No Saresp, turma tirou nota 10 em matemática e 9,1 em português. Comissão chega hoje a Sorocaba para averiguar suspeita de fraude

Alunos que se formaram em 2011 no 5º ano do ensino fundamental na escola estadual Reverendo Augusto da Silva Dourado, em Sorocaba, tiveram neste 1º bimestre desempenho bastante diferente do aferido pelo Saresp, em novembro do ano passado – que está sob suspeita de fraude. Professores da cidade ouvidos pelo iG relatam que há alunos que precisam de reforço em português e o desempenho em matemática é apenas mediano.

Na avaliação que rendeu à escola nota 9,3, a maior entre as escolas estaduais de São Paulo, todos os 27 alunos tiraram 10 em matemática – fato raro e único na rede – e a média da turma em português foi 9,1. A média do Estado de São Paulo foi 4,24 e das escolas de Sorocaba, 4,61. O bom desempenho dos estudantes garantiu bônus de 2,9 salários aos profissionais da escola.

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Após a denúncia de que os alunos tiveram ajuda de professores , revelada pelo iG , a Secretaria de Educação instaurou uma apuração do caso. Uma comissão de averiguação formada por profissionais de São Paulo e da Diretoria de Ensino de Sorocaba chega hoje a cidade para investigar a suspeita de fraude. Está marcada para esta quinta-feira uma reunião entre a direção da escola, alunos que fizeram a prova e seus pais. Hoje, os alunos estudam em outras escolas da região, pois a Reverendo Augusto da Silva Dourado tem classes somente até o 5º ano.

Insegurança
Em Iporanga, bairro onde fica a escola acusada de fraude, um clima de insegurança e tensão se instaurou depois que a suspeita de fraude no Saresp se tornou pública. Pais que negam conhecer as irregularidades defendem a escola e estão descontentes com os que realizaram a denúncia. Uma série de boatos, como a informação infundada de que os alunos que hoje estão no 6º ano terão que voltar a estudar no 5º ano, incomodam a comunidade.

Cintia Ganotti, 30 anos, mãe de uma aluna do 4º ano, reclama que sua filha não quer mais estudar. “Ela está muito chateada”, conta. “Falaram que iam fechar a escola”, diz uma aluna de 10 anos, do 5º ano. A Secretaria nega que a escola será fechada e destaca que as informações são falsas e descabidas (veja nota abaixo). A direção da escola, segundo a secretaria, está a disposição para esclarecer dúvidas dos pais e alunos.

Alunos negam ajuda
A reportagem ouviu outros três estudantes que negaram ter recebido ajuda de professores durante a prova do Saresp. Ao contrário dos alunos que afirmam ter recebido auxílio da professora com quem tinham aula, esses estudantes dizem que somente uma docente de outra escola estava na sala durante a avaliação. Eles reconhecem, no entanto, que não foram os últimos a deixar a sala.

“Achei a prova fácil, porque a professora tinha explicado tudo durante o ano e dado muitos exercícios”, conta uma aluna de 11 anos. Um aluno de 10 anos diz que teve dúvidas em algumas questões, mas que conseguiu responder tudo. Ele conta que suas notas na escola variavam entre 6 e 8.

“A escola é o único benefício para nós, a gente tem que lutar, tem que defender. A gente quer provar a verdade e mostrar que (a nota) foi mérito das crianças”, afirma Talita Garcia, 28 anos, mãe de um dos alunos. Ela conta que estudou na Reverendo Augusto da Silva Dourado, quando a escola era um “vagão de trem”, e destaca as melhorias na infraestrutura conquistadas pela unidade nos últimos anos, como a construção da quadra.

Elenice Farias Ferreira da Silva, de 29 anos, também ex-aluna da escola, afirma que sua filha é ótima aluna e só tira nota 10. “Não acredito que a diretora ou a professora teriam coragem de fazer uma coisa dessas (fraudar o Saresp)”, defende. As mães ouvidas pela reportagem não sabiam que o bom desempenho dos estudantes garante bônus aos profissionais da escola, que podem ultrapassar R$ 8 mil.

Veja a nota da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, esclarecendo que a escola não será fechada :

As afirmações sobre a possibilidade de fechamento da Escola Estadual Reverendo Augusto da Silva Dourado, apresentadas pela reportagem, são, além de falsas, descabidas no que se refere às providências que poderão ser tomadas a partir da apuração sobre a aplicação da prova do Saresp na referida unidade.

Se forem confirmadas as denúncias veiculadas sobre a aplicação da prova, os responsáveis serão punidos na forma da lei. Enquanto não forem concluídos os trabalhos de apuração, a Administração não se pronunciará sobre eles nem sobre pessoas envolvidas no caso.

Quaisquer que venham a ser as conclusões da averiguação em andamento, nenhuma delas poderá justificar o que está sendo irresponsavelmente propalado por meio de boatos e apresentado à Secretaria da Educação do Estado de São Paulo pela reportagem. Na medida em que não encontram nenhum fundamento nos procedimentos correcionais da Administração Pública, essas afirmações são levianas, não colaboram para o esclarecimento dos fatos que estão sendo apurados e, acima de tudo, prejudicam a rotina da comunidade escolar, principalmente dos alunos e de seus familiares. Portanto, sua divulgação, por quaisquer meios, não pode ter outra motivação senão a má-fé.

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