A matemática do endividamento

Dívidas financeiras na idade adulta podem ser conseqüência de deficiência no aprendizado. Saiba como a escola e o que você deve fazer para driblar o problema

Isis Nóbile Diniz |

Mais de 20% da população sofre com o endividamento crônico. São cerca de 42 milhões de pessoas que não conseguem parar de fazer dívidas, de acordo com o último levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgado em 2007. A principal causa é simples: o brasileiro gasta além do que ganha. O que as estatísticas não revelam, porém, é que isso ainda se deve, em muitos casos, à dificuldade dos consumidores em idade adulta a lidar com os números. Fato que tem raízes na metodologia de ensino escolar.

As armadilhas financeiras a que todos estamos sujeitos podem ser visualizadas antes mesmo de sua ocorrência, diz Antônio Carlos Lessa, matemático e professor do Colégio Módulo. Para que isso ocorra, é necessário um conhecimento prévio, não necessariamente aprofundado, dos sistemas financeiros que regem nossa sociedade, completa. Não é apenas importante saber fazer as operações básicas como de soma e subtração. Ou realizar as mais complexas, como as equações de terceiro grau.

Além do que é lecionado, para prevenir o endividamento das futuras gerações Lessa acredita que as instituições de ensino público e as privadas devem ministrar conteúdos de matemática financeira. A defasagem seria superada ao fazer com que o aluno identifique fatores importantes dentro de uma operação financeira como os juros, os prazos e suas diferentes formas de apresentação. Para evitar as armadilhas financeiras, o estudante deve aprender na escola que, por exemplo, ao adquirir um carro, é necessário analisar o valor de cada parcela. Mas, também, somar os gastos mensais com gasolina, IPVA, manutenção do veículo e pedágios.

Desse modo, segundo o educador, mudar a realidade no processo de ensino-aprendizagem seria primordial para a qualidade de vida no futuro. A criança e o adolescente, principalmente a partir dos 10 ou 12 anos, possuem condições de entender o valor do dinheiro. Eles conseguem trabalhar e julgar o problema, associando às situações do cotidiano, diz. E, nessa idade, a criança estabelece comportamentos e hábitos que podem acompanhá-la por toda a vida. É o momento de instruir a conscientização.

A colaboração da família é fundamental. Deve-se trabalhar de forma cooperada com a escola, pois o filho percebe a relação que a família possui com o dinheiro. Por exemplo, os adolescentes querem os produtos eletrônicos top de linha. Os pais podem comprar um semelhante, que seja mais barato, e mostrar que ambos possuem a mesma função, explica. Não se trata de assinar atestado de pobreza, mas usar o dinheiro de forma racional. Principalmente, quando não se tem condições financeiras para comprar algo mais caro.

Como corrigir o problema na idade adulta

O rendimento domiciliar per capita foi estimado em R$ 741,27 pelo IBGE, em dezembro de 2007. Para administrar o endividamento e essa quantia de dinheiro, a dica do matemático é se organizar. Todo mês, devem-se somar as contas fixas como de luz, água, telefone, supermercado e dívidas. Em seguida, subtrair do salário esse valor. O resultado da conta será o que pode ser poupado ou investido em outros itens como roupas e produtos eletrônicos. É verdade que, dependendo do salário, muitas vezes é necessário optar pela compra de um produto em detrimento de outra aquisição. Não se deixar de sonhar em adquirir algo. Com organização se percebe que, no final do mês, pode existir uma sobra.

Será que voltar à escola ajudaria a acabar com as dívidas? Neste caso, a escola não resolveria tudo, afirma Lessa. Porém estudar é válido. Quem não completou o ensino médio, pode voltar a estudar para aumentar o pensamento matemático e adquirir mais conhecimento geral. Se a pessoa for perseverante ou dedicada, aconselho a leitura de notícias sobre finanças e mercado financeiro. Mesmo que não entenda nada no início, essa é uma maneira que, sem dúvida, ajuda a lidar com o dinheiro, diz.

O professor também indica, para quem possui condições econômicas, freqüentar cursos e a leitura de livros sobre a área. Mas, antes de tudo, em uma situação financeira endividada, é preciso manter o bom humor para conseguir se organizar com clareza.

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