Mesmo com cultura em casa, aluno de área degradada rende menos

Por Priscilla Borges , iG Brasília |

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Estudo ressalta papel da escola no aprendizado: mesmo quando aluno tem acesso a recursos culturais em casa, desempenho cai em colégios de áreas vulneráveis

O efeito do território onde está localizada uma escola pode ser perverso. Pesquisa realizada pelo Centro de Estudos em Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) mostra que o desempenho dos alunos de colégios em áreas vulneráveis tende a cair mesmo que eles tenham acesso a recursos culturais dentro de casa. A herança educacional e cultural da família é considerada fundamental no resultado da aprendizagem dos estudantes.

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Salas de aula com nomes positivos. Foto: Priscilla Borges, iG BrasíliaSandra Regina de Souza Santos, coordenadora pedagógica da Escola Classe 66, de Ceilândia. Foto: Priscilla Borges, iG BrasíliaSandra e os alunos da escola Classe 66. Foto: Priscilla Borges, iG BrasíliaCrianças na hora do lanche na escola de Ceilândia. Foto: Priscilla Borges, iG BrasíliaEstudantes esperam a hora da merenda na escola. Foto: Priscilla Borges, iG BrasíliaAlunos brinca de xadrez na escola Classe 66. Foto: Priscilla Borges, iG BrasíliaO condomínio Sol Nascente, considerado a maior favela da América Latina. Foto: Priscilla Borges, iG Brasília

A proposta do estudo, iniciado para entender por que o desempenho de grandes cidades (como São Paulo) em avaliações educacionais estava aquém do ideal, é ressaltar a função da escola no processo de transformação da realidade. "A origem social não pode determinar o destino escolar das crianças. A escola tem papel fundamental na reprodução ou na transformação dessa origem", afirma Antonio Augusto Gomes Batista.

Batista é da Coordenação de Desenvolvimento de Pesquisas do Cenpec e responsável pela pesquisa. Segundo ele, o estudo, intitulado "Educação em territórios de alta vulnerabilidade", prova que todos os alunos podem aprender desde que sejam dadas as condições adequadas. "A pesquisa mostra o efeito perverso das desigualdades sócio-espaciais das cidades. Os locais mais vulneráveis sempre perdem", lamenta.

A influência familiar, tão importante para o aprendizado, perde força nesses locais, diz Batista. O rendimento dos alunos que estudam em regiões mais sujeitas à violência, com menos infraestrutura, é menor – mesmo entre os que têm mais herança cultural. O pesquisador afirma que as políticas públicas devem considerar essa influência para serem efetivas. “A gente pode mexer nisso mais facilmente do que em aspectos estruturais”, comenta.

O estudo avaliou o desempenho de estudantes da cidade de São Miguel Paulista na Prova Brasil. Os dados mostram que, entre alunos com mais recursos culturais que estudam em escolas de regiões mais vulneráveis, 41% apresentaram desempenho em leitura abaixo do esperado. Já nas escolas com entorno menos vulnerável, apenas 19% dos alunos com os mesmos recursos culturais têm rendimento abaixo do esperado.

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Isolados

Sandra Regina de Souza Santos, coordenadora pedagógica da Escola Classe 66 de Ceilândia, acredita na capacidade da escola de fazer a diferença. Com esse espírito, tenta tornar reais projetos pedagógicos que atendam aspectos da vida das crianças e da comunidade onde o colégio está situado – e que não têm a ver com a função da escola. "A gente faz parceria com a Polícia Militar, com a Justiça, Secretaria de Esporte e Cultura”, conta.

O colégio em que Sandra trabalha há três anos fica em uma das regiões com os piores indicadores de infraestrutura do Distrito Federal: o condomínio Sol Nascente. Localizada em Ceilândia, uma das regiões administrativas do DF, a área foi considerada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) este ano a maior favela da América Latina. Para o órgão, a área possui cerca de 76 mil habitantes. Para líderes comunitários, passa de 120 mil.

Como toda ocupação recente, o Sol Nascente não tem ruas pavimentadas (apenas 6%), há lixo espalhado por todas as vias de acesso às casas (a coleta de lixo não alcança toda a área) e só 6% das residências estão conectadas à rede de esgoto. A Escola Classe 66 é a única referência da presença do Estado no local num raio de alguns quilômetros – característica comum aos colégios localizados em regiões vulneráveis monitorados no estudo do Cenpec.

"Esse é um primeiro grande problema para essas escolas. Elas ficam isoladas, sem outros equipamentos públicos como creches, postos de saúde, parque, quadra de esportes. Ela é chamada a resolver todos os problemas que aquela população vive, porque é a única aberta o dia todo e que lida diretamente com todas as famílias", comenta o pesquisador do Cenpec. Mesmo com esforço, sozinho, o colégio não dará conta dessa demanda.

O dilema, segundo ele, é diário. “Algumas se abrem completamente para os problemas do território e tentam resolver tudo, mas não conseguem fazer sua tarefa fundamental que é educar e ensinar. Outras se fecham na ilusão de que os problemas não vão entrar, mas eles entram de qualquer jeito. Por isso, as escolas não podem ficar isoladas. É preciso pensar políticas intersetoriais”, afirma.

Portas abertas

A escola de Sandra nasceu de uma demanda da comunidade. Por isso, não se vê pichações nos muros ou depredações. Por outro lado, a direção entendeu que a unidade tinha de pertencer, de fato, aos moradores da região. O colégio fica aberto até a noite. Nos três turnos, há 1.350 alunos estudando. Além das crianças do 1º ao 5º ano do fundamental, a escola oferece educação para jovens e adultos e formação profissional para jovens à noite.

Aos sábados, as portas também ficam abertas. Um grupo de economia solidária formado por mães costureiras utiliza o espaço para confeccionar roupas e gerar renda para as famílias. Enquanto as mães trabalham, os filhos têm aulas de reforço e há projetos de leitura para as crianças. “Às vezes, infelizmente, nossa função fica deixada de lado porque temos de dar conta de outras demandas. Apesar disso, temos conseguido fazer um bom trabalho”, diz Sandra.

A coordenadora lembra que a escola reflete o exterior. "Não posso dizer que não temos problemas de violência ou tráfico, mas são isolados. A dificuldade é com a rotatividade dos professores", garante. Ela conta que o ano letivo começa com metade da equipe faltando. Depois, chegam professores temporários, que logo são substituídos por efetivos. Eles, porém, mal completam o ano e pedem transferência.

A falta de uma equipe que crie laços com a comunidade é outro empecilho para o bom desempenho das escolas. O tema é objeto de outro estudo do Cenpec por causa do impacto disso na rotina escolar. É direito dos docentes escolher onde querem trabalhar quando progridem na carreira. “Mas os alunos também têm direito a um corpo docente estável. Nesse tipo de escola, só um incentivo de cerca de 40% do salário os fixa lá”, diz Batista.

Acreditar

Batista defende políticas públicas que tornem as escolas espaços menos segregadores e criem programas direcionados às escolas de regiões mais vulneráveis. Não só para fixação de professores, mas que permitam mudanças no processo de seleção de estudantes e criação de espaços para a comunidade. “Por causa da seleção, algumas escolas ficam quase impraticáveis e concentram apenas excluídos”, critica.

Acima de tudo, porém, o pesquisador defende que os educadores acreditem no poder transformador da escola. “Acho que não podemos usar essa desculpa dos problemas externos para não buscarmos todos os meios possíveis para fazer os alunos aprenderem. Eu acredito que podemos transformar a realidade deles”, concorda Sandra.

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