Escola tem de mudar para reduzir desigualdades sociais, indica Unesco

Por Cristiane Capuchinho - iG São Paulo |

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Ensino de competências deve substituir foco do professor em conteúdo. Tecnologias em sala de aula precisam ser usadas para desafiar estudantes a criar seu método de aprendizado

"Se a escola não mudar, vamos colaborar para o aumento das desigualdades sociais", afirmou Francesc Pedró, chefe da Divisão de Políticas Educacionais da Unesco, durante a apresentação do estudo "Tecnologias para a Transformação da Educação" em São Paulo na última terça-feira (25).

O estudo, que reúne estratégias para o uso da tecnologia, aponta a qualidade da educação com equidade como o desafio dos países da América Latina para os próximos anos.

"Nos últimos 15 anos, tentamos garantir o acesso à educação. Agora precisamos pensar em como garantir o acesso com qualidade e equidade, para que a educação possa precisamente ajudar os estudantes a superar barreiras sociais", afirma Pedró. "Vemos a tecnologia como uma janela de oportunidade."

Entre os 65 países avaliados no último Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), os estudantes de países da América Latina apareceram nas últimas posições. O Brasil ficou em 55° lugar no ranking de leitura, 58° no de matemática e 59° no de ciências. O Pisa mostrou ainda que 15,7% da variação de performance entre estudantes brasileiros se deve a diferenças socioeconômicas.

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Divulgação/A2 Fotografia/Bruno Santos
Oficina de robótica para estudantes de ensino fundamental


Currículos devem focar em habilidades e não em conteúdos

Para melhorar a qualidade da educação, alguns são os eixos apontados pelo documento para transformar os projetos educacionais. Pedró destaca que há um consenso sobre a importância do desenvolvimento de habilidades e não mais do ensino de conteúdos.

"O professor deve deixar de ser aquela figura que passa conhecimentos para ser aquele que desperta curiosidades e dá problemas para que o aluno encontre soluções de maneira ativa e cooperativa”, indica.

Assim, as tecnologias devem ser usadas para a criação de um ambiente de aprendizagem que fomente o desenvolvimento de habilidades, com o acesso à internet, o uso de câmeras, telefones e outros dispositivos tecnológicos como ferramentas para a pesquisa e para a criação de produtos educacionais.

O representante da Unesco destaca que esses aparelhos e tecnologias já são usados por grande parte dos estudantes e professores da América Latina, no entanto eles ainda não foram integrados ao sistema de ensino.

"Com as tecnologias de comunicação, os estudantes resolvem exercícios de maneira cooperativa mesmo quando o professor pensou a tarefa de forma individual", comenta Pedró, ressaltando a necessidade de mudança na forma como são dadas aulas e tarefas escolares.

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Troca de experiências de professores é essencial

“A OCDE vê a inovação com um enfoque sistêmico, além da tecnologia, que passa pela inovação na gestão da escola, no modo de dar aulas, na cooperação dos professores, na pesquisa em educação, entre outras coisas”, aponta Carlos González-Sancho, analista da direção de educação da OCDE.

O analista destaca que, apesar de diversas experiências novas serem adotadas por professores de todo o mundo, há poucos dados sobre práticas inovadoras na educação, o que dificulta sua avaliação e sua multiplicação. González-Sancho afirma ainda que o trabalho cooperativo e a troca de experiências entre professores é essencial para a melhora em escala dos resultados educacionais.

“A inovação quando acontece ilhada é pouco efetiva. Para que a inovação possa se disseminar é importante criar estruturas de redes que fomentem a partilha e a troca entre professores. Colocar em contato desde logo os docentes que estão fazendo projetos inovadores é um componente essencial para dar um salto em escala.”

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