Aluna que perdeu cabelos processa USP Leste por contaminação

Por Cristiane Capuchinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Estudante do curso de Gestão Ambiental diz ter desenvolvido alergia a ascarel, um dos contaminantes do terreno do campus

Após perder a sobrancelha, Rosângela teve de fazer a micropigmentação da pele melhorar sua autoestima
Acervo pessoal

Há seis anos Rosângela Toni, de 57 anos, convive com erupções, feridas e coceira por todo o corpo. Em 2013, começou a perder cabelos e pelos. Hoje Rosângela não tem mais sobrancelhas e tem uma falha de 40% de seu cabelo. 

Aluna do curso de Gestão Ambiental da USP Leste, a estudante tenta agora na Justiça garantir seu tratamento médico em uma ação contra a universidade por tê-la exposto a contaminantes químicos causadores de seus problemas.

"Eu tenho um problema chamado atopia de pele, que torna minha pele mais sensível. As crises começaram quando eu passei a frequentar o campus, tinha muita coceira e feridas", conta. A suspeita é que ela tenha desenvolvido uma reação alérgica a um dos contaminantes da terra depositada ilegalmente na EACH, o óleo ascarel-PCB. A reação ao ascarel é a hipótese levantada também no relatório médico do Hospital das Clínicas. 

Até a década de 1980, o ascarel era usado em equipamentos elétricos industriais, como transformadores. Por ser danoso à saúde e considerado cancerígeno, o óleo foi proibido. No entanto, é um dos contaminantes do terreno depositado no campus da USP Leste e investigado pelo Ministério Público. 

Relatório de evolução Clínica de Rosângela Toni
Arquivo pessoal
Relatório de evolução Clínica de Rosângela Toni

A ação da Defensoria Pública pede também uma indenização por danos materiais, morais e estéticos no valor de R$ 100 mil. "Pedimos uma indenização porque todo esse processo causou um impacto na vida dela. O sonho universitário virou um pesadelo", explica o defensor público Rafael Menezes. 

Rosângela perdeu as sobrancelhas após um processo alérgico
Acervo pessoal

Rosângela conta que a perda das sobrancelhas mexeu com sua autoestima. "Eu tinha vergonha de sair na rua, de que as pessoas me olhassem. A gente acaba ficando discriminada." 

Outro problema que tem de enfrentar é a desconcentração durante as aulas, sintoma dos antialérgicos que tem de tomar nos dias em que frequenta o campus da EACH. "Ontem fui lá e já voltei coçando."

Rosangela não desistiu de frequentar a universidade, mas acaba de mudar de curso para Têxtil e Moda. "Não tenho mais condições de frequentar um curso de gestão ambiental em um campus contaminado. Um lugar em que não se respeitam as regras que se ensinam", diz.

Apesar de tudo, ela considera a USP uma ótima instituição: "o problema foi a gestão desastrosa." 

Terra contaminada

Com atividades desde 2005, o campus da USP Leste, em Ermelino Matarazzo, tem um histórico de problemas em seu terreno. Criado em uma área de várzea do rio Tietê, o terreno estava contaminado com material orgânico, o que produzia, entre outras coisas, o gás inflamável metano.

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Na época, a Cetesb fez exigências para a universidade de despoluição do solo e controle do gás. 

Entre 2010 e 2011, um aterro foi feito na área da universidade com terra de origem desconhecida. O material estaria contaminado por metais pesados e outros contaminantes, como o ascarel. 

Em 2013, a USP foi autuada por não ter cumprido essas exigências e uma parte do campus é interditada por "conter contaminantes com risco à saúde".

No fim de 2013 o campus foi interditado por ter bebedouros com água imprópria para consumo, além de uma epidemia de piolhos e ácaros de pombos nas salas de aula e laboratórios. 

Em janeiro do ano passado, a Justiça decidiu fechar o campus da USP Leste por causa da presença de gás metano no terreno com risco de incêndio. A unidade só voltou a ter aulas em agosto de 2014 após a USP tomar algumas medidas de segurança.

Desde então, o sistema de ventilação do gás metano está em funcionamento e é feito o controle diário de concentração do gás. E a área em que a terra sem certificação está concentrada foi isolada com tapumes. 

"Não basta isolar a área. Todos que estamos aqui já fomos expostos aos contaminantes. Eu mesmo frequento o campus há dez anos", afirma o professor Alberto Tufaile, de 47 anos, que diz também processar a universidade pela exposição a um ambiente de risco.

Segundo a EACH, cerca de 7.000 pessoas passam diariamente pelo campus da unidade. 

Outro lado 

Em nota, a  USP afirma que foi procurada pela alunas apenas no dia 21 de fevereiro de 2014 e que colocou o Hospital Universitário à disposição da aluna e que não tem registro de que a aluna tenha comparecido ao hospital.

Segundo Rosângela, a unidade é muito distante de sua casa, na periferia de Guarulhos. 

A EACH afirma ainda que professores, alunos e funcionários da EACH têm acompanhado todas as ações realizadas no campus USP Leste em relação às questões ambientais.

Sobre a terra não certificada depositada no campus, a USP afirma que há um edital aberto para contratar um serviço de investigação ambiental detalhado e avaliação de riscos toxicológicos. A partir desses estudos, a Cetesb irá determinar o que ainda deve ser feito.

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