelo e a divisão em fases proposta pelo poeta. Mesmo que a crítica discorde não é possível desconsiderar a leitura desta introdução. Não se trata de uma verdade absoluta, por ser a opinião do autor, mas basicamente é uma visão compartilhada por muitos”, avalia Eucanaã de Nazareno Ferraz, poeta e professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Durante a leitura é interessante notar que há textos que se comunicam. Ferraz aponta que na última fase há um desejo da pureza da primeira fase. “Vinicius ama o amor quando ele não se realiza. A realização amorosa é um problema. É como se ele guardasse um resquício daquele período inicial que sugeria que o verdadeiro amor é um amor divino, do homem para com Deus”, explica o professor e pesquisador de poesia moderna e contemporânea.

Ferraz aconselha uma leitura atenta à comunicação entre as fases da obra de Vinicius. É importante descobrir o que os poemas da fase intermediária têm da primeira e o que eles anunciam da segunda. “Os poemas transitam e se deixam atravessar por vocabulários e temas das duas fases. Observar detalhadamente essa fase de transição é muito importante e prazeroso”, ressalta.

Paciência

Aos leitores jovens, Ferraz recomenda paciência e um dicionário ao lado. “Na poesia, uma palavra é o universo inteiro. É bom olhar no dicionário os significados daquela palavra, porque ela pode ser a chave para a compreensão.” O pesquisador avisa que não se pode fazer uma leitura apressada, é preciso ler muitas vezes o poema, perceber o ritmo, “ir descamando-o aos pouquinhos”.

Mergulhar na obra de um poeta é como conhecer uma pessoa. Exige tempo, paciência e dedicação. “O leitor tem se tornado impaciente. Se ele fica dois minutos em uma página de internet é muito. Para o impaciente, a poesia é mais difícil, mas ao mesmo tempo ela tem muito a dar. E Vinicius tem muito a dar. Ele é engraçado, fala de amor. É uma ótima porta de entrada para este universo.”

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