Alunos terminam ensino médio sem aprender

Avaliações mostram que 90% não têm o conhecimento mínimo esperado para a fase. Veja exemplos práticos

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo | 23/02/2011 07:00

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Calcular quanto um trabalhador deve receber em cada parcela do 13º salário pode parecer uma tarefa trivial após 11 ou, mais recentemente, 12 anos de estudo que levam uma pessoa até o fim do ensino médio. A maioria dos jovens que concluíram essa fase na última década, no entanto, não consegue chegar ao valor correto. O exemplo ajuda a entender uma estatística alarmante sobre o conhecimento dos alunos no terceiro ano do ensino médio. Segundo o Ministério da Educação, apenas 10% dos estudantes adquirem os conteúdos esperados.

Foto: Reprodução

Tentativa de um aluno do 3º ano de resolver questão de matemática

A terceira reportagem da série especial do iG Educação sobre o ensino médio mostra como os jovens se formam com conhecimentos irrisórios. Nem todos os alunos dessa etapa escolar passam por avaliações do MEC – como ocorre no ensino fundamental – mas os resultados são suficientes para produzir estatísticas assustadoras.

A mais recente delas, do Ibope, mostra que 62% das pessoas com ensino médio não são plenamente alfabetizadas. A expectativa era que, aos 18 anos, e tendo frequentado a escola durante a infância e a adolescência, os jovens soubessem ler e entender textos longos, mas só 38% o fazem.

Para quem ainda está estudando, o governo aplica, desde 1999, uma prova por amostragem do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Em todas as edições, o porcentual de  alunos do 3º ano do ensino médio que chega à pontuação adequada nas provas de matemática variou entre 9,8% e 12,8%. No último exame, de 2009, foram 11%. “O que preocupa é que não saímos deste patamar, mesmo quando temos uma melhora no fundamental. Quando o jovem vai para o médio, estaciona”, comentou Mozart Neves Ramos, consultor do movimento Todos Pela Educação, em apresentação de números organizados pela ONG a partir da avaliação feita pelo governo.

Considerando apenas os conhecimentos de língua portuguesa, o resultado é menos ruim, porém ainda chocante: 28,9% alcançaram a nota mínima no teste de 2009. Os números valem para todos os estudantes, incluída a rede privada. Considerado só o sistema público, o porcentual cai para 23,3% em português e 5,8% em matemática. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep), a amostra apenas das particulares é pequena para concluir o porcentual de estudantes desta rede que aprende o necessário.

Exemplos em São Paulo, Paraná e Maranhão

O Ministério da Educação mantém entre suas publicações a escala do Saeb de língua portuguesa e de matemática com todas as capacidades que são esperadas dos estudantes ao final do ensino médio. Para ilustrar o que os números sobre a aprendizagem apontam, o iG selecionou um item em cada disciplina, buscou exemplos de situações em que eles sejam pedidos e levou um teste a jovens matriculados em escolas em São Paulo, no Paraná e no Maranhão. 

Em matemática, o iG sugeriu um problema já usado pelo MEC e uma questão elaborada pelo professor e autor de livros didáticos Luiz Imenes. Ambos avaliam a capacidade de “resolver problemas que envolvam variação proporcional entre três grandezas (regra de três simples)”, o que só 7% conseguem, segundo a estatística do governo.

Em língua portuguesa, foi escolhida uma habilidade que apenas 6% têm: a de distinguir um trecho opinativo entre as informações de um texto. Novamente foi apresentada uma questão usada pelo governo e outra baseada em dois textos do iG Educação que tratam do mesmo fato, um informando e outro opinando.

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Abaixo, algumas respostas de alunos

 

Em São Paulo, as perguntas foram apresentadas a estudantes da escola estadual José Monteiro Boanova, que obteve o melhor resultado entre as unidades públicas no último ranking do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) na capital paulista, desconsiderando as escolas técnicas e unidade da Universidade de São Paulo (USP). Dos cinco alunos questionados, nenhum conseguiu responder corretamente qualquer uma das questões de matemática. A primeira parcela do 13º de um trabalhador que recebe R$ 1.200 e trabalhou oito meses de um ano, variou entre R$ 150 para um aluno e R$ 6.120 para outro. Já em português, houve dois acertos em cada pergunta.

Em São Luiz, três alunos do centro de ensino médio Manoel Beckman, no bairro Bequimão, zona de classe média da capital maranhense receberam as questões e não acertaram nada. Em uma das provas, uma aluna se confundiu e respondeu “sim” a uma questão que pedia um valor matemático. Nas questões de língua portuguesa, o resultado foi o mesmo. Um deles, aproveitou para mostrar como vai a gramática: “Os dois textos é opinativo”, escreveu.

Os melhores resultados, ainda que não sejam bons, vieram do Paraná. Sete alunos do colégio estadual Manuel Borges de Macedo, em Rio Branco do Sul, responderam as perguntas e, finalmente, alguém chegou às respostas corretas de matemática. “O problema do 13º salário é algo que dá para fazer de cabeça, mas a maioria dos alunos do ensino médio não consegue entender a relação entre os dados de um enunciado para saber qual conta pode ser feita”, diz o professor Imenes.

E as outras matérias?

Se os diagnósticos em matemática e língua portuguesa são ruins, a situação em relação a outras disciplinas sequer é conhecida. O Saeb segue a mesma escala aplicada ao ensino fundamental e só tem as duas matérias consideradas essenciais desde a alfabetização.

No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) são cobrados conteúdos de ciências humanas (história, filosofia, sociologia e geografia) e ciências naturais (física, química e biologia). Mas só quem quer faz a prova de acesso a programas universitários, e a escola não recebe um diagnóstico sobre como seus estudantes se saíram por conteúdo.

A única avaliação de ciências feita no Brasil dá indícios de que o patamar é o mesmo verificado em português e matemática. No programa de avaliação internacional de estudantes (Pisa, na sigla em inglês), feito pela Organização para Cooperação de Países Desenvolvidos (OCDE), com estudantes de 15 anos – que deveriam estar no 1º ou 2º ano do ensino médio – os brasileiros aparecem em 53º lugar em ciências entre 65 países. É a mesma colocação obtida em leitura, e melhor do que a 57º posição em matemática.

Reflexo na universidade

Com o aumento do acesso à universidade, possibilitado pela expansão tanto do sistema público como de programas de bolsa e financiamento em instituições particulares, muitos destes estudantes chegam ao ensino superior. No total, 15% dos jovens de 18 a 29 anos estão na faculdade ou já a concluíram. Para alguns especialistas, o reflexo do ensino médio ruim inclui a queda da qualidade das universidades e das pesquisa que devem ser realizadas nelas – além de cidadãos mal formados para a vida, como mostrou a reportagem publicada na terça-feira.

Para Elizabeth Balbachevsky, livre docente do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora participante de grupos internacionais na área de educação para jovens, as universidades também devem colaborar. "No mundo todo, o aumento do acesso ao ensino superior levou para as faculdades um novo público. Elas também devem ajudar os alunos a fazer um ensino médio bom ou a completar suas habilidades paralelamente ao curso superior. É isso ou deixá-los prosseguir sem boa formação."

*colaboraram Luciana Cristo, iG Paraná, e Wilson Lima, iG Maranhão

Ainda esta semana:
Quinta-feira: Falta o mínimo: professores qualificados
Sexta-feira: Iniciativas que podem mudar este quadro

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    86 Comentários |

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    • Luciana Rebello | 27/02/2011 14:12

      Os alunos na sua maioria, todos os dias reclamam quando o professor entra na sala de aula, não querem raciocinar, fazem das salas de aula verdadeiros infernos de baderna. Professor não foi preparado para "domar" jovens sem limites. A obrigação do aluno seria sentar-se e fazer as atividades e não viver azucrinando os professores para não dar atividades. Hoje as salas foram dominadas por aparelhos eletrônicos, música, jogos e cartas, e o assunto dos alunos é namoro, música, brigas, ficar, etc. Ninguém quer saber de lousa, caderno e explicação; muito menos sair formado para enfrentar o futuro. A família quer saber dos benefícios materiais que o governo concede.

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    • Yara | 24/02/2011 08:04

      A qualidade da escola é ruim, com professores despreparados e mal remunerados. Em casa, a maioria dos alunos não recebe ajuda dos pais, que trabalham, chegam cansados e não estão com disposição para sentar e estudar com eles. Os estímulos externos de diversão são inúmeros: TV, internet, joguinhos eletrônicos, passear nos shopping centers, etc... Por outro lado, nas escolas públicas há um total incentivo do governo no sentido de "empurrar" o aluno para a frente. Ninguém está interessado se ele aprendeu, o que importa é que ele pulou de série e as estatísticas sobre a Educação no país vão melhorar. Nas escolas privadas a pressão é dos pais que não querem que os filhos sejam reprovados porque isso representa um ano a mais de gastos. E por ai vai.......

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    • Yara | 24/02/2011 07:54

      O reflexo da baixa qualidade do ensino médio se observa claramente nas salas de aula das universidades. Recebemos alunos que lêem mas não entendem o que lendo, que escrevem pessimamente (erros de ortografia, de concordância, incapacidade de colocar uma idéia no papel, etc..) e que têm preguiça total de raciocinar. Eles querem tudo pronto, tudo mastigado. Fazer pesquisa para esses alunos é sentar na frente do computador e acessar o Google. Não há qualquer análise crítica do que aparece na internet. Para eles, tudo que está lá corresponde à mais profunda verdade. Basta copiar e colar. Projeto isso para o futuro e me apavoro. Em algum momento esse estado de coisas tem que ser mudado.

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    • andreia | 24/02/2011 07:18

      A família tem sim grande responsabilidade. Ela simplesmente coloca o filho na escola e se exime de qualquer responsabilidade; não quer acompanhar o desenvolvimento escolar de seu filho mas sabe reclamar apenas dos "benefícios' oferecidos pela escola pública: leite, uniforme, kit de material, perua escolar... jamais questionam o trabalho pedagógico e o seu papel perante a educação de seu filho

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    • Marnona | 23/02/2011 23:06

      Penso que todos estão certos em reivindicar melhoria de todos os serviços publicos desse nosso país, em todas as instâncias, municipal, estadual e federal. Penso também que estudando em escola pública e depois mantendo meu filho numa escola particular, vejo as mesmas deficiências apenas em escalas menores ou maiores, mas sempre em consequência de interesses políticos, econômicos, estatísticos e por aí vai. E cabe sempre a cada pai e mãe vigiar. Mas o domínio continua sendo da escassez econômica total que leva a um comportamento de dependência e exigências descabidas e o excesso de poder econômico que leva a um comportamento independente e de exigências descabidas.
      No meio ficam os seres de boa fé, que sem condições de manter um mínimo necessário para seguir em frente e frequentar a faculdade têm de assistir o ciúme, a raiva e o egoísmo de alguns que insistem em tentar encontrar meios de provar que: "não adianta o investimento governamental que só forma mal os alunos e gera profissionais medíocres.
      Mas, aqui entre nós, considerando o percentual de profissionais medíocres que temos hoje, há mais fontes luminosas por aí.

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    • ELEITOR | 23/02/2011 22:50

      A culpa é minha, é sua, é de nós todos, que colocamos pessoas no poder que fazem o que querem e trabalham para que isso piore, pois os políticos trabalham em prol do povo ficar cada dia mais burro e incapacitado, para que depois venha o bolsa familia, vale gás, vale aluguel, benefício de presídiário, etc..
      Isso só vem a contribuir para que eu e vc fiquemos mais burro e sem noção a cada dia, agora a mudança de tudo isso vai depender na hora de vc escolher, "isso se até lá você ainda saiba", o político qual irá melhorar ou piorar nosso sistema.

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    • ana elisabeth lima | 23/02/2011 22:27

      O nosso problema educacional e serio, mas nao existe vontade politica de mudanca. O Prof. Lauro de oliveira Lima denucia a mais de 40 anos, mas o sistema continua com o projeto da ditadura de nosso pais. Achei fantastico o comentario que diz quando o aluno nao aprende a culpa e do aluno, Isso e ironico. O professor nao sabe metodologia para ensinar. Os alunos querem aprender mas nao sabem como.

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    • Vanderlei | 23/02/2011 22:14

      É triste a confirmação de algo tão perceptível em nossa sociedade, esse retrocesso do ensino em meio a tantos “avanços sociais” divulgados na mídia, embora a culpa por esse retrocesso na educação de nossos jovens não possam ser atribuídos tão somente aos professores, poder publico e a família, pois todos possuem a sua parcela de culpa. Vamos elaborar um teste com estes mesmos alunos sobre as redes sociais como Orkut, Facebook, MSN e a sociedade on line de forma geral será que existira alguma duvida? No tempo em que realizar um trabalho escolar não necessita nem mesmo de uma leitura e simplesmente ctrl c e ctrl v na internet...onde vamos chegar...se chegarmos.

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    • cremilda | 23/02/2011 21:46

      O BRASIL NÃO É UM PAÍS SÉRIO.

      Já falamos disso um monte de vêzes. As escolas estaduais estão com menos da metade de sua capacidade. São turnos fechados. Os turnos que funcionam não tem todas as salas ocupadas.
      Alunos são jogados na rua aos montes por incapacidade e arrogância de mal professor. Por motivo fútil aluno é expulso e mandado para a Delegacia de Policia. A orientaçao vem da SEE de São Paulo em uma cartilha específica distribuida no final de 2009 e usada em larga escala em 2010.
      Segundo o Portal IG, na série que fala sobre educaçao, metade dos alunos não termina o ensino médio
      Como os dados oficiais são sempre maquiados a favor do Governo, fecha a conta.A gente afirma que são sessenta por cento e o IBGE declara que são cincoenta. Então tá. Fica combinado que cincoenta por cento dos alunos estão fora do ensino médio.Mesmo assim é assustador.
      O óbvio, alunos não terminam o ensino médio. Esvaziaram a escola sob livre e expontânea pressão.
      Como desgraça pouca é bobagem, hoje vem outro dado alarmante.
      Os alunos que resistem e ficam na escola, aprendem apenas 10 por cento do que precisam.
      Os educadores encaram o aluno líder, o rebelde e o questionador como um desafio e vai em frente.
      Educador é minoria na escola pública, vence o tranqueira, o mau professor o não vocacionado, o apadrinhado de figurão. Esse mau professor e que manda na escola, por ser a maioria , expulsa os alunos que dão trabalho e só ficam com os bonzinhos.
      O dado de hoje deveria alarmar. Dos alunos bonzinhos que resistem esses aprendem só 10 por cento do que deveriam, quando termina o ensino médio.
      Então não adiantou nada ser bonzinho? Baixar a cabeça ? Ser educado? Ouvir absurdos e sofrer todo tipo de pressão e terror numa escola que é situaçao de risco para eles???
      Tudo isso para nada…
      Se o Brasil fosse um país sério, isso detonaria uma comoção nacional.
      Todos se indgnariam e a imprensa faria um barulho internacional com campanha do tipo
      SALVEM O BRASIL. SALVEM A ESCOLA PÚBLICA.
      No lugar disso, a série de entrevista do IG parece que está dando noticias do Big Brother, quem pegou quem.
      Todos dormem anestesiados em berço “AINDA” explêndido.
      Todos fugindo da luta, correndo sabe Deus para onde.
      Lembrando que a escola púbiica recebe verba total para uma escola digna de primeiro mundo.
      Além das verbas oficiais, tem as parcerias com todas as empresas bem sucedidas e bancos.
      Para onde vai essa grana toda ???
      Será que o IG vai falar disso também, ou vai ficar nas entrelinhas?
      cremildadentrodaescola.wordpress.com

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    • CAE | 23/02/2011 21:00

      Sou da época em que os professores da rede pública tinha um sálario razoável, como indicativo disso; era difícil ver um professor mau vestido e andando a pé. Eles tinham muito classe para lecionar e ai daquele aluno que pronunciasse um palavrão em sala! Era repreendido na mesma hora. O professor era visto com muito respeito e alguns tornavam-se verdadeiros ícones. Atualmente o estado não está nem aí com os professores e a maior prova é o salário que os contempla. Muitas vezes não paga os gastos do professor com suas refeições. Agora vem esse pessoal do PSDB falando em dois professores por sala de aula; como acontece esse milagre? pois em disciplinas da área de exatas na maioria das vezes os alunos nunca encontram professor e aí começam os problemas, essa juventude se forma e não sabem nada! O povo Paulista precisa dar um basta nessa situação e a melhor forma é não votando em candidatos do PSDB nas futuras eleições; pois eles entedem muito é de pedágios, pois isso lhes dão ajuda na hora das gordas campanhas eleitorais. Vamos votar em candidatos que estejam comprometidos em resgatar os verdadeiros valores dos professores e do ensino como aconteciam no passado, onde o ensino de São paulo era referência neste país; onde nós Paulista tínhamos orgulho de ver nossos filho se graduando no ensino deste maravilhoso estado.

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