Avaliar adulto permite suprir carências para alavancar desenvolvimento econômico

Por Priscilla Borges |

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Coordenadora da avaliação criada pela OCDE defende competências em leitura, matemática e inserção no mundo digital para preparar melhor força de trabalho

Conhecer as competências da população adulta em leitura, matemática, resolução de problemas e inserção no mundo digital é uma importante estratégia para o futuro econômico dos países. Essa é a opinião dos organizadores de uma nova avaliação criada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

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O Programa de Avaliação Internacional das Competências dos Adultos (PIAAC) analisou a capacidade da população adulta de 24 países se inserirem no novo mundo digital em que vivemos. A avaliação foi realizada nos países desenvolvidos participantes da entidade entre 2011 e 2012.

Sérgio Amaral/Divulgação
Marta Encinas-Martin esteve no Brasil para apresentar os resultados da prova

Em entrevista ao iG, Marta Encinas-Martin, responsável pela aplicação da prova, comenta que o conhecimento das habilidades da população permite a definição de políticas públicas mais adequadas para garantir os avanços almejados pelas nações. Ela participou de seminário em Brasília para apresentar os resultados e a importância da prova ao Ministério da Educação, que prometeu estudar uma futura participação do Brasil no teste.

Segundo Marta, os resultados globais demonstram que a desigualdade de competências entre a população em todos os países avaliados é grande. Ela evita avaliar os resultados em bons ou ruins. Na opinião da especialista, que trabalha na Diretoria de Educação e Competências da OCDE, cada país precisa entender os próprios resultados e compará-los com outros países por conta da globalização. A seguir, confira os principais trechos da entrevista concedida ao iG:

iG: O PIAAC foi criado para avaliar nos adultos as mesmas competências já observadas nos jovens que vivem nos países da OCDE? Ou há diferenças? Como funciona essa avaliação?
Marta Encinas-Martin:
A Avaliação de Competências de Adultos (PIAAC) é uma avaliação internacional que mede as competências cognitivas e as do mundo do trabalho necessárias para que os indivíduos participem com êxito da sociedade e a economia de um país prospere. O PIAAC avalia o nível de competência de jovens e adultos com mais de 16 anos em compreensão matemática, aptidão em leitura e resolução de problemas. Essas são competências-chave para o processamento de informação, relevantes para os adultos em qualquer país e são necessárias para a plena integração e participação no mercado de trabalho, na educação e na formação, assim como na vida social. Além disso, a avaliação recolhe uma gama de informação sobre o uso de tecnologias da informação e da comunicação no trabalho e na vida cotidiana dos avaliados e em uma série de competências gerais, como a colaboração com os demais e a organização que requerem os indivíduos em seu trabalho. Em uma economia globalizada, não é suficiente analisar esses temas a partir de um país em particular – as comparações entre países são fundamentais para os responsáveis políticos e os governos. O PIAAC é uma avaliação inovadora e foi executada pela primeira vez. Até agora, já participaram dela 33 países. A partir de setembro, vamos começar uma rodada especial para a América Latina, que vai se juntar aos outros países. Até o momento, já confirmaram participação México, Colômbia, Argentina (Buenos Aires) e Chile.

iG: Na maioria dos países, os adultos ficaram no nível 2 de compreensão de leitura e de matemática. O que isso significa? Os resultados do teste foram satisfatórios?
Marta:
O interessante sobre a informação que a avaliação nos oferece é a distribuição do nível de competências em toda a população adulta. Em 11 países, a maior percentagem da população está no nível 2 e no resto dos países, no nível 3. Mas, em todos os países, ainda há uma proporção significativa da população em outros níveis, especialmente nos níveis mais baixos. A avaliação nos mostra como a distribuição das competências entre a população influencia os resultados econômicos e sociais da sociedade. Se uma grande proporção de adultos tem formação escassa em leitura e matemática, abaixo do nível 2, a introdução e a disseminação de tecnologias que melhoram a produtividade e as práticas de organização do trabalho podem ser prejudicadas. Não há um resultado satisfatório ou insatisfatório. Cada país avalia e analisa seus resultados para ver quais são as melhores políticas sociais e econômicas para melhorar as competências de sua população e seu desenvolvimento econômico.

iG: Os resultados globais dessa avaliação surpreenderam vocês? O que mais chama a atenção, seja positivamente ou negativamente?
Marta:
Alguns dos principais resultados que obtivemos com o PIAAC e que talvez sejam os que mais chamam a atenção são: quase um de cada três adultos tem baixo nível de alfabetização e acima de 27% dos adultos carecem de competências digitais necessárias para utilizar de maneira eficaz as tecnologias de informação e comunicação (TIC) em alguns países; existem diferenças notáveis entre as competências ensinadas por meio da educação formal nos países participantes da avaliação: os jovens que terminaram recentemente o ensino médio têm competências similares ou melhores que os formados no ensino superior de outros países; apenas um em cada dois adultos com baixas qualificações está empregado e, em alguns países, apenas um em cada quatro. Em média, aumentar o nível de competências dos adultos aumenta também as possibilidades de eles fazerem parte do mercado de trabalho e ter salários mais altos; o nível de competências também está associado de forma positiva a outros aspectos de bem-estar. As pessoas com baixo nível de habilidades também tendem a ter pior saúde, se sentem mais excluídas da participação cívica e têm menos confiança nos outros. Essas relações também se aplicam aos países: a renda per capita é maior nos países em que há uma proporção maior de adultos com níveis mais altos de habilidades em leitura e matemática e menor proporção de adultos nos níveis mais baixos de habilidades.

iG: A avaliação revela grandes diferenças de resultados e competências nos países da OCDE? E entre outros grupos, como nativos e imigrantes; homens e mulheres; jovens e idosos?
Marta:
A grande diferença de competências não ocorre entre os países, mas sim dentro dos países. Países como Inglaterra ou Estados Unidos surpreendem pelos baixos resultados de seus jovens em comparação com os adultos mais velhos. Também surpreende a grande desigualdade em países como a França, a Alemanha e os Estados Unidos, em competências de acordo com o nível socioeconômico dos pais, e a desigualdade no uso de competências entre homens e mulheres japoneses. Em geral, os imigrantes têm um nível de competência muito mais baixo do que os nativos em todos os países participantes e estão pouco inseridos na formação de adultos.

iG: Qual a relação e o impacto dessas habilidades na vida dessas pessoas? Há diferenças grandes de cargos e salários para quem se saiu melhor na avaliação?Marta: As implicações para os indivíduos são grandes. O salário médio por hora dos trabalhadores altamente qualificados é 60% maior do que a de trabalhadores pouco qualificados. Os adultos com baixo nível de alfabetização têm de três a quatro vezes mais probabilidade de estar desempregado do que os bem-formados.Mas o impacto das competências vai muito além da renda e do emprego. As pessoas com proficiência inferior em leitura são três vezes mais propensos a ter problemas de saúde e de acreditar que têm pouca influência nos processos políticos – se julgando mais um objeto das decisões políticas do que atores – do que as pessoas comalto nível de habilidades.

iG: Como esses resultados têm influenciado ou devem influenciar as políticas públicas?
Marta:
Os resultados da avaliação de competências de adultos permitirão a investigação das ligações entre as principais competências de processamento de informação e uma série de variáveis, que constituem uma importante fonte de evidências para a análise de políticas. Os resultados facilitarão a compreensão de: o desempenho dos sistemas de ensino e formação; a extensão e as dimensões do analfabetismo e os baixos níveis de alfabetização; as diferenças entre as necessidades do mercado de trabalho e a educação formal recebida pela população; os níveis de equidade no acesso à educação e mobilidade intergeracional; a transição dos jovens da educação para o trabalho; a identificação das populações em risco e a relação entre as competências cognitivas e as variáveis, como demografia, nível de educação, saúde.

iG: Vocês vão discutir esses dados com o Ministério da Educação para convencer o Brasil a participar dessa avaliação? Como esses resultados podem contribuir para o país?
Marta: Seria uma grande oportunidade para o Brasil e outros países da América Latina participar da nova rodada de avaliação e entender estão distribuídas as competências da sua população e compreender como podem ser introduzidas mudanças para que o Brasil seja um país mais inovador e possa seguir crescendo economicamente ao mesmo tempo em que obtém mais igualdade entre sua população. É importante compreender as competências da população já que, sem as habilidades certas, as pessoas estão excluídas da participação na sociedade, o progresso tecnológico não se traduz em crescimento econômico e as empresas e os países não podem competir em um mundo cada vez mais conectado e complexo.

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