Cerca de 6 mil crianças estão nessa situação; demanda cresce a cada ano por conta da necessidade de trabalho das famílias

Diante de toda a quantidade de estudantes brasileiros, as 6 mil crianças matriculadas em turmas noturnas de creches e pré-escolas são um contingente pequeno. Porém, ao contrário de todas as outras etapas de ensino, que perdem alunos a cada ano, a educação infantil noturna – ainda polêmica – cresce. Nos últimos cinco anos, as matrículas aumentaram 44,5%.

Em 2008, havia 4.125 crianças matriculadas em turmas da educação infantil oferecidas no turno da noite. Desse total, 2.909 estavam nas creches e 1.216, na pré-escola. Até 2013, os números oscilaram um pouco, com registro de queda nas matrículas em alguns anos, mas o ano passado terminou com 5.960 crianças atendidas: 3.816 nas creches e 2.144, na pré-escola.

A evolução no crescimento das matrículas no turno da noite pode ser melhor acompanhada por meio da visualização do gráfico:

Gestores ouvidos pelo iG Educação admitem que esse crescimento é quase inevitável. As necessidades de trabalho de pais e mães em muitos municípios – com turnos diferenciados – exigem que algo seja feito para auxiliá-los no cuidado das crianças enquanto trabalham. Atender a essas famílias, eles dizem, é essencial. Mas discordam, porém, sobre quem paga a conta.

Crianças são atendidas por creche noturna na favela de Paraisópolis, em São Paulo
iG São Paulo
Crianças são atendidas por creche noturna na favela de Paraisópolis, em São Paulo

Para muitos, as empresas deveriam criar espaços em que os pais pudessem deixar os filhos enquanto trabalham. Outros acreditam que parcerias entre municípios e empresários poderiam solucionar o problema ou talvez as áreas assistenciais dos governos devessem assumir a solução, já que o desconforto é com a educação financiar esse atendimento.

“Não é um movimento positivo, porque isso é assistência, não educação. Estamos abrindo creches para as crianças dormirem. Usar investimento da educação para que as crianças durmam é altamente questionável. E elas não devem ser submetidas a atividades à noite, porque não é o recomendado para a idade delas”, resume a presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Cleuza Repulho.

Cenário:
Creche noturna de SP é gratuita e fica em Paraisópolis
Na Suécia, creche noturna é alternativa
Demanda por creche 24 horas aumenta nos EUA

Educadores resistem em apoiar turmas de educação infantil à noite, porque temem prejudicar o aprendizado e o desenvolvimento das crianças. A saída encontrada pelas redes municipais (responsáveis por essa etapa educacional), em geral, é criar horários alternativos de modo que as aulas propriamente ditas sejam dadas durante o dia. No resto do tempo, é apenas cuidado.

Parceria e cuidado

Em Presidente Getúlio, município de Santa Catarina, havia 455 crianças pequenas matriculadas no turno da noite em 2013, segundo o Censo Escolar. Desde 2006, centros de educação infantil atendem os estudantes em horários alternativos por pedidos de uma grande malharia e um frigorífico. Morgana Cristina Becker, diretora de ensino da secretaria de educação do município, conta que há estagiárias contratadas para cuidar das crianças fora do horário de aulas.

Na Suécia, país modelo para educação infantil, equipamentos atendem filhos de quem trabalha em horários fora do convencional
BBC
Na Suécia, país modelo para educação infantil, equipamentos atendem filhos de quem trabalha em horários fora do convencional

“Esse é nosso ano com menos crianças matriculadas, mas já tivemos muitas. Uma pedagoga supervisiona tudo, mas são estagiárias que ficam com elas. Não tem atividades pedagógicas depois das 18h, é só cuidado”, garante. De acordo com Morgana, a maioria desses alunos chega por volta das 13h ou 14h e as últimas saem da escola por volta das 22h.

São recursos próprios do município que pagam a conta. As empresas auxiliam. Aos sábados, por exemplo, elas pedem para que o espaço seja aberto, financiam refeições e pagam monitores para cuidar dos filhos dos funcionários que ficam por lá. Elas também mobiliaram creches que foram construídas para ajudar os municípios. “Não temos como deixar de atendê-los. As famílias precisam”, diz.

Demanda alta, pouca ajuda

Há 15 anos, a rede municipal de Pomerode, também em Santa Catarina, começou a oferecer atendimento em centros de educação infantil no noturno. Em geral, segundo a secretária municipal de educação, Joana Wachholz, essa oferta é feita em escolas mais próximas a grandes empresas, que têm variados turnos de trabalho para os funcionários.

Ao todo, dos sete centros de educação infantil do município, três têm horários estendidos (de 4h30 a 23h45). “A demanda vem crescendo por causa do desenvolvimento do município”, diz. Algumas crianças chegam às 4h30 e ficam até as 14h30. Outras entram às 7h e só saem às 17h30. Outro grupo chega às 14h30 e permanece na escola até as 23h30.

“Só fazemos o atendimento quando a necessidade é realmente comprovada, porque, além do aspecto educacional, é um atendimento muito assistencial, que precisa de parcerias e financiamento de outras áreas, mas hoje são arcados completamente pela educação”, comenta a secretaria.

Em 2013, cerca de 180 eram atendidas em horário estendido. A rede municipal atende 1.131 crianças em creches e pré-escolas no total. Mas a demanda é bem maior. De acordo com a secretária, há uma lista de espera oficial de, aproximadamente, 140 crianças e uma “extraoficial” de 200, que nem deixam o nome na lista.

“Nosso maior problema é financeiro, pois os gastos com folha de pagamento são bastante altos”, afirma. Em Pomerode, poucas empresas colaboram com o município. Algumas enviam recursos diretamente para as escolas. Joana defende mudanças no financiamento desse serviço. Para ela, as áreas assistenciais dos municípios deveriam contribuir mais.

“Não é um processo não é simples, porque as verbas do município são poucas em todos os setores. Mas este e outros problemas não serão resolvidos a contento enquanto não houver uma redistribuição dos recursos vindos da União”, opina.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.