"Veteranos ameaçaram urinar em mim", diz aluna da medicina da PUC

Por David Shalom - iG São Paulo | - Atualizada às

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Oito depuseram acerca de unidade de Sorocaba na CPI sobre violações de direitos humanos em faculdades de São Paulo

A.C.A. ainda não se conforma com os abusos que presenciou em seu primeiro ano de faculdade. Muito menos com aqueles que sentiu na pele no período em que foi caloura da unidade de Sorocaba da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica (PUC), em 2013. Não só pela gravidade da situação, mas também porque colegas do centro acadêmico não a deixaram esquecer tudo o que aconteceu. 

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Vítimas pediram para não serem identificadas enquanto prestavam depoimento em São Paulo
David Shalom/iG São Paulo
Vítimas pediram para não serem identificadas enquanto prestavam depoimento em São Paulo



Aluna do terceiro ano, A.C.A. foi uma entre os oito estudantes que compareceram para depôr na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga violações de direitos humanos nas faculdades paulistas, nesta quinta-feira (29), na Assembléia Legislativa de São Paulo. E garantiu: apesar de já ser uma veterana, até hoje sofre ameaça dos adeptos aos trotes na instituição.

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"Em 2014, fui impedida de participar de uma festa no centro acadêmico. Fiquei uma hora e meia na porta tentando convencer os responsáveis a me deixarem entrar. E sofri ameaças ao longo de todo esse tempo", disse a estudante, que faz parte do Grupo de Apoio ao Primeiranista (Gap), responsável pela elaboração de um documento denunciando abusos que foi entregue à reitoria da universidade e à CPI.  "Ameaçaram urinar em mim só pela minha defesa aos calouros."

Criado há dois anos, o grupo reuniu 48 calouros ao longo de um ano para debater violações na unidade de Sorocaba, cidade interiorana localizada a 100 quilômetros da capital paulista. Ao final de 2013, o Gap entregou um relatório de mais de 30 páginas com as principais denúncias à reitoria. 

Entre os destaques do documento figuram a obrigatoriedade de usar camisetas do kit-calouros – sempre em tamanho extra-grande, inclusive para mulheres –, comprados no início do ano letivo; a proibição do uso de elevadore; a obrigatoriedade de usar cabelos presos; de fazer com que calouros comam alho, pimenta, cebola – e, em algumas ocasiões, fezes –; além do impedimento de frequentarem festas, o centro acadêmico e promover agresses verbais, físicas e perseguições contra aqueles que não apoiam as "tradições trotistas". 

Veja fotos das sessões da CPI desta semana:

trote CPI. Foto: Último SegundoDeputado Adriano Diogo, presidente da CPI que investiga quebra de direitos humanos em faculdades paulistas, e o presidente da Atlética da Medicina da USP, Diego Pestana. Foto: David Shalom/iG São PauloAo centro deputado Adriano Diogo, presidente da comissão de direitos humanos da Alesp, ao lado de Diego (à esquerda) e Rafael Silva, tesoureiro AAAOC em 2011. Foto: David Shalom/iG São PauloRafael Silva, presidente da Atlética da Medicina USP, depõe na CPI. Foto: David Shalom/iG São PauloImagem do Facebook sobre o trote. Foto: David Shalom/iG São PauloDeputado Adriano Diogo chegou a perder a paciência durante sessão. Foto: David Shalom/iG São PauloDeputado Adriano Diogo (PT). Foto: David Shalom/iG São PauloDiego, de 23 anos, tesoureiro da faculdade e a deputada Sara Munhoz. Foto: David Shalom/iG São PauloO deputado Adriano Diogo, presidente da CPI, e Diego Pestana, presidente da Atlética da Faculdade de Medicina da USP. Foto: David Shalom/iG São Paulo

Recebido pela reitoria, o documento levou a algumas mudanças no cotidiano da faculdade, segundo os depoentes. Mas de forma velada, ou seja, os abusos seguem sendo praticados na PUC-Sorocaba – às vezes até com o apoio de professores, denunciaram os alunos.

"A unidade de Sorocaba em relação ao trote é das piores do Estado", avaliou o professor da Universidade de São Paulo (USP) Antônio Ribeiro de Almeida, estudioso do tema. "As práticas são de uma violência e de uma agressividade que levam a instituição a necessitar passar por medidas saneadoras urgentes. É uma ameaça constante à integridade física, moral e psicológica desses alunos."

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Convidado para depor na CPI, o vice-reitor da PUC, José Eduardo Martinez, afirmou que a universidade acatou todas as denúncias recebidas, se comprometendo a analisar os casos para que medidas possam ser tomadas. "Somos contra a violência, até porque somos todos médicos. E prestamos todo o apoio possível ao trabalho do Gap", pontuou. 

Em 2013, a PUC-SP abriu 17 sindicâncias para apurar denúncias, que levaram à expulsão de dois alunos. No ano passado, foram 12, cujo resultado foi a advertência de outros dois estudantes, de acordo com a assessora jurídica da universidade, Andréa de Melo Vegam.

Gata borralheira
Natural de Porto Velho (RO), A.C.A se mudou para Sorocaba em 2014, com apartamento já alugado pela família para viver na cidade. Entretanto, a então jovem de 18 anos, recém-saída da adolescência e vinda de um Estado distante, tinha vontade de se enturmar. E não pensou duas vezes quando foi convidada por veteranas para morar provisoriamente na república da atlética – a universidade permitia moradia gratuita por três meses a calouros.

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Mas a experiência não passou de duas semanas. Diariamente intimidada, xingada, humilhada, a estudante era obrigada pelas colegas a fazer não só as tarefas domésticas, mas a preparar trabalhos de faculdade para elas, que a convenciam da prática por meio de ameaças.

"Era um clima diário de opressão. Virei a serviçal das meninas. Como tinha medo de ser punida, acabava cumprindo as ordens", contou A.C.A. "Infelizmente, na época, acabei encarando tudo aquilo como normal. Só quando decidi sair da república vi como a situação era péssima, o quão desconfortável me sentia com tudo aquilo."

Representante do grupo dos oito depoentes, a estudante C.A.F. afirmou que veteranas também usavam como prática de humilhação o preparo de calouras para festas. Assim, não as deixavam se arrumar, deixar os cabelos soltos, usar maquiagem. Mais: quem se opusesse a usar xingamentos como "puta" para nomear novos alunos também se tornava vítima de estudantes mais antigos.

"Sempre havia retaliação, das mais diversas formas", contou ela, emocionada em diversos momentos do relato. "Quem não participava dos trotes levava 'copada', que era ser atingido com copo de cerveja, levava tapa, era xingado. Vi amigos sofrendo, chorando em desespero em festas", afirmou A.O.C., outro estudante de medicina. "Cheguei a pensar em sair da faculdade."

Por temor de retaliação, todos os alunos que prestaram depoimento nesta quinta-feira pediram para não terem suas identidades divulgadas.

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