Francisco Soares, presidente do órgão responsável pela prova, afirmou ao iG que neste ano vai divulgar “vários rankings” que contemplem a diversidade do país e mostrem mais do que nota

Francisco Soares, presidente do Inep
Cedac
Francisco Soares, presidente do Inep

Presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Francisco Soares se posiciona de maneira mais realista quando o assunto são as notas das escolas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Os criticados – especialmente por quem trabalha com educação – rankings feitos a partir das médias dos alunos nas provas são legítimos na opinião dele.

Chico Soares, como é conhecido, é prático com o tema. “Toda vez que se tentou evitar o ranking, ele apareceu. Isso veio para ficar, mesmo porque é uma expressão legítima da informação”, analisa. Em entrevista exclusiva ao iG, ele admite não gostar das classificações que dizem quais são as melhores e as piores escolas do país. Por isso, planeja divulgar, a partir deste ano, mais dados do que a média, colocando os colégios em grupos comparáveis.

“Existe mais de um ranking, pra usar a mesma linguagem. Vão ser vários rankings. A ideia é colocar a escola dentro de grupos de escolas similares”, afirma. A divisão por níveis socioeconômicos dos alunos, por exemplo, deve ser uma das utilizadas. Vencidos os problemas de logística do Enem – que ele garante estarem sob controle –, Chico acredita que é hora de discutir aspectos pedagógicos do exame e ir além da “seleção” que ele faz.

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Por isso, uma de suas metas é se aproximar das escolas. “A gente tem que dizer para pessoas que defendem a excelência excludente que isso não nos interessa como projeto de país”, comenta. Chico Soares é professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutor em Estatística pela University of Wisconsin - Madison e pós-doutor em Educação pela University of Michigan – Ann Arbor.

Confira os principais trechos da entrevista:

iG: Desde que as dificuldades logísticas do Enem foram vencidas, qual deve ser o próximo passo do Enem como exame?
Chico Soares:
A pauta que o Enem se tornou para o ensino médio é uma questão que vai ganhar proeminência cada vez mais. O Brasil é muito diverso e a gente sinalizou com o Enem que há patamar de conhecimento que te habilita. Se você não tem ensino médio, para você ser certificado no Enem, você tem que ter 450 pontos e 500 na redação. Isso criou um padrão nacional e a gente não deve minimizar a importância do Enem dessa maneira. Precisamos trabalhar o contato com as escolas, abrir espaço para as questões pedagógicas. É a pedagogia ganhar da seleção. Outra coisa é: a sociedade precisa se acostumar que há mais dados no Enem do que a mera média.

iG: Como o Inep está pensando em traduzir isso tudo? Podemos esperar que, na divulgação do resultado do Enem por escola, haja mais dados do que as notas?Chico: Existem muitos indicadores de características das escolas. Infelizmente, no Brasil, o indicador com maior capacidade de explicação (dos resultados) é o nível socioeconômico. Vamos ter mais dados do que simplesmente a nota. O ranking é uma consequência do dado que existe hoje. Isso faz parte da vida, mas existe mais do que isso. Existe mais de um ranking, pra usar a mesma linguagem. Vão ser (divulgados) vários rankings. A ideia é colocar a escola dentro de grupos de escolas similares. Há duas coisas igualmente importantes: a excelência e a desigualdade. Não podemos fugir dessas duas dimensões. A gente tem que dizer para pessoas que defendem a excelência excludente que isso não nos interessa como projeto de país. Não é o projeto desse governo, que é um projeto de excelência com inclusão.

iG: Então, o senhor acha que não se deve evitar os rankings?
Chico:
Nós já aprendemos isso. Toda vez que se tentou evitar o ranking, ele apareceu. Isso veio para ficar, mesmo porque é uma expressão legítima da informação. Há muita gente do sistema educacional que não gosta de ranking, eu estou junto com essas pessoas, mas isso faz parte da vida. O que eu quero dizer é: existe mais informação do que essa que tem circulado.

iG: Os estudantes e suas escolas são submetidos a muitas avaliações. Elas conseguem usar esses resultados para transformar a escola pedagogicamente?Chico: Posso responder isso em relação ao Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), porque, com o Enem, essa dimensão de seleção acaba vindo para o centro do palco. Nós temos a clareza de que a avaliação sistêmica faz parte da educação. O Inep é um órgão da educação e, portanto, tem de estar preocupado com a excelência e a inclusão. A educação é interação entre pessoas, então eu preciso qualificar mais a interação no que passa pela instrução, que se reflete no teste. Nós já fazemos isso, mas ainda há espaço para fazer mais. Há espaço para que os sistemas de avaliação dialoguem melhor com isso.

iG: A quantidade de funcionários do Inep é suficiente para o volume de responsabilidades que possui hoje? E em termos de segurança dos sistemas?Chico: Hoje o Inep é outro. Temos uma carreira de servidores, acabamos de receber 50 novos funcionários. Houve concurso em 2007 e em 2012. Eles são a estabilidade (das atividades do Inep), apesar do nosso corpo técnico ainda ser jovem. A área de tecnologia contratou 16 pessoas das 50 convocadas, porque é um lugar onde a rotatividade é muito alta. Temos esse problema de reposição na área, mas o nosso sistema de segurança não é uma coisa isolada do Inep. A quantidade de ataques ao site do Enem é uma coisa impressionante. Eu não tinha ideia de que as ameaças são tão numerosas, vindas de todo lugar do mundo. Estamos dentro de um sistema do governo e estamos preparados para os ataques.

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iG: A redação do Enem ainda não segue as metodologias da Teoria de Resposta ao Item (TRI), que permitem comparações entre as provas de diferentes edições do Enem. A prova de redação de um ano ainda não é comparável com a do outro. É por causa disso que ainda não há duas edições do Enem por ano ou por causa da logística?
Chico:
Hoje é uma questão logística. Não temos problemas de itens, temos condições de fazer várias provas. A logística inteira de fazer um exame com essa quantidade de inscritos de forma segura é que é difícil. É uma guerra. Nós ainda não conseguimos, por causa dos prazos. Você olha no calendário e não vê dias para poder fazer a repetição. Esse Enem como está não vai ser repetido duas vezes por ano. Se ela fosse resolvida, a gente teria de pensar na redação. Para tornar as redações comparáveis de um exame a outro, teríamos um problema técnico que não está resolvido. Não é impossível de se resolver, mas isso não está em análise.


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