"Fui envenenado por me recusar a participar dos trotes", diz aluno da Esalq-USP

Por Ana Flávia Oliveira - iG São Paulo | - Atualizada às

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Felipe Yarid ingressou em Agronomia em 2007 e ainda não se formou; envenenamento o afastou do campus por um ano

Felipe Yarid (esq) diz ter sido envenenado por não aceitar trotes
Ana Flávia Oliveira/iG São Paulo
Felipe Yarid (esq) diz ter sido envenenado por não aceitar trotes

Filho de pecuarista, Felipe José Dommarco Yarid, de 34 anos, decidiu estudar agronomia após a morte do pai e do avô terem o transformado no administrador da fazenda da família. Em 2007, ele começou o curso da Esalq-USP em Piracicaba, interior de São Paulo.

No primeiro dia de aula, Yarid já entendeu o quanto a vida seria difícil por ali. No campus, para se apresentarem, os estudantes novatos são obrigados a ficar de joelhos aos pés de um veterano. Durante a prática, os novatos têm de elogiar o veterano e falar mal de si próprio.

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Desconhecendo a prática, ele diz que se ajoelhou e disse apenas o nome. “O estudante era bem grande. Quando não disse o que ele queria ouvir, me deu um tapa na nuca. Eu levantei e dei um empurrão nele. Fui expulso da festa e fiquei marcado”, contou ele, nesta quarta (14) em depoimento ao deputado estadual Adriano Diogo, presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que investiga trotes violentos nas universidades de São Paulo.

Em outra ocasião, Yarid chegou a ser encurralado por quatro estudantes mais antigos, mas mais uma vez reagiu. “Peguei um pedaço de pau e uma pedra e os chamei para briga. Mas eles foram embora. Como viram que não dava para me domesticar, mudaram o método e passaram a me envenenar com uma substância chamada inibidor de colinesterase”.

A partir daí, o estudante passou a ser vítima de ataques com inseticidas atirados com pipetas. “O veneno penetra na pele, passando até pela roupa. Eu sentia enjôo, tontura, paralisia dos membros. O desempenho atlético diminui para mais da metade. Parecia que eu tinha trabalhado o dia inteiro com a enxada”, diz.  

Suspensão

Os ataques aconteciam até mesmo nas salas de aula e, em uma dessas ocasiões, Yarid agrediu o estudante que havia atirado o líquido sobre ele. Por causa disso, foi suspenso das aulas por uma semana e respondeu um processo por agressão.

Para provar que estava sendo envenenado, Yarid fez um exame toxicológico na Unicamp, em Campinas. O exame deu positivo para envenenamento.

O Ministério Público chegou a abrir uma investigação em 2009 para apurar o caso, e segundo o estudante, foi arquivada no ano seguinte. “Fui envenenado porque sou uma ameaça ao modo de vida deles. Naquele primeiro dia, ajoelhei porque achei que era brincadeira e não domesticação”, disse.

Atualmente, oito anos após o início do curso, Yarid continua na Esalq – teve de trancar o curso por um ano por conta das consequências do envenenamento. "Espero que meus filhos estudem um dia na Esalq e que até lá isso não mais aconteça."

Veja os casos relatados aos deputados:

Bianca Bianca Cestaro de Almeida, de 27 anos, diz ter sido estuprada em dormitório de Pirassununga da Faculdade de Veterinária da USP (14.01.15). Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloEstudante contou aos deputados que acordou com o agressor a penetrando por trás (14.01.15). Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloLuiz Fernando Alves, de 22 anos, foi vítima de trote violento na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto e diz que tentou se matar (13.01.15). Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloDenúncias atingiram também a Esalq, da USP. Foto: DivulgaçãoFelipe Yarid (esq) diz ter sido envenenado por não aceitar trotes na Esalq (14.01.15). Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloAlunos são obrigados a ingerir fezes e vômito em trotes da faculdade de medicina da Puc, em Sorocaba, interior de SP. Relato foi feito por estudante à CPI via Skype (14.01.15). Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloAlunos são obrigados a ingerir fezes e vômito em trotes da faculdade de medicina da Puc, em Sorocaba, interior de SP. Foto: DivulgaçãoDeputados ouvem relatos de estudantes vítimas de trotes violentos e abusos em universidades. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloAlunos de medicina da USP denunciaram abusos à Comissão dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de SP. Foto: AlespDenúncias de estudantes de medicina da USP motivaram investigações Praça do Relógio na Cidade Universitária da USP (arquivo). Foto: divulgação/UspAlunas que criaram coletivo para lutar contra machismo dizem que são hostilizadas. Foto: BBC








CPI do trote 

A CPI foi instaurada em dezembro do ano passado e, na audiência desta quarta (14), ouviu seis estudantes. Ao todo, a CPI já ouviu 27 alunos. Na tarde desta quinta (15), os deputados tomarão o depoimento de José Otavio Costa Auler Junior, diretor da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e Edmund Chada Baracat, presidente da Comissão de Graduação da Faculdade de Medicina da USP.  Denúncias feitas por estudantes da FMUSP motivaram a abertura da CPI.

A comissão tem até o dia 15 de março – quando termina a atual legislatura e os congressistas eleitos tomam posse – para encerrar as investigações. Adriano Diogo diz que o tempo é insuficiente e pede para que os eleitos não deixem de continuar as investigações. Diogo não foi reeleito para a próxima legislatura.

“As conclusões que estamos tendo são tristes e dolorosas. Eles estão falando com coragem e discernimento. Mas eu tenho a filosofia de que estou fazendo a minha parte para trazer a público o que acontece. Mas a mudança é em longo prazo e não dá para terminar as investigações até o dia 15 de março. Isso é só o índice”, disse o deputado.

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