Ainda que pequena, melhora no Pisa esconde desigualdade de aprendizado no Brasil

Por Ocimara Balmant - iG São Paulo |

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Mais de um em cada três (36%) jovens brasileiros de 15 anos de idade repetiu uma série pelo menos uma vez

Apesar de os resultados do Pisa, divulgados nesta terça (3), mostrarem que o desempenho dos jovens brasileiros melhorou nos últimos anos, ainda persiste o fosse que separa os melhores dos piores alunos. E essa lacuna é resultado da desigualdade socioeconômica.

“Subir quatro pontos por ano no aprendizado de matemática é algo a ser celebrado, mas é preciso ir além dos números e olhar para a desigualdade que não melhorou”, afirma a diretora executiva da ONG Todos pela Educação, Priscila Cruz.

Priscila se refere à diferença de rendimento advinda da desigualdade socioeconômica. “Temos uma proporção muito pequena de jovens em situação de vulnerabilidade social que conseguem bons resultados. O País conseguiu fazer a inclusão, trazer mais gente à escola, mas agora é hora de ter uma política educacional que reduza essa desigualdade.”

Os dados do levantamento mostram que, entre os estudantes mais desfavorecidos, ainda é muito alta a taxa de repetência. No Brasil, mais de um em cada três (36%) estudantes de 15 anos de idade repetiu uma série pelo menos uma vez, uma das mais altas taxas de repetência entre os países que participam no PISA. Tanto que, em média, os alunos brasileiros levam 12 anos para concluir os oito anos do ensino fundamental.

Isso sem contar a evasão escolar, causada, entre outros fatores, porque o currículo não é envolvente, porque o aluno quer ou precisar trabalhar e, claro, como resultado da prevalência de repetência.

Além disso, há a questão estrutural, que abrange desde a precariedade das instalações físicas até a oferta e a qualificação dos professores. No Brasil, a relação professor-aluno nas escolas favorecidas é de 22,9 estudantes para cada docente. Nas que atendem a população em vulnerabilidade social, a proporção sobe para 31,3 estudantes para um professor.

“Em países preocupados com a equidade, acontece exatamente o oposto, se dá mais para quem tem menos”, compara Priscila.

Para o economista Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann, o próprio modo de enxergar os resultados do Pisa dá pistas de como a educação tem sido tratada. “A forma como interpretaremos os dados ligados a nível socioeconômico, atendimento e fluxo escolar diz muito sobre o projeto de nação que queremos. Os avanços percebidos na avaliação do Pisa ainda não tiram o país de uma situação muito longe do desejável.”

Avaliação do governo

Nesta terça, ao analisar o resultado do Pisa, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, disse que a fotografia da educação no Brasil ainda não é boa, mas destacou que os avanços podem ser considerados uma “grande vitória”.

“O resultado em relação a nossa evolução é uma grande vitória da educação brasileira. Não podemos nos acomodar e temos ainda um atraso histórico muito grande quando falamos em qualidade da educação. Fizemos muito, mas temos que fazer muito mais”, disse

Exame

O Pisa é uma prova aplicada a cada três anos para alunos de 15 anos dos 34 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), considerados de primeiro mundo, e outros países convidados, como o Brasil, que participa desde 2000. As áreas do conhecimento avaliadas são Matemática, Ciência e Leitura. A cada edição do exame, uma área é enfatizada - nesse último, Matemática foi o foco.

Na comparação entre 2003 e 2012, o Brasil subiu de 334 para 391 pontos em matemática, um aumento de 57 pontos. Mesmo assim, ocupa a 58ª posição entre os 65 países participantes da última edição e está mais de 100 pontos abaixo da média dos países da OCDE, que foi de 494 pontos.

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