Professores da rede estadual passam noite em protesto por melhores salários

Por Cristiane Capuchinho - iG São Paulo* |

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Acampamento em frente à Secretaria da Educação pretende pressionar pasta negociação em reunião nesta segunda-feira

Com barracas armadas em frente à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, cerca de 50 professores da rede estadual passaram a noite na praça da República (centro de São Paulo) em protesto por melhores salários. O objetivo é pressionar pelo início de negociações com a pasta em uma reunião que acontece nesta segunda-feira (30). 

A categoria está em greve desde o dia 13 de março e reivindica, principalmente, reajuste salarial de 75,33%. Os professores também reclamam de salas superlotadas e pedem redução do número de alunos por turma e contratação de professores. O governo alega que já concedeu 45% de aumento acumulado para a categoria nos últimos quatro anos. 

No Estado de São Paulo,  o piso do professor da rede estadual com ensino médio ou licenciatura é de R$ 2.415,89 para 40 horas de trabalho semanais. O valor é 26% maior que o piso nacional, de R$ 1.918. 

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Professores estaduais em greve passam noite em frente à Secretaria Estadual de Educação, em São Paulo (30.03.2015)
Cristiane Capuchinho/iG
Professores estaduais em greve passam noite em frente à Secretaria Estadual de Educação, em São Paulo (30.03.2015)




"Estamos nos revezando em protesto para que o governo aceite negociar nossas pautas e pare de fingir que a greve não existe", disse Ariovaldo de Camargo, professor de matemática em Ibitinga (interior de SP).

Na manhã desta segunda-feira, os professores reorganizavam as barracas atingidas pela forte chuva desta madrugada e preparavam o ato que seria feito em frente à secretaria durante reunião da pasta com a Apeoesp. "A negociação salarial não estava na pauta, mas vamos tentar colocá-la", explicou de Camargo. 

Salas superlotadas e problemas de infraestrutura
Além da questão salarial, os professores reclamam de turmas com mais de 50 alunos dentro da sala de aula e do corte na verba de manutenção. 

Neste mês, o iG apontou que em algumas escolas da rede estadual, as salas de aula de educação de jovens e adultos chegava a ter 70 estudantes matriculados. 

"Pedagogicamente, é impossível dar aula para tantos alunos. Em Suzano, tivemos 97 salas fechadas", aponta o professor de história Marcos Luiz da Silva, que trabalha em Suzano. 

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A situação se repete em escolas da capital e do interior do Estado, segundo professores que participavam do protesto.

"Não veio verba de manutenção este ano, não tem giz, material de limpeza, papel higiênico. Tem escola que os professores estão comprando giz do próprio bolso. Unidade que o diretor está levando papel higiênico", disse também o professor de Suzano.

De acordo com a secretaria, as salas de aula devem ter em média 40 alunos por sala. Se houver número maior, o problema deve ser comunicado à diretoria de ensino, responsável pelo desmembramento das salas. 

Protesto na última sexta-feira

Na sexta-feira (27), cerca de 10 mil professores, segundo a PM, participaram da assembleia da categoria que decidiu pela continuidade da greve, na avenida Paulista. Após a decisão, os professores fizeram uma caminhada até a praça da República e armaram o acampamento.

Um deles, professor de história de uma escola da zona leste da capital há um ano, não quis se identificar por medo de represália. Ele disse que decidiu entrar em greve principalmente por causa das salas lotadas e das más condições das escolas públicas. “Tenho colegas que têm até 80 alunos na sala de aula. Falta até papel higiênico”, revelou.

Ana Vitalina de Souza, que leciona há 21 anos e dá aulas de geografia em uma escola da zona oeste paulistana, contou que está em greve por causa das más condições de trabalho, pelas salas superlotadas e quebradas. "Na escola em que trabalho não tem nem mesa para o professor colocar seu próprio material para dar aula. No começo do ano faltou até giz e papel higiênico. Tudo isso revolta a gente. Tenho 21 anos de trabalho e me efetivei no ano passado com salário de R$ 1,6 mil, para 20 aulas, bem menor do que quando entrei. Isso, fora a violência que a gente sofre na sala de aula”, acrescentou.

A professora disse que, com esse salário precisou da ajuda da filha para pagar seu aluguel. “Não dá para sobreviver, ganhar R$ 1,6 mil de trabalho e pagar R$ 1,4 mil de aluguel”, contou a professora, que dá aulas também na rede particular para poder garantir seu sustento. Na escola em que leciona, Ana contou que cerca de 80% dos professores entraram em greve.

A próxima assembleia da categoria está marcada para quinta-feira (2) às 14h no vão do Masp, na avenida Paulista. 

* Com informações da Agência Brasil

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