Valor médio é de R$ 645, mas grandes conglomerados operam com preços que beiram os R$ 200, resultado de estratégia de baixa remuneração de professores e foco em licenciaturas

O valor médio da mensalidade cobrada por instituições privadas de ensino superior no Brasil, em 2014, é de R$ 645. A quantia é praticamente 4% maior que o valor cobrado no ano passado. De todos os Estados brasileiros, Alagoas é o que o possui o menor valor médio de mensalidade (R$ 442). Já o Acre, foi o lugar onde houve o maior aumento no preço dos cursos. Lá, o valor médio da mensalidade subiu 17% em relação a 2013.

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Os dados são da Análise Setorial do Ensino Superior Privado 2014, elaborada pela consultoria Hoper Educação. O estudo foi feito a partir de consulta a mais de 2 mil faculdades no País. "De uma maneira geral, os preços acompanharam uma recuperação inflacionária apenas. Enquanto as faculdades do Sudeste já atingiram um ponto de equilíbrio, no Norte e no Nordeste houve um crescimento maior pela demanda reprimida que ainda existe nessas regiões", diz Alexandre Nonato analista de mercado da Hoper.

Preço X Qualidade

Elizabeth Balbachevsky, da USP:
Divulgação/Unicamp
Elizabeth Balbachevsky, da USP: "R$ 645 já é um preço baixo para uma escola secundária"

Mesmo havendo esse crescimento de quase 4% de 2013 a 2014, o valor ainda é considerado baixo para os padrões de qualidade exigidos por um curso superior de graduação. Isso é o que afirma a professora de Ciências Políticas da Universidade de São Paulo (USP) Elizabeth Balbachevsky.

"O ensino superior de qualidade é mais caro do que isso. Com esse valor de mensalidade, não se consegue sustentar uma instituição com professores qualificados e com carga horária de ensino razoável. Essa quantia de R$ 645 já é um preço baixo para uma escola secundária, quem dirá para uma instituição de ensino superior ", diz Elizabeth.

Segundo Celso Frauches, da ABMES, entre os cursos mais baratos  estão os de humanas
Divulgação/ABMES
Segundo Celso Frauches, da ABMES, entre os cursos mais baratos estão os de humanas

Como o levantamento se foca no valor médio das mensalidades, dentro desse universo de instituições pesquisadas há ainda cursos com valores superiores ou inferiores. "Faculdades 'premium' como a Fundação Getúlio Vargas cobram bem mais do que isso. E entre os cursos mais baratos estão os de humanas, oferecidos no período noturno. Eles ficam na faixa de R$ 300 a R$ 200 por mês", explica Celso Frauches, consultor educacional da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), que representa cerca de 350 instituições privadas.

Muitos desses cursos de até R$ 300 têm como nicho estudantes das classes C e D. Eles são o público-alvo dos grandes conglomerados da educação superior no Brasil, grupos que montaram uma estratégia lucrativa para oferecer educação a baixo custo. A lógica inclui: operar no limite mínimo de professores mestres ou doutores exigidos pelo Ministério da Educação, que é de 33%; pagar valores muito baixos pela hora /aula e com contratos precário de trabalho - em vez da contratação direta, muitos docentes atuam por meio de cooperativas, o que exime a universidade dos vínculos trabalhistas; e criar salas superpopulosas, com quase uma centena de estudantes. 

Licenciaturas

Parte considerável desses alunos atendidos pelas faculdades privadas é da área da Educação. Muitos deles conseguem ter acesso ao curso por meio de financiamentos privados ou público, via programas como o Programa de Financiamento Estudantil (Fies), por exemplo.

Há ainda aqueles estudantes que conseguem acessar a faculdade por meio de bolsas do Programa Universidade para Todos (ProUni), que banca integralmente ou parcialmente as mensalidades de alunos de baixa renda. Desde a regulamentação do ProUni em 2005, o curso de Pedagogia é o segundo com o maior número de formados. Perde apenas para Administração.

Esse quantitativo expressivo de matrículas em cursos baratos de Pedagogia é uma das causas que explica a baixa qualidade da educação básica no Brasil, afirma a professora da USP Elizabeth Balbachevsky.

"O setor privado é o grande formador de professores do ensino básico. E os cursos de licenciatura e de formação de professores estão entre os mais baratos. E são baratos porque não têm equipamentos, nem laboratórios didáticos. Além disso, os docentes são mal pagos e possuem baixa dedicação à instituição. E é nesse ambiente que são formados os professores no País. Trata-se de uma formação duvidosa e que contribui para a baixa qualidade do ensino no Brasil", diz Balbachevsky.

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