"Intercâmbio de alunos em países emergentes falha pela falta de monitoramento"

Por iG São Paulo - artigo de Marcelo Knobel |

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O professor da Unicamp Marcelo Knobel diz, ao citar um estudo, que programas como o Ciência sem Fronteiras falham pela falta de acompanhamento do impacto de suas ações; nações como Índia e México também enfrentam o problema

Divulgação/Unicamp
Knobel: "em geral, os programas se limitam ao número de bolsas e à abrangência do alcance"

Um estudo publicado neste ano sobre programas de mobilidade internacional de onze países, encomendado pelo British Council - organização que promove a cultura britânica pelo mundo - e o DAAD - organização alemã de intercâmbio -, [ambas parceiras do Ciência Sem Fronteiras (CsF)], indica que os resultados das bolsas não são monitorados adequadamente.

O relatório foi conduzido pela equipe do professor Philip Altbach, do Boston College (EUA), pelo Grupo GO, e contou com o apoio de especialistas dos onze países analisados: Brasil, China, Índia, Rússia, México, além de Egito, Indonésia, Cazaquistão, Paquistão, Arábia Saudita e Vietnã.

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O estudo examina as motivações que estão por trás dos programas de mobilidade nacionais, o tamanho dos programas, como eles são financiados e administrados, como os estudantes são selecionados, e como os programas são avaliados. A ideia principal do levantamento é ajudar a informar os formuladores de políticas públicas e líderes de educação superior para melhorar os programas de bolsa e outras iniciativas que encorajem a mobilidade estudantil qualificada.

Acesse o estudo do British Council e do DAAD na íntegra

De modo geral, a pesquisa aponta que muitos países reconhecem a importância do intercâmbio internacional para fortalecer os sistemas educacionais e de ciência e tecnologia, e assim lançaram programas (de maior ou menor magnitude) de mobilidade.

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Estima-se que existam aproximadamente 180 programas de mobilidade estudantil internacional (mais da metade dos países existentes), que enviam centenas de milhares de estudantes para outros países, com custos da ordem de R$ 80 mil reais por ano por estudante. 

Conheça algumas universidades que já receberam alunos brasileiros pelo CsF:

Universidade de Nebraska. Foto: DivulgaçãoCatholic University of America. Foto: DivulgaçãoOregon State University. Foto: DiuvlgaçãoUniversidade de Wisconsin. Foto: Thinkstock/Getty Images Universidade do Tennessee de Knoxville. Foto: DivulgaçãoIowa State University. Foto: DivulgaçãoPennsylvania State. Foto: DivulgaçãoUniversity of Arkansas. Foto: DivulgaçãoNorth Carolina State University. Foto: DivulgaçãoUniversity of California de San Diego. Foto: DivulgaçãoIllinois Institute of Technology. Foto: Divulgação San Diego State University. Foto: DivulgaçãoUniversidade de Minnesota. Foto: Thinkstock/Getty ImagesUniversidade de Colorado Boulder. Foto: DiuvlgaçãoPurdue University. Foto: DivulgaçãoInstituto Rensselaer Polytechnic. Foto: DivulgaçãoUniversidade de Montana. Foto: DiuvlgaçãoTexas A & M University. Foto: DiuvlgaçãoSyracuse University. Foto: DivulgaçãoUniversidade da Califórnia. Foto: DivulgaçãoWashington State University. Foto: DivulgaçãoUniversity de Iowa. Foto: Thinkstock/Getty Images

Monitoramento

Em geral, a maioria desses países buscam proteger esse investimento ao exigir que os estudantes retornem ao país de origem por um dado número de anos. Entretanto, há pouquíssimos exemplos de países que monitoram e avaliam rotineiramente o impacto e a efetividade de seus programas de bolsas no exterior.

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Não há dados concretos sobre o desempenho dos estudantes durante a sua formação no exterior

Não há dados concretos à respeito do desempenho dos estudantes durante a sua formação no exterior, sobre uma eventual mudança de desempenho após o seu retorno, nem da percepção de seus professores sobre os possíveis benefícios (acadêmicos, motivacionais, de mudança de perspectivas), muito menos do impacto sobre as oportunidades de trabalho.

Além disso, outro achado interessante é que a maioria dos programas não possuem nenhum tipo da uma iniciativa pós-estágio, o que permitiria um retorno fundamental para melhorar o próprio programa e facilitaria um engajamento efetivo dos estudantes que retornam ao seu país de origem.

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Na maioria dos casos estudados, não há ajuda para uma adaptação dos estudantes para as suas universidades de origem, ou para as condições do mercado de trabalho que eles encontram ao voltar. O estudo sugere que os programas maximizariam o seu impacto se tivessem objetivos mais claros, aproveitando ao máximo a experiência dos estudantes que retornam.

Thinkstock/Getty Images
Sem estudos de impacto, gestores de países emergentes não conseguem medir benefícios

E os benefícios?

O relatório mostra claramente que a maioria dos países responsáveis pelos esquemas de bolsas não realizaram ainda estudos que possam indicar benefícios tangíveis dessa mobilidade, e em geral se limitam a número de bolsas e abrangência do alcance da referida mobilidade.

É fundamental que mais estudos comparativos sejam realizados, para que os países possam aproveitar boas práticas de outros, bem como possam aprender com os erros e acertos dos demais.

Entenda: o que é o Ciência sem Fronteiras?

Seria interessante poder construir indicadores relacionados com os objetivos específicos de cada programa, para analisar mais consistentemente o impacto dessas iniciativas nas políticas públicas.

Marcelo Knobel é professor titular do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)


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