O navio é minha casa, diz estudante que faz pela quarta vez intercâmbio no mar

Por Priscilla Borges - iG Brasília |

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Sammy é um dos já veteranos participantes do programa de intercâmbio Semester at Sea, que oferece aulas para universitários em um navio durante um semestre

Priscilla Borges
“Esse tipo de educação é a melhor do mundo. Ganhamos uma experiência incrível, conhecendo o mundo", diz Sammy Angel Lam, de 21 anos

Viajar pelo mundo se tornou a conexão de Sammy Angel Lam, 21 anos, com um lar de verdade. Parece improvável, mas trocar de companheiros de aventura a cada três ou quatro meses, morar em uma cabine de navio apertada com outro colega, se acostumar com o balanço do mar, estudar bastante e ficar sem conexão com o mundo são as atividades que fizeram esse universitário se sentir em casa.

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Sammy é um dos já veteranos participantes do programa de intercâmbio Semester at Sea, organizado pelo Institute for Shipboard Education (ISE) com a Universidade de Virginia, que oferece aulas para universitários em um navio. Enquanto estudam, eles percorrem cerca de 15 países. A casa itinerante que se transforma o navio MV Explorer a cada programa é o lugar onde o jovem americano se sente confortável e acolhido.

A vontade de conhecer novas culturas e novos países surgiu depois de um evento triste na vida de Sammy. Quando estava prestes a terminar o ensino médio, ele perdeu a mãe. Apesar do carinho que tem pelos irmãos mais velhos, sua maior referência de família era a mãe. Perdido em relação ao futuro, ele não quis morar com os irmãos numa pequena cidade na fronteira entre o Texas e o México. Queria descobrir seu lugar no mundo sozinho.

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Primeiro, o jovem conseguiu uma bolsa de estudos para continuar na cidade de San Antonio, onde morava com a mãe. Depois, também obteve ajuda para cursar uma graduação. Escolheu um curso generalista, que concede diplomas de negócios internacionais, antropologia e espanhol. Mas mesmo com os estudos bem encaminhados ele não se sentia satisfeito. Em uma feira de intercâmbios, descobriu o programa no navio.

Estudantes que participam do intercâmbio jantam após visitar Buenos Aires. Durante as paradas, os universitários praticamente não dormem. Foto: Julio Galhardi/Embaixada dos EUAA viagem que começou em Southampton (Londres), na Inglaterra, já passou por 11 países. Foto: Julio Galhardi/Embaixada dos EUAOs colegas Jalisa Harris, 22 anos, Brian McGuffog, de 22 anos, e Mia Wetmore, 26 anos, fazem o intercâmbio. Foto: Julio Galhardi/Embaixada dos EUAO intercâmbio Semester at Sea já ofereceu formação a mais de 55 mil estudantes de 1,7 mil instituições diferentes, que percorreram mais de 60 países. Foto: Julio Galhardi/Embaixada dos EUA

“Eu não tinha ninguém para me dizer o que fazer e nem dinheiro. Mas decidi que tentaria. Parecia loucura, mas nem tudo que é louco é ruim. As coisas que minha mãe mais gostava eram cruzeiros e italianos. Sei que ele estaria orgulhosa de mim”, conta. Sammy se candidatou às bolsas de estudo oferecidas pelo programa e conseguiu ser aprovado para dois programas seguidos. A experiência mudou tudo.

Ele estava no segundo ano da faculdade, em 2011, quando participou pela primeira vez do intercâmbio. Emendou os programas de verão e de outono. Ficou apenas dois dias com os irmãos entre um e outro. Perdeu a namorada ainda na primeira viagem. Quando voltou pra casa depois desse primeiro período, sentiu que “estava faltando algo em casa”. “Pensei: minha vida está naquele navio, tenho de voltar. Tenho o mundo como casa!”, diz.

De novo, sem perder o foco

Novamente, Sammy conseguiu bolsas de estudo para dois programas seguidos. Está no navio – que o iG acompanha no trajeto Buenos Aires-Rio de Janeiro desde sexta-feira – desde junho. Dessa vez, ele não visitou os irmãos e ficou sozinho com a tripulação no navio, ajudando os funcionários a organizar o barco para os próximos estudantes. Cerca de 600 estão na embarcação neste momento.

“Esse tipo de educação é a melhor do mundo. Ganhamos uma experiência incrível, conhecendo o mundo, diferentes culturas. Sou o primeiro da família a entrar na faculdade, pensar em um mestrado, a viajar para o exterior”, afirma. Sammy garante que, a cada viagem, se transforma em uma pessoa diferente. Lamenta cada despedida com os novos amigos, mas se sente preenchido de mais informações e vontade de explorar o mundo.

Por causa disso, uma pergunta o atordoa o tempo inteiro. “Eu me pergunto o tempo todo o que vou fazer depois que isso acabar. Isso aqui é um sonho e ainda não sei como vou colocar no meu futuro. Cada hora penso em fazer uma coisa diferente”, admite. Ele já sabe que não quer continuar em San Antonio. E já encontrou um programa de intercâmbio para o mestrado que permite passar um ano viajando por três países diferentes. Esse é um de seus alvos.

“Mas eu não tenho dinheiro, terei de conseguir mais bolsas. Não sei como será”, reflete. Segundo ele, é interessante ver com os colegas que vão passando pela experiência vão mudando. Ele diz que os estudantes americanos não têm o hábito de sair do país e conhecer novas culturas. O choque de realidades que esse tipo de intercâmbio proporciona amplia a visão de mundo dos jovens. “Todo mundo sai da sua zona de conforto”, garante.

Mundos distintos

Tantas participações de programas do navio fizeram Sammy perceber uma clara distinção entre os universitários que entram no navio bancados pelos pais e os que buscaram bolsas. São diferentes modos de pensar e o choque para os mais privilegiados financeiramente é maior. “Nós vemos as aulas teóricas na vida real. Isso é impactante”, conta.

Sammy arrumou uma namorada no navio. Eles moram em estados diferentes nos Estados Unidos e essa é sua outra grande dúvida do momento: como eles resolverão a distância. Enquanto não encontram uma solução, eles aproveitam o momento. Ele acredita que, como estão isolados numa pequena comunidade, há casais que se tornam mais unidos e fortes juntos. “Mas outros terminam quando chegam aqui”, brinca.

O programa

Apesar de inusitado, o Semester at Sea não é novo. Existe há 50 anos e já ofereceu formação a mais de 55 mil estudantes de 1,7 mil instituições diferentes, que percorreram mais de 60 países.

Estudantes de diferentes nacionalidades passam um semestre tendo aulas no navio, que percorre cerca de 15 países. A proposta é conscientizar os universitários sobre o que é a globalização, seu papel no mundo, importância do respeito a culturas e diferenças.

Além das aulas teóricas, os estudantes realizam atividades de campo, como visitas e trabalhos voluntários em áreas culturais, sociais, de meio ambiente, educacionais. Os créditos são aproveitados nas instituições de origem.

A chegada da reportagem ao programa coincidiu com a Semana Internacional de Educação, promovida pelo governo norte-americano para incentivar os cidadãos a pensar sobre a importância e os benefícios dos intercâmbios para o crescimento pessoal e para o país.

*A repórter viajou a convite da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília

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