Intercâmbio em navio tem horário de refeições, pouco espaço e até aulas de tricô

Por Priscilla Borges - iG Brasília |

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Estudantes, professores e famílias encontram maneiras de transformar navio em um lar. Grupos se juntam para encontrar atividades comuns e tornar vida mais fácil

Os desafios de viver em um navio durante meses são inúmeros. Há dificuldades de espaço, de conectividade com o mundo, de limitação de atividades e de espaços comuns, da distância de casa, da falta de opções culinárias. Apesar disso, para os estudantes, a comida é o único incômodo real. O resto, segundo eles, fica menor diante da alegria da experiência que estão vivendo. Desde agosto, cerca de 600 universitários fazem um intercâmbio no mar.

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O iG passou uma semana viajando com esses jovens para saber como era a experiência de estudar em um campus flutuante. A proposta do Institute for Shipboard Education (ISE), que organiza o programa em parceria com a Universidade de Virginia, nos Estados Unidos, é dar aos estudantes uma formação mais global, que os faça compreender melhor o próprio papel no mundo, respeitar culturas e diferenças e se conhecer melhor.

Estudantes usam intercâmbio em navio para pensar no futuro

Dentro do navio, estudantes, professores, funcionários e tripulantes se tornam uma comunidade. Jovens de diferentes culturas e nacionalidades se misturam nas salas de aulas, nas mesas das refeições, na biblioteca, no laboratório de computadores, atividades extraclasse. As famílias dos professores, com crianças, torna o clima mais leve e ameno. Os filhos dos mestres se tornam mascotes e diminuem as saudades de casa.

Estudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes, professores e famílias se juntam para encontrar atividades comuns e transformar navio em um lar. Foto: Priscilla Borges/iG Brasília


Se, por um lado, chamar uma cabine – em geral pequena e dividida com outra pessoa desconhecida – de casa parece estranho, as “mordomias” do navio agradam. Read Schuchardt, professor de comunicação, conta como vantagens o fato de não ter de limpar, cozinhar, lavar e passar no navio. A sensação de estar em um hotel, nesse sentido, é um descanso. Especialmente diante de sua grande família: sete dos oito filhos o acompanham no navio.

“Para os pais é ótimo, porque você não tem de cozinhar, não tem de lavar louças... É um luxo. A dificuldade é, apesar de o navio ser pequeno, ter controle de onde todos estão. Por isso, temos muito mais regras aqui do que em casa”, brinca o professor. O navio oferece um serviço de lavanderia, a seis dólares o saco de roupa suja. Como as cabines são pequenas, a alternativa é boa. A maioria dos viajantes opta por pagar pelo serviço.

Schuschardt e a esposa Rachel, que está grávida, deixaram a filha mais velha nos Estados Unidos. Ela, que tem 19 anos, está prestes a casar e não quis participar da aventura. Eles acreditam que essa será uma das últimas chances de reunir a maioria dos filhos. Desde o nascimento dos filhos, Rachel é responsável por educá-los em casa. Então, na opinião dos pais, esse é o semestre mais rico das crianças em termos de conhecimento e experiências.

“É interessante ver como o menor, de três anos, comenta sobre os países que visitamos. Eles entendem que estamos fazendo algo muito diferente”, define. O pai ressalta que, às vezes, a empolgação das crianças atrapalha um pouco os universitários. Rachel ressalta que, por outro lado, as crianças fazem bem para o resto da comunidade. “De modo geral, acho que os estudantes se sentem mais como família com a presença das crianças”, afirma.

Rotina

O calendário de estudos dos participantes é similar ao de uma instituição convencional. Os estudantes têm aulas todos os dias (a diferença é que também aos sábados e domingos porque quando estão nos portos das cidades eles não têm aulas) e alguns horários vagos. Nesses intervalos, eles estudam, conversam, acessam à internet (lenta e cara), namoram, descansam. A diferença é que é difícil fazer isso sem que alguém esteja notando.

As cabines são os únicos locais de privacidade dos alunos – desde que combinem de ficar sozinhos com seus colegas de quarto. O espaço, que tem um banheiro pequeno, armário, frigobar, televisão e telefone para se comunicar com outros quartos, precisa ser bem dividido e as regras, definidas. Os mais bagunceiros podem incomodar os mais organizados, já que o espaço é reduzido. Às vezes, nem janela tem.

Kevyn Meheula, 19 anos, sofre para fazer todas as suas roupas caberem no armário. “Eu adoro roupas”, brinca. Mercer Schuchardt, 18 anos, filho de Read e Rachel, divide a cabine com um garoto muito bagunceiro e desastrado. “Ele quebra tudo. É difícil”, diverte-se. Os estudantes encontram uma maneira de tornar o ambiente mais aconchegante. Muitos enfeitam teto, colocam fotos da família nas paredes e até bichos de pelúcia enfeitam as cabines.

Nas portas dos quartos, quadros de recados, bilhetes e bloco de anotações facilitam a comunicação entre eles. Andando pelos corredores, é possível ver inúmeros recados. De amor, de felicitações, de brincadeiras e de encontros. Os jovens encontram maneiras de se sentir em casa e vivendo uma vida comum, como se estivessem em terra firme. De vez em quando, colocam música no último andar do navio, no deck exterior, dançam, compram sanduíches.

Para desanuviar

Dentro do navio, universitários e professores encontram maneiras de relaxar mente e corpo. Seja pela aptidão ou afinidade de professores ou grupos, diferentes atividades extraclasse são formadas naturalmente. Há turmas de ioga, crossfit, basquete, dança, música e até tricô. As aulas de tricô, aliás, começaram como uma brincadeira e se tornaram concorridas. Até os meninos, que não ligam para estereótipos, aprenderam a tricotar.

“Eles são os melhores, porque calculam melhor os pontos”, afirma a sorridente “professora” por acaso, Leigh Berry. Ela acompanha o marido no navio achou que ensinaria os idosos que estão no navio – há muitos “estudantes” mais velhos a bordo, que são aposentados e atuam como tutores para continuar viajando o mundo e mantendo a mente ativa – a tricotar. Certo dia, Leigh se ofereceu para ensinar as crianças também.

Os pequenos ficaram mais concentrados e adoraram. Logo, os mais velhos também quiseram aprender. Alex Johnson, 21 anos, e Max Heaton, 22, são alguns dos alunos mais aplicados. Em qualquer momento livre de cadernos no navio, eles podem ser vistos tricotando. “Eu não ligo para nenhum estereótipo e me sinto bem fazendo uma roupa com as minhas próprias mãos”, comenta. Depois de concluir um cachecol em duas semanas, ele já fazia um suéter.

Erin Aaron Fox, 20, nunca imaginou que se apaixonaria pela atividade. “Eu não quero parar de tricotar nunca mais”, brinca.

O programa

Elaborado pelo Institute for Shipboard Education (ISE) em parceria com a Universidade de Virginia, o projeto existe há 50 anos. O Semester at Sea já ofereceu formação a mais de 55 mil estudantes de 1,7 mil instituições diferentes, que percorreram mais de 60 países.

Estudantes de diferentes nacionalidades passam um semestre tendo aulas no navio, que percorre cerca de 15 países. Além das aulas teóricas, os estudantes realizam atividades de campo, como visitas e trabalhos voluntários em áreas culturais, sociais, de meio ambiente, educacionais. Os créditos são aproveitados nas instituições de origem.

*A repórter viajou a convite da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.

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