A quatro dias da divulgação dos aprovados na USP, candidatos tentam driblar a ansiedade

No próximo dia 4 de fevereiro, quarta-feira, a Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) divulga o resultado do vestibular mais concorrido do País.

Lecticia Maggi, repórter do Último Segundo |

Na briga por uma das 10.707 vagas ¿ sendo 10.557 para a Universidade de São Paulo (USP), 100 para a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e 50 para a Academia de Polícia Militar do Barro Branco ¿ estão Rubens, Sushila, Monique, Carlos e Renan. Eles são cinco dos 38.606 candidatos que prestaram a 2ª fase da Fuvest.

Por uma vaga em uma universidade pública eles estudaram mais de 8 horas diárias, frequentaram cursinhos preparatórios, abriram mão de finais de semana, largaram empregos, acabaram namoros e tiveram que conviver com sintomas de ansiedade e estresse.

Queda de cabelo e três promessas

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Rubens Carvalho fez até promessa

Rubens fez até promessa

Rubens Eduardo Bozano, de 19 anos, não é religioso, tampouco supersticioso, mas, para passar no vestibular, diz que apelou e fez três promessas: uma para Universidade Estadual Paulista (UNESP), uma para Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) e uma para Universidade de São Paulo (USP). Foram as três universidades que prestei. A promessa é quase a mesma para todas, só muda a intensidade, afirma. Para a USP, a intensidade foi maior.

No início de 2008, Bozano cursava jornalismo na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e acreditava que nunca mais precisaria estudar química e física na vida.

Natural de Botucatu, no interior de São Paulo, morava com uma tia. Tive problemas com ela, que sempre morou sozinha e não se acostumou com a minha presença. Lá (na faculdade) também é tudo voltado para o agronegócio. É horrível, diz.

Decepcionado, ele voltou para a casa dos pais em abril e, na semana seguinte, matriculou-se em um cursinho. Já atrasado em relação aos demais concorrentes, correu para recuperar os meses perdidos. Eu estudava de manhã, chegava em casa às 13h e estudava das 14h às 18h. Depois, descansava, e estudava das 20h às 22h, conta.

A rotina lhe rendeu um pedido da própria mãe para que diminuísse o ritmo. Ela disse para eu estudar menos porque eu estava ficando estressado demais e meus cabelos começaram a cair, afirma. A recomendação da mãe ele não seguiu e, além de ter se afastado dos amigos, seu namoro de 7 meses acabou por causa dos estudos. Até nos sonhos o vestibular estava presente. Eu ficava tão encanado com alguns exercícios que sonhava com uma resolução. No dia seguinte, ia tentar fazer e era do mesmo jeito, lembra. 

O estudante prestou economia na USP e os 58 pontos que conseguiu - dois a mais que a nota de corte ¿ levaram-no à 2ª fase das provas. Mesmo que não passe no vestibular, ele diz que ficará com a consciência limpa. O que me esforcei não foi brincadeira, afirma.

Enquanto espera pelo resultado, Bozano tenta se distrair lendo e saindo com os amigos, mas, à noite, é inevitável não pensar no futuro: bate um desespero enorme de ter que fazer cursinho de novo, conta. Nos momentos de desânimo, diz que se lembra da tia do Mato Grosso do Sul dizendo que ele não seria capaz de passar na USP. Caso passe, já sabe a primeira coisa que irá fazer: vou mandar a lista de aprovados pelo correio para ela.

Fuvest tem todo ano

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Sushila relaxa lendo
Apesar da expectativa para a divulgação do resultado da USP, a técnica em designer gráfico Sushila Vieira Claro, de 24 anos, se mantém tranquila, contrariando assim uma regra quase que comum a todos os vestibulandos.

De acordo com ela, a sua experiência de vida e o trabalho que teve entre 2004 e 2006 foram decisivos para que aprendesse a lidar melhor com o estresse e a pressão.  Às vezes eu ficava das 6h até as 23h trabalhando e, nessa ansiedade, comia só porcaria. Acabei com 140 kg, afirma.

Hoje, alguns anos e uma redução de estômago depois, Sushila diz que vê o vestibular com mais naturalidade. Sou capaz de não encarará-lo como um bicho de sete-cabeças tampouco como o fim do mundo, a última chance, explica.

Por isso, ela prefere se prevenir e já antecipar os estudos para uma eventual segunda tentativa. Sushila começou a ler a lista de livros obrigatórios da USP para o vestibular de 2010. Estou no 3º, diz. Ela também fez prova em um cursinho preparatório gratuito e diz que está só aguardando para apresentar os documentos sócio-econômicos para fazer a matrícula.

Candidatada ao curso de publicidade e propaganda, o mais concorrido da USP, com 40,66 candidatos/vaga, ela fez 68 pontos dos 90 possíveis. A nota de corte para a carreira que escolheu foi 61. Foi uma imensa surpresa passar para a segunda fase. Fiz a prova consciente e tranquila, mas sabendo que não havia estudado o necessário, conta ela, que só decidiu prestar vestibular no mês de agosto.

Sem dinheiro para pagar o cursinho, Sushila diz que estudava 8 horas diárias e, durante três meses, dedicou-se apenas a matemática - matéria que tinha mais dificuldade. Depois, em outubro, já trabalhando, estudava na hora do almoço e mais três horas quando chegava em sua casa. Deveria ter decidido prestar no começo do ano para não ter que correr tanto, confessa, mas sem arrependimento. Entendo que fiz o que pude nas condições que tinha. Se não foi o suficiente, outras chances virão. Fuvest tem todo ano, afirma.

De professora a vestibulanda

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Monique já é formada, mas quer outra faculdade
Há menos de dois anos, Monique Soares Pereira, de 23 anos, dava aulas de português para alunos dos ensinos fundamental e médio de uma escola pública da capital paulista.

Licenciada em Letras pela Universidade Nove de Julho (UNINOVE), no curso de 3 anos, ela quer se formar também pela Universidade de São Paulo (USP). Não quero ficar em escola pública, quero área de pesquisa, ser reconhecida. E também dar aulas em escola particular, que preza muito pelo nome da faculdade que você fez, afirma.

Em 2007, já decidida a fazer USP, ela ainda tentou conciliar a preparação para o vestibular com o trabalho na escola, mas não achou suficiente estudar apenas à noite e aos finais de semana. Eu precisava focar mais, diz. No ano seguinte, pediu demissão e trocou de cursinho. Eu só estudava. Parei de sair, o namoro acabou e ainda fiquei doente, conta, sem saudades. 

Em setembro, na semana em que iria prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Monique teve uma trombose cerebral. Além de perder a prova, a recomendação dos médicos foi para que ficasse um mês longe dos livros. Eles falam que fiquei doente por outros motivos, mas eu tenho certeza que foi por causa de estresse e ansiedade, afirma.

Por causa do tempo afastada, ela considera que se prejudicou na 1ª fase do vestibular. Monique fez 47 pontos, sendo que a nota de corte para o curso de Letras foi 40. Achei que faria mais, mas fiz a mesma pontuação que em 2007. Na 2ª fase como a prova é específica eu estava mais preparada, diz. Para a ex-professora, resta aguardar para saber se em 2009 voltará às salas de aula como vestibulanda ou universitária. Estou tentando relaxar, mas quando falam em vestibular até mudo a respiração.

Quatro anos de cursinho e o sonho de fazer medicina

A maior parte dos amigos de Carlos André Carreteiro, de 22 anos, está formada. Já ele terminou em 2008 o 4º ano do cursinho pré-vestibular. Seu sonho: fazer medicina.

Quando acabou o 3º ano do ensino médio, em 2004, Carreteiro sabia que queria seguir carreira na área de saúde, mas ainda não havia decidido qual. Eu nunca fui bom aluno, no final do colégio fiz vestibular para odonto na Unicamp só pra ver como era, nem sonhando eu passaria, admite.

No 1º ano de cursinho, decidiu que iria prestar medicina e, a partir de então, estabeleceu um plano de estudo. Comecei a me dedicar muito. No primeiro simulado fiz 59 pontos e, no segundo, subi para 79 (dos 100 possíveis), conta ele, que além do cursinho normal fazia um dedicado a alunos que iriam prestar o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

No entanto, para o curso escolhido, o seu esforço ainda não era suficiente. No 2º ano consegui uma boa média na Fuvest, mas a redação ficou muito abaixo dos demais e ela me tirou de concorrer a vaga, lembra.

No começo, Carreteiro diz que acreditava que faria no máximo dois anos de cursinhos preparatórios, mas a experiência dos colegas de classe mostrou que a realidade poderia ser diferente. No 2º ano conheci uma pessoa que já estava no 7º, conta. Alguns amigos começaram a fazer faculdade e desistiram. Eles diziam que se era aquilo que eu queria valeria a pena continuar, acrescenta.

A cada reprovação no vestibular, porém, o desânimo. Com ele, a vontade de optar por outro curso. Segundo Carreteiro, todos os anos, a sensação era a de assistir ao mesmo filme. Você acha que o trabalho não valeu nada, diz. Eu voltava para o cursinho sem muita vontade, depois me conformava que não tinha mais o que fazer e seria besteira parar tudo, afirma.

Em 2008, o estudante prestou a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em Minas Gerais, e Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná. Na USP, fez 78 pontos ¿ um a mais que a nota de corte. Agora, espera confiante pela divulgação do resultado no próximo dia 4 de fevereiro. Mas, se não passar, já está com a vaga garantida na UEM, onde foi aprovado em 19º lugar no curso de medicina. Já estou satisfeito.

Maratona de provas

Arquivo pessoal
Renan vive maratona de provas
Renan fez dois meses de provas

Renan Augusto da Silva Santos tem apenas 17 anos, mas já é um veterano em vestibulares. Treina desde o 1º ano do colégio. Comecei a prestar porque vi que as pessoas que eu achava inteligentes não passavam, afirma.

Em 2008, o estudante prestou química em seis universidades: Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual de São Paulo (UNESP) e Universidade de São Paulo (USP). Desta vez, é para valer.

Morador de Votuporanga, no interior de São Paulo, Renan estudou até a 8ª série em escola estadual. Depois, foi para o colégio particular Celtas que, segundo ele, é totalmente voltado ao vestibular. Eu não tinha muita noção de como era concorrido. Comecei a estudar de verdade em agosto, quando senti que a água estava batendo, brinca.

Depois, do dia 16 novembro ao dia 14 de janeiro passou por uma maratona de provas, que só lhe deu folga nos dias de Natal e réveillon. Fiz seis dias seguidos de provas em dois Estados diferentes, conta. Ao término de todos os vestibulares, pôde comparar o seu desempenho. A prova mais difícil foi a da Federal do Mato Grosso do Sul. Com a da Unesp eu já estava bem habituado e a 1ª fase da Unicamp achei fácil, afirma. 

A USP, para ele, foi um capítulo a parte e o vestibular que mais lhe deixou nervoso. Cheguei em casa desnorteado. Achei que não iria passar, mas, quando corrigi, fiquei satisfeito, diz ele, que fez 55 pontos. A nota de corte para a 2ª fase do curso de bacharelado em química, em Ribeirão Preto, foi 48.

Renan conta que também teve problemas por ter perdido o seu RG no dia anterior ao vestibular. De acordo com ele, mesmo com o protocolo para obter um novo documento em mãos, os fiscais da sala não queriam autorizá-lo a fazer a prova. Tive medo de ter conseguido a nota para 2ª fase e depois meu nome não estar na lista, diz. Aliviado, agora ele torce para que seu nome também esteja na lista que será divulgada no dia 4 de fevereiro.

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