Alunos de Xangai surpreendem com 1º lugar em ranking mundial

Especialistas norte-americanos acreditam que resultado mostra como China ruma para se tornar principal potência também em Educação

Sam Dillon, do New York Times |

Com a estreia da China em testes padronizados internacionais, os estudantes de Xangai surpreenderam os especialistas ao pontuar mais que seus colegas de dezenas de outros países em leitura, matemática e ciências, de acordo com os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Autoridades envolvidas na administração do teste acham que a classificação dos alunos de Xangai – uma potência industrial, com cerca de 20 milhões de habitantes e dezenas de universidades modernas, que é um imã para os melhores estudantes do país – não é representativa de toda a China, mas mostra seu potencial.

Cerca de 5.100 jovens de 15 anos de idade de Xangai foram escolhidos como representantes dos estudantes da cidade. No Brasil foram 20 mil, que obtiveram pontuação equivalente ao 54º lugar no ranking de 65 países. Nos Estados Unidos, que ficaram em 26º lugar (veja ranking completo) , foram 5 mil.

Os especialistas ressaltaram a óbvia dificuldade de se usar um teste padronizado para comparar países e cidades de tamanhos muito diferentes. Mesmo assim, disseram que o excepcional desempenho acadêmico dos alunos em Xangai foi notável e mais um sinal da rápida modernização da China.

Os resultados também parecem refletir a cultura da educação no país, incluindo aí uma maior ênfase na formação de professores e mais tempo para o estudo ao invés de atividades extracurriculares, como os esportes. "Uau, eu fiquei chocado e a primeira coisa que me veio à mente foi Sputnik", disse Chester Finn Júnior, que serviu no Departamento de Educação do presidente Ronald Reagan, referindo-se ao revolucionário lançamento do satélite soviético.

Finn, que já visitou escolas em toda a China, disse: "Eu vi como os chineses são incansáveis na concretização de metas e se eles podem fazer isso em Xangai, em 2009, podem fazê-lo em 10 cidades em 2019, e em 50 cidades em 2029".

"Temos que ver isso como um alerta para acordarmos", disse a secretária da Educação dos Estados Unidos, Arne Duncan, em uma entrevista na segunda-feira. "Eu sei que os céticos vão querer discutir os resultados, mas nós os consideramos precisos e confiáveis e temos que vê-los como um desafio para melhorar. Nós podemos falar sobre isso ou podemos encarar a verdade brutal que estamos sendo passados para trás na educação".

A diferença por área

Em matemática, os estudantes de Xangai se saíram primordialmente bem, superando o segundo lugar de Cingapura, que tem sido visto como uma estrela de ensino nos últimos anos. A pontuação média dos estudantes de matemática americanos colocou-os abaixo de 30 outros países. No Brasil, o desempenho foi o 57º.

Dois terços dos estudantes nos países participantes pontuaram entre 400 e 600 pontos, o que significa nível médio para alto ( veja o que siginfica cada nota no gráfico ). Na prova de matemática os estudantes de Xangai conseguiram 600, Singapura 562, Alemanha 513. O Estados Unidos ficaram com 487 e o Brasil 386.

Na leitura, os estudantes de Xangai tiraram 556 ficando à frente do segundo lugar da Coreia do Sul que conseguiu 539. Os Estados Unidos tiveram uma avaliação de 500 e ficaram em 17º, colocando o país em pé de igualdade com alunos da Holanda, Bélgica, França, Reino Unido e vários outros países. O Brasil, que teve aqui a melhor nota, chegou a 412.

Na ciência, os estudantes de Xangai tiveram uma avaliação de 575. Em segundo lugar ficou a Finlândia, onde a pontuação média foi de 554. Os Estados Unidos tiveram uma avaliação de 502 – em 23 º lugar – com um desempenho indistinguível outros países desenvolvidos. O Brasil fez 405.

Os testes em Xangai foram realizados por uma empreiteira multinacional que trabalhou em conjunto com as autoridades chinesas e foi supervisionada pelo Conselho Australiano para Pesquisa Educacional, um grupo de testes sem fins lucrativos, disse Andreas Schleicher, que dirige os testes internacionais de educação para a Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE), que aplica o Pisa.

Mark Schneider, um comissário do braço de pesquisa do Departamento de Educação no governo de George W. Bush, que voltou de uma visita de pesquisa pedagógica na China na sexta-feira, disse ter desconfiado de alguns resultados do PISA no passado. Mas Schneider disse considerar a precisão desses resultados inatacável. "O lado técnico disto foi bem controlado, a amostragem é boa e não há provas de fraude", disse ele. Schneider observou, porém, alguns fatores que podem ter influenciado o resultado.

Xangai é um destino de grande migração dentro da China. Os alunos devem retornar para suas províncias de origem para frequentar a escola, mas as autoridades de Xangai podem aumentar a pontuação permitindo que os melhores alunos fiquem na cidade, disse ele. E os estudantes de Xangai, aparentemente, foram informados que o teste era importante para a imagem da China e, portanto, estavam mais motivados a se sair bem, disse.

"Você pode imaginar a reação se disséssemos aos estudantes de Chicago que o PISA é um importante teste internacional e que a reputação dos Estados Unidos dependia deles obterem um bom desempenho?", perguntou Schneider. "Dito isto, a China está levando a educação a sério. Sua ética de trabalho é incrivelmente forte".

Obama reconhece risco dos EUA ficarem para trás

Em um discurso a um público universitário na Carolina do Norte, o presidente Barack Obama lembrou como o lançamento do Sputnik pela União Soviética em 1957 provocou os Estados Unidos a aumentar os investimentos em educação, principalmente matemática e ciência, ajudando a América a ganhar a corrida espacial".

"Cinquenta anos depois, o Sputnik da nossa geração está de volta", disse Obama. Com bilhões de pessoas na Índia e na China "de repente ligadas a economia mundial", disse ele, as nações com os trabalhadores mais educados irão prevalecer. "Tal como está agora", disse ele, "a América corre o risco de ficar para trás".

Se Xangai é uma vitrine do progresso educacional chinês, a vitrine da América seria de Massachusetts, que rotineiramente pontua mais do que todos os outros estados na principal prova federal de matemática.

Mas em um estudo de 2007, que correlaciona os resultados desse teste com os resultados de um exame de matemática internacional, os estudantes de Massachusetts ficaram atrás de Cingapura, Hong Kong, Coreia do Sul, Taiwan e Japão. Xangai não participou da prova.

Um relatório de 259 páginas da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento sobre os últimos resultados do PISA observa que ao longo de sua história a China tem sido organizada em torno de concursos. "As escolas ensinam seus alunos por longas horas todos os dias e as semanas de trabalho se estendem para os fins de semana", disse.

Muitos querem ser professor

Os estudantes chineses gastam menos tempo do que os estudantes dos Estados Unidos com atletismo, música e outras atividades não orientadas para o sucesso nos exames de disciplinas centrais. Além disso, nos últimos anos, o ensino rapidamente se tornou uma das ocupações preferidas na China e os salários subiram. Em Xangai, as autoridades empreenderam importantes reformas curriculares e os educadores têm tido mais liberdade para experimentar.

Desde que sua organização recebeu os resultados dos testes de Xangai no ano passado, disse Schleicher, especialistas internacionais em provas deste tipo pesquisaram a fundo para outorgar sua precisão, esperando que produzam espanto em muitos países ocidentais.

"Esta é a primeira vez que temos dados internacionalmente comparáveis sobre os resultados da aprendizagem na China", disse Schleicher. “Embora isso seja importante, para mim o verdadeiro significado desses resultados é que eles refutam a hipótese comumente aceita de que a China produz apenas um aprendizado fraco. Grandes frações destes alunos demonstram a sua capacidade de extrapolar o que conhecem e aplicar seu próprio conhecimento de forma criativa em novas situações”, disse.


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