Minoria em programa de intercâmbio no mar, estrangeiros são objeto de desejo

Por Priscilla Borges - iG Brasília | - Atualizada às

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Organizadores de projeto existente há 50 anos, torcem por receber mais estudantes de outros países no navio. A experiência, eles acreditam, seria mais rica para todos

Estudantes estrangeiros ainda são minoria entre os participantes do intercâmbio em alto mar acompanhado pelo iG na última semana. A experiência, que atrai universitários há 50 anos, ainda não se tornou popular entre jovens de outros países. Os norte-americanos continuam sendo maioria no projeto, que promove um semestre de estudos bastante diferente.

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A alemã Daniela, e o casal de russos Ksenia e Alexander . Foto: Priscilla BorgesAlém dos russos e alemães, há chineses, canadenses, mexicanos e alguns representantes únicos de países como Croácia, Cazaquistão, Turquia e Reino Unido. Foto: Priscilla BorgesA chinesa Xintian Zhang estuda História na Universidade Nacional de Cingapura e conseguiu uma bolsa de estudos para participar do intercâmbio no navio. Foto: Priscilla Borges

A cada viagem do Semester at Sea, cerca de 600 universitários e jovens ainda em dúvida sobre qual profissão escolher estudam em um campus flutuante e visitam cerca de 15 países. A proposta é conscientizá-los sobre o que é a globalização, seu papel no mundo e a importância do respeito a culturas e diferenças. Por isso, a diversidade de nacionalidades é almejada.

Kathryn Thornton, coordenadora acadêmica da viagem que começou em agosto e só terminará em dezembro, diz que os estrangeiros ajudam muito o projeto. “Gostaríamos de ter mais estudantes de fora nas nossas viagens. Eles auxiliam na internacionalização de ideias, especialmente quando estamos dentro do navio, que é nossa bolha americana”, afirma.

As bolsas ajudaram o casal de russos Alexander Khambir, 21, e Ksenia Lukanova, 20, a participar da experiência. Estudantes de Jornalismo na American University in Bulgaria (Universidade Americana na Bulgária), uma instituição privada com currículo americano localizada na cidade de Blagoevgrad, eles não têm dificuldades na adaptação ao navio.

Assista ao depoimento do russo Alexander Khambir ao iG sobre experiência no navio:


“Não é difícil. Já estamos acostumados com eles, por conta da universidade. Eu também estudei um ano durante o ensino médio na Califórnia, nos Estados Unidos. Aprendemos muito aqui”, diz Ksenia. Alexander conta que, dentro do navio, todos se tornam próximos. Além da experiência acadêmica, ele afirma que ganhou amigos para o resto da vida.

A alemã Daniela Kriegbaum, 22 anos, acredita que a adaptação é mais fácil para os europeus do que para os americanos. “Já dá para perceber as mudanças das pessoas aqui no navio. Nós já estamos mais acostumados com estrangeiros, viagens. Nós já conhecíamos muitos dos países que visitamos. Os americanos não”, ressalta.

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O navio saiu da Inglaterra direto para a Rússia. Alexander diz que os colegas os bombardearam de perguntas. De lá, seguiu para a Alemanha, quando Daniela foi a questionada da vez. A viagem seguiu por mais países europeus (Bélgica, França, Irlanda, Portugal e Espanha. Depois, passou por Marrocos, Gana, África do Sul, Argentina e Brasil. Faltam Cuba e Estados Unidos.

Vantagens

Estudante de Ciências Sociais Stuttgart na Alemanha, Daniela brinca que se sente mais especial sendo estrangeira no navio. Para ela, o modelo de ensino comparativo, que os faz pensar melhor sobre as diferenças de países e culturas, é a grande vantagem do programa. “É muito interessante viver em um mesmo barco que pessoas tão diferentes e os professores”, afirma.

“Nossa experiência é mais profunda aqui. Somos preparados antes de chegar a um novo país, todas as aulas nos dão essa noção de comparação entre os países. É muito impactante. Eu lamento não ter viajado mais antes de embarcar aqui, para poder comparar ainda mais coisas. Começamos a perceber e entender melhor as diferenças”, ressalta Alexander.

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Além dos russos e alemães, há chineses, canadenses, mexicanos e alguns representantes “únicos” de países como Croácia, Cazaquistão, Turquia, Reino Unido. Xintian Zhang, 22 anos, é uma das chinesas participantes do projeto. Estudante de História da Universidade Nacional de Cingapura, ela conseguiu uma bolsa de estudos também.

Xintian só conhecia países asiáticos até iniciar essa viagem. Poder conversar e conhecer habitantes de lugares diferentes, como os africanos, é o mais interessante para ela. A jovem se sente inspirada pela força e alegria das pessoas que não têm o mesmo privilégio que eles. “Hoje sou uma nova pessoa e não vou parar por aqui”, garante.

A falta de conexão com o mundo exterior também provoca novas reflexões. As redes sociais, tão caras para a juventude, perdem o sentido. “Não estou interessada em nada que tem lá. E não é porque estamos conhecendo pessoas melhores, mas é que aqui podemos conhecer o melhor das pessoas”, reflete.

Cotidiano

As diferenças alimentares, de hábitos e linguagem não são problemas para os europeus. Ksenia admite que, no início, era mais divertido ir almoçar e jantar por conta das novidades culinárias. Agora, já não se animam tanto. As comidas se tornam repetitivas. Alexander se diverte ao pensar que eles não pagam pela comida mais saudável que é servida no jantar.

“Aqui tem frutas, verduras. Mas os alunos se cansam e preferem comprar sanduíche e pizza”, conta. A alimentação é a pior parte da viagem para Xintian. “Meu estômago já embrulha só de pensar na comida. Ando comendo mais frutas mesmo. Sinto falta de comer pratos típicos de Cingapura, da comida da minha casa”, diz.

A estudante, que recebeu muito apoio da família para realizar o intercâmbio, critica o modo como os professores lidam com os estrangeiros. Segundo ela, o problema não é preconceito, mas eles dão aulas como se todos fossem apenas americanos e conhecessem todos os aspectos do país. “Ainda falta ser mais inclusivo nesse sentido”, afirma.

O programa

Apesar de inusitado, o Semester at Sea não é novo. Existe há 50 anos e já ofereceu formação a mais de 55 mil estudantes de 1,7 mil instituições diferentes, que percorreram mais de 60 países.

Além das aulas teóricas, os estudantes realizam atividades de campo, como visitas e trabalhos voluntários em áreas culturais, sociais, de meio ambiente, educacionais. Os créditos são aproveitados nas instituições de origem.

*A repórter viajou a convite da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.

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