Tira-dúvidas de gramática por telefone desafia Google e chega aos 35 anos

Por Ana Flávia Oliveira -iG São Paulo |

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Seis professores atendem cerca de 100 pessoas por dia; crase, acordo ortográfico e regências são dúvidas mais comuns

Seis professores tiram dúvidas sobre Língua Portuguesa diariamente das 8h às 17h
Divulgação
Seis professores tiram dúvidas sobre Língua Portuguesa diariamente das 8h às 17h

Imagine essas situações. Seu chefe pede para caprichar na carta que será enviada ao potencial cliente. Ou, ainda, sua nota de redação está péssima e a professora dá a última chance. Em situações assim, o SOS da língua portuguesa costuma estar na internet. Mas em Fortaleza o socorro também vem por telefone. A prefeitura da capital cearense mantém serviço de tira dúvida de gramática por telefone que atende cerca de 100 pessoas por dia. Apesar de funcionar apenas na cidade, o serviço é procurado por pessoas de todo País e também por estrangeiros com dúvidas em fonética, semântica, crase, pontuação, conhecimentos gerais e outras regras do português.

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Considerado pioneiro em 1980, quando foi criado, o Plantão Gramatical ganhou um concorrente de peso com a popularização da internet e, principalmente, do Google. No entanto, o serviço ainda continua ativo e popular.  Desde a sua fundação, foram realizados quase 660 mil atendimentos.

“O plantão desafia a tecnologia e ainda gera muita procura porque tem um atendimento personalizado. Eu o criei para tirar a dúvida e explicar a regra. Os professores também tiram as dúvidas decorrentes da indagação inicial”, explica Agnelo Neves, consultor pedagógico e do Instituto Municipal de Desenvolvimento de Recursos Humanos (Imparh), responsável pelo plantão.

A ideia de criar o serviço surgiu quando Neves era presidente do Imparh, em 1980. “No dia 8 de setembro de 1980, eu estava tomando banho para me encontrar com o prefeito e tive a ideia. Saí do banheiro com a cabeça cheia de xampu e minha mulher perguntou o que era aquilo. Eu disse que tinha uma ideia e tinha que me apressar para não esquecer”.

A ideia foi acatada pelo prefeito de Fortaleza na época e começou a funcionar no mesmo dia com a atuação de dois professores “emprestados” da rede municipal. “Naquela época, o serviço era muito tupiniquim. Tínhamos poucos livros e os professores não tinham muitos recursos. O serviço começou tacanhamente e foi evoluindo. As tecnologias começaram a ser incorporadas e os professores foram ganhando mais condições de trabalho”, lembra.

Atualmente, seis professores formados em Letras (um doutorando, um mestre, dois mestrando e dois especialistas) fazem o atendimento durante a semana, das 8h às 17h.

Eles têm até três minutos em cada ligação para tirar as dúvidas de quem procura o serviço. “Esse tempo foi estipulado porque tem gente que quer ler um poema e verificar aspectos estilísticos, por exemplo. A gente já notou também que tem pessoas que estão revisando monografia, por exemplo, e ligam com um monte de dúvidas. No final, a gente que faz a revisão para eles”, explica a especialista em linguística aplicada Márcia Linhares Rodrigues, uma das atendentes do Plantão Gramatical.

O serviço, explica, foi criado para ser dinâmico e tirar dúvidas pontuais. Por essa razão, não é considerada a inclusão das facilidades da internet no atendimento.  

“Nós poderíamos inovar e tirar dúvidas por Whatsapp [aplicativo de mensagens instantâneas], e-mail ou mensagem, mas perderíamos muito tempo digitando as respostas e teríamos o risco de o interlocutor não entender o que a gente está querendo dizer”, afirma Márcia.

Os professores garantem que não consultam o Google para tirar as dúvidas, mas têm ao alcance das mãos dicionários de regência verbal, nominal e de sinônimos, como o Aulete e o Volp, da Academia Brasileira de Letras. O gigante de buscas na rede só é usado para tirar dúvidas que não são sobre a língua portuguesa.

“Teve uma pessoa que ligou querendo saber qual a área territorial da cidade de São Paulo. Então tive de pesquisar na internet”, lembra Márcia. Ela conta também que já atendeu ligações de pessoas querendo números de telefones de outros serviços, como o INSS e até mesmo do programa do Padre Marcelo Rossi.

Dúvidas mais comuns

O mestre em Linguística Francisco Marino Neto, atendente do Imparh há 21 anos, diz que as principais dúvidas dos usuários são sobre as modificações impostas pelo Acordo Ortográfico, instituído em 2009.

“As pessoas ainda não internalizaram isso. São anos habituados a uma forma de grafar as palavras por anos e depois tiveram que mudar”, diz, citando como exemplo o uso do hífen.

“Como o trema desapareceu, as pessoas acham o hífen também e insistem em grafar palavras como bem-vindo e bem-estar sem o hífen.” Marino Neto critica ainda a forma como a palavra foi escrita em um programa de TV.

“É um desserviço tirar o hífen do bem-estar porque embora as pessoas saibam que tem hífen, elas veem na TV sem e a imagem fica interiorizada”, diz.

A professora Márcia lembra também que a queda do hífen causa estranhamento em palavras como autorretrato, autossuficiente e autossugestão. Com a nova regra, em palavras começadas em R ou S, deve dobrar a consoante em vez de usar o hífen.

Outra campeã de dúvidas é a crase. “É um problema seríssimo. As pessoas não conseguem entender que não existe crase antes de palavras masculinas”.

A professora Márcia afirma que as dúvidas em relação à regência verbal e nominal também são bem comuns. “Uma das dúvidas mais comuns que temos aqui é em relação a concordância da palavra anexo. A gente percebe que são pessoas que querem mandar e-mail”, diz. Ela exemplifica: “Seguem, em anexo as atas. Essa frase está certa, mas elas acham que está errada. Nós sugerimos então seguem anexas as atas. Neste caso, tira a locução em e anexo vai concordar com substantivo”. Dúvidas sobre vírgulas e acentuação também são bastante comuns.

Serviço

De segunda-feira a sexta-feira, das 8 às 17 horas
(85) 3225.1979

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