No Rio, estudantes estrangeiros visitam abrigo e trocam experiências com jovens

Por Priscilla Borges - iG Brasília |

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A cada cidade que o navio-universidade atraca, os universitários ficam livres para explorar a cidade

Os dias de viagem pelo oceano são cheios de expectativa em relação ao próximo porto. No navio que carrega cerca de 600 universitários desde agosto em uma viagem pelo mundo, não é diferente. Tudo que os jovens mais querem é pisar em terra firme e explorar as cidades por onde passam. Para um grupo de 10 alunas, no entanto, a chegada do Semester at Sea ao Rio de Janeiro, nesta quarta-feira, foi mais lenta e significativa.

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Brasileiros e grupo de universitarios estrangeiros tiram foto juntos na porta de abrigo. As lições que ganharam com o passeio são inesquecíveis. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaPara ajudar na comunicação, um brasileiro ajuda traduzindo as conversas entre estrangeiras e brasileiras. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaCaitlin Emig, Christina Hirt e amiga se preparam para jogar futebol no abrigo do Rio. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaAlunas estrangeiras e brasileiros jogam futebol em abrigo do Rio. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaAlunos foram a um festival em São João de Meriti, que comemorava o Dia Nacional da Consciência Negra. Foto: Priscilla Borges/iG BrasíliaEstudantes escutam explicações em frente a um abrigo para jovens, no Rio de Janeiro. Foto: Priscilla Borges/iG Brasília

As estudantes esperaram durante horas, dentro do navio, o momento de serem levadas por representantes da Embaixada dos Estados Unidos a um abrigo para jovens. As praias, o Cristo Redentor e o Pão-de-Açúcar ficaram em segundo plano na programação delas, que se candidataram para visitar o lar de jovens que perderam os pais, foram retirados deles pela Justiça ou das ruas. E vibraram por terem sido sorteadas para participar da atividade.

As lições que ganharam com o passeio, elas garantem, são inesquecíveis. Primeiro, quebraram o estereótipo sobre o que seria chegar a uma área pobre do Rio. O abrigo Ayrton Senna, localizado em Vila Isabel, impressionou as estudantes por causa do amplo espaço. Depois, elas se reconheceram em muitos hábitos e gostos musicais, alimentares, culturais dos brasileiros.

“O mais legal dessa experiência é ver que pessoas da mesma idade são do mesmo jeito em qualquer lugar. Somos todos jovens que pensam da mesma forma”, analisa Caitlin Emig, americana de 20 anos. “Nem a língua nos atrapalhou”, garante. Caitlin faz questão de ressaltar que os problemas enfrentados pelos moradores do abrigo – violência doméstica, luta pela sobrevivência, pobreza – também existem na sua realidade.

Christina Hirt, 20 anos, que mora na Califórnia assim como Caitlin, ressalta que nas cidades delas muitas pessoas catam latinhas, papel e metal nas ruas para vender e sobreviver. Exatamente como alguns brasileiros contaram a elas que faziam para viver nas ruas. “Eu me sinto privilegiada em poder estar aqui, conhecer esses jovens. É inspirador ver como eles conseguem sorrir, ser felizes, mesmo vivendo esse tipo de situação”, comenta.

Futebol e filme

Além de sete americanas, o grupo contava com a participação de uma russa, uma chinesa e uma canadense. De início, os brasileiros ficaram constrangidos em se aproximar. Depois, decepcionados porque haviam programado um jogo de futebol esperando mais meninos. Na comitiva, havia apenas três jovens brasileiros que já participaram de outros programas do governo americano. As meninas, no entanto, não se intimidaram.

O constrangimento acabou na quadra. Além do futebol, eles jogaram basquete, conversaram bastante, se abraçaram. Os brasileiros não conseguiam acreditar que as três meninas negras do grupo eram americanas. “Mas tem gente da minha cor lá, tia?”, perguntavam. Depois, todos assistiram a um curta sobre crianças que vivem numa favela e catam nas ruas o seu sustento (metal e papelão).

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A despedida foi cheia de emoção e lamento pelo tempo curto. Modjinah Coby-Lavache era uma das mais animadas com os brasileiros. Apertou, abraçou, tirou fotos. “Eles precisam de carinho. Gostaria de poder passar mais tempo com eles”, afirma. Christina se sentiu tocada a olhar mais para a própria comunidade. Ela conta que nunca esteve em casas semelhantes ou fez trabalhos voluntários em sua cidade natal.

“Eu percebi que não sei sobre minha própria comunidade e é estranho ter de sair do seu ambiente para ter consciência disso”, afirma. Depois do passeio no abrigo, os estudantes conheceram um pouquinho da cultura afro-brasileira. Foram a um festival em São João de Meriti, no estado do Rio, que comemorava o Dia Nacional da Consciência Negra. Assistiram a apresentações de capoeira e passearam por uma feira de livros.

O programa

Elaborado pelo Institute for Shipboard Education (ISE) em parceria com a Universidade de Virginia, o projeto existe há 50 anos. O Semester at Sea já ofereceu formação a mais de 55 mil estudantes de 1,7 mil instituições diferentes, que percorreram mais de 60 países.

Estudantes de diferentes nacionalidades passam um semestre tendo aulas no navio, que percorre cerca de 15 países. A proposta é conscientizar os universitários sobre o que é a globalização, seu papel no mundo, importância do respeito a culturas e diferenças.

Além das aulas teóricas, os estudantes realizam atividades de campo, como visitas e trabalhos voluntários em áreas culturais, sociais, de meio ambiente, educacionais. Os créditos são aproveitados nas instituições de origem.

*A repórter viajou a convite da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.

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