Abuso de álcool é mais comum entre universitários que moram em república

Por Cristiane Capuchinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Morte de estudante da Unesp após coma alcoólico mostra cultura de consumo abusivo de álcool e falta de conhecimento

Na tarde de sábado (28), universitários do interior de São Paulo se reuniram para uma festa tradicional de repúblicas de Bauru. A comemoração, com bebida à vontade (open bar), aconteceu em uma chácara e era patrocinada por uma marca de cerveja. 

Durante um dos jogos de beber anunciado pela organização da festa, o estudante Humberto Fonseca, de 23 anos, tomou cerca de 25 doses de vodca em uma competição de quem bebia mais. Ele e outros seis estudantes foram parar no hospital. Fonseca não resistiu ao coma alcoólico e três alunos continuam internados

A tragédia alerta para a necessidade de combate à cultura de uso abusivo de álcool entre universitários. O hábito é comum entre estudantes universitários e acontece mais entre alunos que moram em república, segundo especialistas consultadas pelo iG.  

Um levantamento nacional sobre consumo de drogas realizado em 2010 mostrou que 19% dos universitários fazem uso frequente de bebidas alcoólicas, 44% disseram ter bebido para ficar bêbado no mês anterior à pesquisa e 48,7% já experimentaram drogas ilícitas – o dobro da taxa da população brasileira.

"O álcool é a principal droga da universidade e dentro da universidade há menos abstinência que na população", indica Florence Kerr-Corrêa, professora do departamento de Neurologia e Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Unesp Botucatu. 

Segundo ela, nas repúblicas o consumo médio de álcool é maior por pressão social. "Tem repúblicas com tradição de beber muito. Repúblicas em que não se pode ser abstêmio, o estudante que não bebe não pode fazer parte", diz. 

Publicidade de festa em que morreu o estudante da Unesp
Reprodução/Facebook
Publicidade de festa em que morreu o estudante da Unesp

Entre as repúblicas universitárias não é raro encontrar nomes que associam o consumo de álcool e de drogas à sua identidade. "Pinga Ni Mim", "Pura Pinga", e "Faculdade da Pinga" são nomes comuns entra as moradias estudantis.  

O caso de Humberto Fonseca não é o primeiro a acontecer em festas universitárias. Em 2012, dois alunos da Universidade Federal de Ouro Preto foram encontrados mortos após festas com abuso de álcool em suas repúblicas. No corpo de um deles, o índice de álcool encontrado em seu sangue era 12 vezes maior que o nível que marca embriaguez. 

Símbolo de república de estudantes Universidade Federal de São João del-Rei
Reprodução/Facebook
Símbolo de república de estudantes Universidade Federal de São João del-Rei

Um estudo norte-americano feito no Core Institute mostrou que, em média, universitários que moram em república bebem mais que o dobro do que os que não moram.

Entre os estudantes em república, a média de consumo semanal era de 12 doses para homens e de seis doses para mulheres. Os alunos que moravam sozinhos ou com os pais bebiam em média seis doses por semana, para homens, e duas doses por semana, para mulheres.

Efeitos do álcool e desconhecimento

"O que mais chama a atenção é a falta de informação desses jovens universitários sobre a toxicidade do álcool. Eles acham que coisas como essa são uma fatalidade e não acontecem", alerta Zila Sanchez, pesquisadora do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas, da Unifesp.

A presença de mulheres entre os competidores de um jogo de beber é chocante para a pesquisadora --entre os estudantes que continuam internados, há duas universitárias. "As mulheres, pela constituição do corpo, têm tolerância ao álcool 30% menor que os homens, em média. Isso comparando um homem e uma mulher de tamanho médio, ou seja, um homem médio (1,70m) com uma mulher média (1,60m). Elas têm que saber que não podem competir dessa maneira com homens."

Vender ou dar bebida para alguém que já está embriagado é algo criminoso, mas não discutimos isso no País"

A pesquisadora destaca ainda que o consumo abusivo de álcool tem outras consequências problemáticas, como sexo sem camisinha, violência sexual e acidentes em decorrência da embriaguez. Casos de violência que envolvem uso de álcool são alvo de uma CPI em São Paulo sobre trotes

+ "Acordei com ele me penetrando por trás", diz vítima de estupro na USP

Universidade coloca problema para fora do campus

Apesar da frequência de problemas relacionados ao álcool entre a população universitária, as instituições têm pouca ação entre seus estudantes e, em geral, tomam medidas de proibição de venda e consumo de bebidas alcoólicas apenas dentro do campus. 

"As universidades colocam o problema para fora do campus, mas não adianta apenas fingir que o problema não existe, que as festas não acontecem fora da faculdade", aponta Zila. 

  • 4 doses

    é suficiente para mulher estar embriagada

  • 5 doses

    é o nível para que um homem esteja intoxicado

Assim trotes e jogos de beber envolvendo álcool continuam a acontecer fora das dependências das universidades sem que haja controle sobre isso. 

No caso do estudante da Unesp morto nesse fim de semana, a universidade estadual lamentou a morte, decretou luto oficial por três dias e adiou as provas. Agora, o Departamento Jurídico da universidade analisa se há medidas a serem tomadas contra quem organizou ou participou da festa.

Cultura do excesso deve ser combatida

A prática de jogos de beber não é um problema apenas das universidades. A pesquisadora da Unifesp estuda o comportamento de jovens que frequentam festas e diz que o consumo abusivo do álcool como parte de competição é frequente. 

Para combater a cultura de permissividade em relação ao álcool são necessárias políticas públicas como a proibição da venda de bebidas alcoólicas para quem já está bêbado e a proibição de festas 'open bar', aponta.

"Vender ou dar bebida para alguém que já está intoxicado [embriagado] é algo criminoso, mas não discutimos isso no País. E pior, a maior parte dessas festas universitárias são financiadas por marcas de bebida. Qual é o interesse, então, de realmente combater esse problema?", questiona Zila. 

Professora da Unesp de Botucatu, Florence afirma que é preciso um trabalho de conscientização dos estudantes ao lado da criação de políticas públicas. 

Cenário
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Ensinar a beber com consciência

Para Florence, é preciso criar programas de educação que não sejam apenas para a abstinência. "Tem um grupo de jovens que quer beber e não sabe seus limites, não conhece o álcool. Não adianta falar para ele não beber, você tem que ensiná-lo a beber."

Os estudantes devem evitar o consumo de destilados, se alimentar bem antes e durante a ingestão de álcool e intercalar bebidas alcoólicas com o consumo de água. "São medidas que atenuam o efeito tóxico do álcool no corpo", indica.

Veja trotes e casos de violência dentro da universidade:

Cartaz em apoio a aluna vítima de tentativa de estupro na Poli-USP (9.10.2013). Foto: ReproduçãoDepois de se sujaram com ovos, tinta, farinha e café, os calouros tiveram de rodar até ficar tontos na UnB (14.07.10). Foto: Luana Lleras/UnB Agência/DivulgaçãoEstudantes lambem linguiça com leite condensado durante trote do curso de agronomia da Universidade de Brasília (31,01.2011). Foto: Agência UnBImagem onde caloura pintada de preto aparece acorrentada junto a uma placa "caloura Chica da Silva". Foto: ReproduçãoTodos os calouros tiveram de entrar juntos na piscina de lama, vegetais, legumes e lixo (14.07.2010). Foto: Luana Lleras/UnB Agência/DivulgaçãoCalouros tiveram de andar em fila indiana, com as mãos entrelaçadas entre as pernas uns dos outros, o chamado elefantinho (14.07.2010). Foto: Luana Lleras/UnB Agência/DivulgaçãoOs estudantes de agronomia tiveram de procurar sabonetes em uma piscina de lama. Foto: Luana Lleras/UnB Agência/DivulgaçãoCalouros escorregam em poça d'água no meio do corredor do principal prédio da universidade. Foto: DivulgaçãoTrote Unb. Foto: DivulgaçãoImagens de trote no ano passado foram anexadas à denúncia à universidade. Foto: ReproduçãoCaloura é pintada por veteranos em trote da Poli na USP. Foto: Amana Salles/Foto ArenaAmarrados, calouros são conduzidos para uma festa no gramado da faculdade. Pais acompanham e fotografam tudo. Foto: Amana Salles/Foto ArenaHomero Santiago Maciel, 19 anos, recebe banho na lama, durante o trote da Faculdade Politécnica da USP. Foto: Amana Salles/Foto ArenaBeatriz Castro, de 18 anos, recebeu trote com tinta, farinha e leite condensado: "Ainda não caiu minha ficha de que passei na Poli". Foto: Amana Salles/Foto ArenaBrincadeira com fezes e urina teria sido realizada perto do campus da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). Foto: ReproduçãoFrente Feminista denuncia atos obscenos durante trote na USP São Carlos. Foto: Frente Feminista USP



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