Programa do MEC que busca graduar professor sem diploma tem evasão de 52%

Por Davi Lira - iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Ao custo de R$ 530 milhões, Parfor não vai atingir meta de formar 330 mil docentes; no País, 25% ainda não tem diploma

Divulgação/UFT
Laboratório de informática usado pelos docentes do Parfor na Federal do Tocantins

Criado com o objetivo de graduar em licenciatura o docente da ativa que dá aula, mas não tem formação em nível superior, o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor) não tem conseguido alcançar as metas traçadas pelo governo federal. O índice de vagas ociosas ofertadas na modalidade presencial chega a 50% e a evasão dos professores matriculados no curso oferecido à distância é de 52%.

Implantado pelo Governo Federal em 2009, o Parfor tinha como meta diplomar 330 mil docentes em todo o País até o final deste ano. O objetivo, contudo, não será cumprido segundo fontes oficiais consultadas pelo iG. A posição global de professores diplomados pelo programa, no entanto, não foi fornecida à reportagem pelo Ministério da Educação (MEC), nem pela Fundação Capes – autarquia da pasta responsável pelo Parfor. Hoje, mais de 70 mil docentes frequentam o curso.

A pouca tradição da Capes na condução de políticas envolvendo a educação básica é apontada por especialistas como uma das possíveis causas para o quadro atual do Parfor. Segundo documento ao qual iG teve acesso, a própria Capes chegou a informar ao Tribunal de Contas da União (TCU) que possui uma "cultura organizacional ainda refratária ao trabalho com a educação básica e o ensino a distância".

No documento, emitido no dia 31 de março de 2014, a fundação ainda coloca como uma das suas fragilidades a serem superadas a "ausência de governabilidade pela Capes na política de formação de professores". No relatório – referendado pela alta cúpula –, o órgão também afirma que há "sobreposição e/ou falta de clareza das atribuições em educação entre a Capes e determinadas áreas do MEC."

Prevista como uma das ações focadas na melhoria da educação pública do País, a formação em nível superior de todos os professores de nível básico é uma das propostas colocadas pelo Plano Nacional de Educação (PNE).

Observatório do PNE: conheça a metas do Plano Nacional de Educação

Atualmente, segundo dados fornecidos pela ONG Todos pela Educação a pedido da reportagem, 25% dos professores da educação básica do Brasil não têm curso superior. No ensino médio – gargalo do País –, 51,7% dos docentes não têm formação na disciplina que lecionam. O Parfor também é direcionado a professores que atuam em uma área diferente de sua formação, além de profissionais já formados mas que não têm título de licenciatura.

Veja também:
51,7% dos docentes do ensino médio não têm formação na aéra que atuam

Tendo como os principais beneficiários os professores das redes municipais, o programa já consumiu, entre 2009 e 2013, cerca de R$ 530 milhões de recursos públicos, segundo dados da própria Capes, presentes em relatório divulgado em 18 de setembro deste ano.

+ Acompanhe mais notícias no canal iG Educação
+ Siga o iG Educação pelo Twitter
+ Fique por dentro de outras notícias pelo facebook do InfoEscola

Evasão

Enquanto a oferta na modalidade presencial tem tido atração abaixo do esperado junto ao público-alvo do programa, a modalidade a distância é ainda mais preocupante. Segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, dos cerca de 18.310 professores que se matricularam no Parfor à distância até novembro do ano passado, 9.610 (52%) resolveram desistir do curso. O índice é semelhante à posição de 2012, quando 51% dos 17.611 matriculados evadiram.

Divulgação/UniBH
Para Claudio de Moura Castro, ex-diretor da Capes, evasão no Parfor a distância é alta

"São índices bem altos para um programa que é focado no professores, que já têm uma disciplina maior para os estudos", avalia o especialista em educação Claudio de Moura Castro, ex-diretor da Capes.

De acordo com Stavros Xanthopoyloso, diretor executivo do FGV Online – referência no Brasil – a evasão é alta para um curso "direcionado". "Nos nossos cursos de pós-graduação a distância, a evasão fica em torno de 11%", diz.

Razões

A baixa atratividade da carreira docente, a desarticulação dos entes federados (União, Estados e Municípios) e dificuldades no início do programa com a inscrição na Plataforma Freire – ambiente virtual de cadastramento – estão entre algumas das causas que também podem justificar o alto número de evasão e a baixa procura, segundo apurou a reportagem. 

Leia também:
Professor brasileiro é um dos que mais trabalham, afirma relatório da OCDE
No Brasil, salário de professor é metade do que recebem outros profissionais
1 em cada 4 professores de escolas públicas brasileiras é temporário, diz Ipea

"O professor já está assoberbado de carga horária. No entanto, sabemos da dificuldade das secretarias de educação em reduzirem a carga horária dos docentes, para que eles possam se dedicar ao curso. É complicada a vida do professor", diz Henrique Pequeno, coordenador-adjunto da Universidade Aberta do Brasil (UAB) na Universidade Federal do Ceará. É a UAB que disponibiliza o curso a distância.

Para buscar resolver esse impasse, especialistas sugerem um maior entendimento entre governo federal e os estados e municípios, para que a liberação dos professores ocorra de forma mais efetiva.

Ainda segundo Pequeno, a estrutura dos polos dos cursos também deve ser melhorada. "A estrutura de internet deve ser melhor e os laboratórios precisam ser mais bem equipados. Mesmo tendo bons polos, sabemos que há muito o que fazer em outros espaços espalhado por todo o País", diz o representante da UFC, defensor do programa.

Reprodução/TV Univesp
Ocimar Alavarse da USP diz que 'é preciso mais atenção na organização dos cursos'

O "choque" dos alunos-professores que voltam para a "escola" depois de anos afastados de cursos do gênero é outro fator que tende a impactar os índices de evasão. "Você está formando alguém que já trabalha. Isso exige mais atenção para a organização dos cursos. É preciso ter um acompanhamento mais de perto", pontua Ocimar Alavarse, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

Há críticas de que parte do conteúdo e abordagem de cursos de formação de professores, como o Parfor, não reflitam a realidade vivida na sala de aula dos docentes participantes, o que faria com que os docentes não enxergassem uma função prática que poderia ser aplicada em suas atividades pedagógicas.

Já a posição do presidente do Instituto Alfa e Beto (IAB), João Batista Oliveira, chega a ser mais crítica. Segundo ele, o Parfor “é mais um puxadinho". "O fato é que não temos um modelo de formação de professores que leve os docentes a saírem dos cursos sabendo o quê, e como vão ensinar. Com ou sem diploma, os professores não estão dominando os conteúdos. Precisamos mudar os critérios de formação e recrutamento dos docentes", defende Oliveira.

EBC
MEC e Capes optaram por não se posicionarem diante dos dados do texto

Outro lado

Procurado pela reportagem, o MEC optou por não se posicionar sobre os pontos levantados pelo texto. Todas as questões foram apresentadas à pasta, mas o ministério informou que não vai se manifestar sobre o caso.

A respeito da meta de formar 330 mil docentes até 2014, o Serviço de Informação ao Cidadão da Capes – que forneceu os dados de evasão – disse apenas que "ao longo do processo de implementação do Parfor, essa meta vem sendo revisada ano a ano para adequar-se às necessidades das redes estaduais e municipais de educação".

Leia tudo sobre: formação de professorparformeccapeseadeducação básica

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas