Alunos do Rio aprovam nota do Ideb na escola, desde que seja boa

‘Se minha escola fosse ruim, eu teria vergonha’, diz estudante de colégio bem colocado. Rede municipal volta às aulas com novidade implantada por decreto do prefeito

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Raphael Gomide
Alunas da Minas Gerais, no Rio, mostram onde gostariam de ver a nota que escola teve no Ideb
Quando os alunos da rede pública municipal de Educação do Rio voltarem às suas escolas nesta terça-feira terão uma surpresa. Para alguns, será motivo de orgulho; para outros, nem tanto. Um decreto do prefeito Eduardo Paes determinou que todos os colégios da rede exibam “na entrada ou em local de fácil visualização” uma placa com o resultado da unidade no Indice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), nacional, e do Índice de Desenvolvimento do Rio, baseado na Prova Rio, teste carioca (Ide-Rio) e as metas que precisa atingir nos próximos anos.

A ideia, apelidada de Ideb na Escola, encampada por Paes foi do economista especialista em educação Gustavo Ioschpe e tem o objetivo de envolver a comunidade e os pais no processo de educação das crianças. O prazo dado pelo decreto para as unidades afixarem a placa acaba nesta quarta-feira, dia 3.

Veja artigos a favor e contra o Ideb na Escola:
- “Pela transparência e o aprendizado” , por Gustavo Ioschpe
- "Para além da comunidade-cliente" , por Luiz Carlos de Freitas

Na opinião de Ioschpe, a transparência vai levar os pais a cobrarem da direção e do governo melhora na educação e deixará mais evidentes os eventuais problemas. Além do Rio, pioneiro na adoção da ideia, a medida deve ser implantada em Goiás, Teresina, Praia Grande (SP), Cambuí (MG), Estância (SE). Há projetos de lei em Minas Gerais, Mato Grosso, Piauí e Espírito Santo, segundo Ioschpe. A Comissão de Educação da Câmara dos Deputados também está analisando a criação de uma lei federal sobre o tema.

'Escola do município arrasa a do lado, britânica'

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Professoras e funcionárias da Minas Gerais, com placas de prêmios à parede. A nota do Ideb agora também estará exposta
"Acho ótimo ter placa com a nota na porta, para as mães saberem que a escola é boa e se tiver alguma escola ruim, as mães dos alunos já sabem também”, disse Julia Beatriz da Mota, 11 anos, que está no 6º ano da Escola Municipal Minas Gerais, na Urca. Com nota de 5,2, o colégio foi o segundo mais bem colocado no Rio pelo Ideb 2009 entre os estudantes do quarto ano e a quinta no oitavo ano, entre 970.

“Mas se minha escola fosse ruim, eu não ia querer placa, não”, completou Julia. “Eu teria vergonha. Iam falar: ela é daquela escola horrível!”, afirmou Yasmin Pires, 12, do mesmo ano.

Rebeca Medina, colega das duas, acha a medida da prefeitura “ótima”, por outra razão. “Todo mundo que passa aqui vai ver que a escola do município arrasa a do lado, Escola Britânica, caríssima. Não é só porque é pública que é ruim”, disse Rebeca Medina, uma dos 780 alunos da escola, que tem 47 professores, em dois turnos.

A diretora Regina Sthela Pedroso, na Minas Gerais desde 79 e gestora há 23 anos, disse ao iG que a nota no Ideb e no Ide-Rio em uma placa não muda muito o trabalho. “Já debatemos com o conselho da escola e a comunidade se colocaríamos placa ou faixa com nosso resultado no Ideb, muito antes do decreto, mas nunca pusemos. Achamos que podia nos deixar com o nariz empinado, nunca quisemos”, diz Regina, para quem a divulgação do Ideb é positiva, mas pode ser “uma faca de dois gumes”.

“Talvez os pais queiram trocar os filhos de escola onde há mau desempenho. Mas com certeza vão cobrar mais, e as equipes vão se esforçar mais. A vida é feita disso: tem Oscar, eleição na Academia Brasileira de Letras, prova de vestibular... Vai motivar diretores e professores para alcançar Ideb melhor. Nossos pais se preocupam de não ter vaga para os filhos. A procura é enorme, e ainda não tem plaquinha”, disse.

Em colégio mal avaliado, professores saem da sala

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Caroline Corrêa (E),que trocou o João Goulart pela Roma, uma das melhores no Ideb, ao lado de Rayane e Joice, que estudam na escola em Ipanema
Para Joice Santos, 13, que estuda desde os 8 no Ciep Presidente João Goulart, em Ipanema, a preocupação é outra. Aluna do “Brizolão” – como são chamados os Cieps, projeto do ex-governador Leonel Brizola (1983-1987) – considera que a medida pode ajudar a melhorar sua escola, a última colocada no Ideb na rede municipal, com nota de 1,8.

Joice não conhecia o Ideb, mas o resultado não é surpresa para ela. “Os professores não passam muito as coisas. Não me surpreende em nada essa nota. É ruim. Os alunos não prestam atenção, por isso não sabemos nada”, disse ela. “Mas vou sentir um pouco de vergonha da placa”, comentou a menina.

A prima Rayane Santos, 13, diz que há muita bagunça e pouca disciplina no colégio. “Os professores saem da sala quando os alunos estão fazendo bagunça. Só às vezes tem dever de casa. Depois da refeição, todo mundo joga tangerina, fruta, um no outro, os meninos jogam comida debaixo da mesa, pegam a colher para jogar arroz...”, conta.

Antes do Ideb, troca de escola

Caroline Corrêa, 14 anos, estudou no Ciep João Goulart até a 3ª série, mas saiu. “Era muito fraco. Por isso minha mãe me tirou, não estava aprendendo nada”, disse Caroline. Ela foi inicialmente para outra escola, onde “a bagunça era a mesma”. Há três anos, porém, estuda na Escola Municipal Roma, a terceira mais bem colocada do município no Ideb.

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Porta de entrada do Ciep João Goulart, com avaliação ruim no Ideb
“É muita diferença. A Roma é do município, mas nem parece, parece escola particular. É exemplar. As matérias são mais difíceis, tanto é que repeti ano passado a 6ª série. Estou indo melhor este ano. Na outra escola não passavam nada de dever de casa. Na Roma tive um monte de trabalhos para as férias. A diretora é rígida, dura. Só tem ‘nerd’ entre os alunos, mas lá, se começa a jogar fruta, eles cortam a fruta do lanche: se jogar, fica sem fruta”, disse Caroline. Para ela, a placa com as notas pode ajudar outros pais a pressionar os colégios por melhora ou tomar a mesma decisão que sua família.

O iG ligou para a direção da escola, mas o diretor, Roberto Emygdio, afirmou que só poderia dar entrevista com autorização.

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