Intercâmbio em navio também para crianças: filhos de docentes têm rotina escolar

Por Priscilla Borges , iG Brasília |

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Auxiliados, pais com filhos a bordo do navio ensinam o que elas deveriam aprender em um colégio convencional. Crianças garantem que rotina é mais divertida

Elas rodam o mundo com os pais pelo mar. Passam meses chamando de casa uma ou duas cabines, usam o deck do navio para brincar e se exercitar, ficam longe dos amigos de infância. O que poderia ser triste, as crianças garantem que é pura diversão. Viver por um semestre no navio impõe é a realidade de, aproximadamente, 30 crianças que participam do programa Semester at Sea por conta de seus pais.

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Thomas Young, 12 anos, e a irmã Katy Young, 7, também estudam monitoradas pela mãe. Foto: Julio Galhardi/Embaixada dos EUAStella, de 8 anos, está em sua terceira viagem com o navio. Os pais dela acreditam que a experiência enriquece muito a vida das crianças. Foto: Julio Galhardi/Embaixada dos EUAOs professores universitários ou os estudantes dão palestras sobre temas específicos, como os oceanos, animais, geografia, línguas. Foto: Julio Galhardi/Embaixada dos EUA

O iG acompanha, desde sexta-feira, um intercâmbio organizado pelo Institute for Shipboard Education (ISE), em parceria com a Universidade de Virginia, realizado em um navio que percorre 15 países do mundo em um semestre. Essas crianças são filhas de professores e funcionários do navio que optam por trazer toda a família durante o período de trabalho. Na próxima semana, o navio vai atracar no Rio de Janeiro e, de lá, seguirá para Salvador.

Animadas e amigas da maioria dos jovens que estudam no navio, as crianças têm uma rotina rigorosa. Todos os dias, às 9h, logo após o café da manhã, elas sobem para o último andar no navio (onde há um deck ao ar livre, quadra de basquete, academia, piscina e mesas de ping pong) para correr e exercitar o corpo. Como dizem os adultos, “gastar energia”.

Às 9h30, as crianças e seus pais descem para estudar juntos. Cada uma tem tarefas a cumprir previamente combinadas com a escola de origem (que podem ser tarefas, trabalhos, diários ou provas online feitas a cada parada em uma cidade) ou criadas pelos pais a partir da orientação de dois coordenadores, o britânico Ian Vollum, 46 anos, e a americana Jane DeGeorge, 29 anos. Eles trabalham com crianças na Inglaterra e nos Estados Unidos, respectivamente.

Depois de duas horas, as crianças têm um intervalo para o almoço. Às 14h, elas iniciam novo período reservado para exercícios escolares durante uma hora. Depois, iniciam atividades complementares preparadas pelos coordenadores para mostrá-las um pouco da história e cultura dos países que estão visitando. Os professores universitários ou os estudantes dão palestras sobre temas específicos, como os oceanos, animais, geografia, línguas.

“Essas crianças deveriam estar na escola e a Semester at Sea oferece essa educação continuada. Os pais têm de se responsabilizar por essa rotina das crianças, mas nós os apoiamos”, explica Ian. Ele, que também está com a esposa e a filha de 8 anos, acredita que a experiência enriquece muito a vida das crianças. Essa é a quarta vez que ele e a mulher, que é geóloga, participam do intercâmbio. Stella está em sua terceira viagem com o navio.

Há estudantes da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio. Os mais velhos, por exemplo, precisam ligar para seus professores quando param em terra firme, fazer provas orais e pela internet. Para eles, a rotina é individual, organizada com cada família e escola.

Desenvoltura e atitude

Stella terá de apresentar alguns trabalhos em sua escola quando voltar à Inglaterra. Ela, inclusive, alimenta um blog (Stella Vollum’s Blog) quando é possível, por causa da conexão lenta do navio, no qual conta suas experiências e dia a dia no navio. Para ela, viver no navio “é muito divertido”. Nessa viagem, ela conhecerá o Brasil e somará mais um país na lista dos 30 que ela já esteve antes.

“Eu acho muito divertido, eu aprendo muito. Adoro quando estamos no mar”, diz. Ela admite que sente falta da melhor amiga e gosta mais de estudar na escola do que com sua mãe. Mas, a cada nova descoberta em um país novo, a saudade parece distante. “Eu gosto de todos os lugares que eu fui. Estou ansiosa para conhecer o Rio, a praia”, conta.

Para Ian, viver nessa pequena comunidade é uma das vantagens de se viver em um navio. Além disso, ama as viagens pelo mundo e, especialmente, poder chegar em uma cidade de navio. “Se para você viajar é mais importante do que ganhar dinheiro, esse é o lugar”, afirma o psicólogo.

Thomas Young, 12 anos, e a irmã Katy Young, 7, também estudam monitoradas pela mãe, Andrea Young. Apenas o irmão mais velho, que está no ensino médio, cumpre a jornada sozinho. É a primeira vez da família em um navio. O pai, professor de oceanografia, aceitou o convite para participar da aventura e levou todos com ele. “Eu estou gostando muito, é muito legal viajar pelo mundo. É bom observar crianças de outros países”, diz Thomas.

O garoto já aprendeu muito além do currículo exigido para sua idade nos Estados Unidos. Para entender melhor a própria viagem, sua mãe o ajudou a montar mapas da Europa, África e agora se prepara para o da América do Sul. Ele aprendeu os nomes e a ordem de todos os países nos mapas. Em Gana, na África, Thomas visitou escolas em construção, brincou com outras crianças e está certo de que deseja, no futuro, ajudar nesse tipo de missão.

Katy e ele admitem sentir falta do cachorro que deixaram nos Estados Unidos. Mas garantem que preferem a rotina do navio às sete horas seguidas de aulas.

O programa

O intercâmbio Semester at Sea existe há 50 anos. Organizado pelo The Institute for Shipboard Education (ISE), em parceria com a Universidade de Virginia, já ofereceu formação a mais de 55 mil estudantes de 1,7 mil instituições diferentes, que percorreram mais de 60 países.

Estudantes de diferentes nacionalidades passam um semestre tendo aulas no navio, que percorre cerca de 15 países. A proposta é conscientizar os universitários sobre o que é a globalização, seu papel no mundo, importância do respeito a culturas e diferenças.

Além das aulas teóricas, os estudantes realizam atividades de campo, como visitas e trabalhos voluntários em áreas culturais, sociais, de meio ambiente, educacionais. Os créditos são aproveitados nas instituições de origem.

A chegada da reportagem ao programa, neste fim de semana, coincide com a Semana Internacional de Educação, promovida pelo governo norte-americano para incentivar os americanos a pensar sobre a importância dos intercâmbios e o crescimento pessoal – e para o país – que se tem com esse tipo de experiência.

*A repórter viajou a convite da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.

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