Aluna diz que teve visto de intercâmbio para Inglaterra negado por ser boliviana

Por Ana Flávia Oliveira (iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Estudante foi única a não conseguir visto entre 60 alunos que conquistaram a vaga em seleção feita pela rede estadual de SP

Arquivo pessoal
Estudante diz que será prejudicada profissionalmente

No final do mês de abril deste ano, quando recebeu a notícia de que tinha sido aprovada em uma seleção para passar 20 dias estudando inglês na cidade de Canterbury, no sudoeste da Inglaterra, com tudo pago pelo governo do Estado de São Paulo, a estudante boliviana Maday Dodamin Vallejos, 15 anos, ficou eufórica. Mas em poucos meses, a euforia deu lugar à decepção e ao desespero. Isso porque, entre os 60 estudantes do todo Estado selecionados para o intercâmbio no país, Maday foi a única que teve o visto negado pelo consulado britânico. A família ainda não foi informada oficialmente do motivo, mas desconfia que o fato de ela ser boliviana tenha contribuído para que não fosse aceita em solo britânico. O consulado britânico afirma que negou o visto porque não foram entregues “documentos obrigatórios no processo consular”.

“Eu ganhei a vaga, estava tudo pronto para a viagem. Do nada, eles falam que não vou. Sei que tem um problema entre a Bolívia e a Inglaterra”, diz a estudante, que sonha em se aprofundar no estudo de idiomas profissionalmente e diz que o intercâmbio já iria turbinar o currículo.

Leia mais: 

Documentário mostra como vive a segunda geração de bolivianos em São Paulo
Novos imigrantes ocupam cidades do interior de São Paulo
Governo de SP vai pagar intercâmbio internacional para alunos de línguas
Alunos de federais não receberão visto dos EUA para intercâmbio no verão

Além de Maday, o Prêmio Intercâmbio Internacional da Educação selecionou 218 estudantes matriculados em Centros de Estudo de Línguas (CEL) em todo Estado para estudarem em países europeus, como Inglaterra, França e Espanha. As provas de seleção foram aplicadas em abril e o embarque dos estudantes aconteceu na última sexta-feira (28).

Maday chegou ao Brasil quando tinha seis anos, com a mãe, a costureira Deonilda Montano de Vallejos, 40 anos, e o pai, o pedreiro Seferino Vallejos, que tem 42 anos. Assim, como muitos imigrantes que cruzam a fronteira entre os dois países, eles vieram atrás de emprego e melhores condições para cuidar da filha. 

A costureira Deonilda diz que os documentos solicitados pela agencia de Turismo Terramar, contratada para intermediar a viagem, foram entregues dentro do prazo e não vê outro motivo para negativa do visto, além da nacionalidade da estudante, que não tem cidadania brasileira. 

“Pedimos o visto no dia 23 de outubro. Todos os documentos que a Terramar solicitou, a gente reuniu e entregou. Fomos neste dia no Consulado com a funcionária da agência de turismo, que ia reunir os documentos que faltavam”, afirma Deonilda. De acordo com email enviado à estudante pela agência de turismo, eram necessários o passaporte, duas fotos, comprovante de matrícula em uma escola brasileira, contrato de aluguel no nome dos país e cópia do RNE (Registro Nacional de Estrangeiros) da estudante, o equivalente ao RG para os brasileiros.

O diretor de Intercâmbio da Terramar, Guilherme Alves Reischl, disse que anexou aos documentos reunidos pela família da jovem uma carta de custeio, fornecido pela Secretaria Estadual da Educação, em que a pasta se coloca como patrocinadora da viagem, uma carta da escola para provar que a estudante foi matriculada na rede estadual, e uma carta de acomodação, com autorização da família londrina que iria receber Maday durante a sua estadia na cidade.

“Os documentos solicitados pelo Consulado foram entregues. Documentos como imposto de renda dos pais e extrato bancário não são necessários porque o governo do Estado quem pagou pela viagem”, afirmou.

Apesar de saber que não são necessários, Deolinda disse que ofereceu para entregar o extrato da conta bancária dela e do marido. Como são trabalhadores autônomos, essa seria uma maneira de provar a renda do casal. 

A mãe disse ainda que após a entrega dos documentos, os funcionários do consulado deram prazo de 15 dias para a resposta sobre a concessão do visto. Mas o prazo venceu e ela não foi procurada. Ela aguardou até o dia 22 de novembro, quando entrou em contato com a agência de turismo para saber se o visto da filha tinha sido concedido.

“Liguei para a agência para perguntar se tinha resposta e eles disseram que não. Pedi para eles insistirem com o consulado porque queria saber o resultado e a viagem estava próxima”, disse Deolinda, que no mesmo dia recebeu uma ligação da diretora da escola dando a má notícia – o visto para estudante fora negado. 

Deolinda diz que sente pela filha, que foi talvez tenha sido descriminada por causa da nacionalidade. “É muito triste. A gente tem condições humildes, não teríamos condições de pagar estudo para ela fora do País. A minha menina estuda muito, é esforçada. Acertou todas as questões da prova (para admissão no programa), fez uma redação excelente. Para gente, é uma frustação. Não sei se é descriminação”.

A estudante ainda não recebeu o posicionamento oficial do consulado, que não é obrigado a informar por qual motivo o visto foi negado. Por meio de nota, o Consulado Britânico informou ao iG que os 59 brasileiros selecionados pelo programa para estudar na Inglaterra não precisam de visto. A aluna estrangeira, diz a nota, teve “a autorização negada, devido a falta de documentos obrigatórios no processo consular. A estudante foi notificada do documento faltante e, portanto, deve dar nova entrada no processo”. A nota não especifica, porém, quais documento não foram entregues. 

A resposta do consulado, informada a estudante pela reportagem, frustra ainda mais a família. “Eles demoraram para dar a resposta. Eles sabiam qual era a data da viagem. Avisaram tarde e a gente não tem mais tempo de reapresentar os documentos”, reclama a costureira.

Procurada, a Secretaria Estadual da Educação não se pronunciou sobre o assunto até o fechamento desta reportagem.

Programa

O Prêmio Intercâmbio Internacional da Educação está em sua segunda edição. Ele oferece a oportunidade de estudar idiomas em países parceiros. No final do mês passado, 219 estudantes de Centros de Estudo de Línguas embarcaram para Espanha, França ou Inglaterra. Os jovens ficarão 20 dias no país escolhido, onde participam de curso intensivo e passeios culturais. As despesas com o curso, passagens, trâmite para a emissão de documentação, acomodação e refeição serão pagos pela Secretaria da Educação.

De acordo com a Secretaria da Educação, nesta edição, 5 mil jovens se inscreveram. Para participar, os alunos fazem uma prova de conhecimento especifico do idioma escolhido, devem ter frequência mínima de 75% nas aulas do CEL e média igual ou superior a sete em língua inglesa nos quatro bimestres do curso de Ensino Médio no ano letivo anterior ao de realização da prova.

No ano passado, 356 selecionados ganharam bolsa para estudar idiomas na Argentina, Inglaterra e França.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas