Poucos são os alunos de intercâmbio no navio que ficam dentro da embarcação quando ela está no porto. Sem dormir, eles fazem de tudo para aproveitar ao máximo

Embarcar em um navio quando a viagem já dura meses significa nadar contra a maré. A entrada é o movimento contrário da tripulação, que deseja arduamente sair, chegar em terra firme e explorar os lugares. Com os universitários do programa Semester at Sea, intercâmbio realizado em um navio que o iG acompanhará pelos próximos dias, não foi diferente.

Conheça a nova home do Último Segundo

Leia mais: Universitários americanos dão volta ao mundo em navio

Eles chegaram a Buenos Aires, Argentina, no dia 12. Quando a reportagem do iG entrou no MV Explorer, na noite de sexta-feira, os estudantes que ainda estavam no navio se preparavam para sair. Muitos deixaram o barco três dias antes e só voltaram no sábado, quando a aventura pelo mar recomeçaria rumo ao Rio de Janeiro.

Durante as paradas, os universitários praticamente não dormem. “Quando ancoramos, queremos aproveitar esse período ao máximo e ninguém dorme. Deixamos isso pra próxima viagem dentro do navio”, brincou Brian McGuffog, de 22 anos. Em conversa logo após a partida, Brian disse que as paradas em terra firme são essenciais para o corpo e a mente.

Brian, que é estudante da New York University, não quis se prender às atividades organizadas pelo Institute for Shipboard Education, responsável pelo intercâmbio, em cada país. Preferiu criar seus próprios programas locais, se hospedando em casas de famílias e conhecendo a cultura de cada país com os nativos desses locais.

A viagem que começou em Southampton (Londres), na Inglaterra, já passou por São Petersburgo (Rússia), Hamburgo (Alemanha), Antuérpia (Bélgica), Le Havre (França), Dublin (Irlanda), Lisboa (Portugal), Cadiz (Espanha), Casablanca (Marrocos), Takoradi e Tema (Gana), Cidade do Cabo (África do Sul) e, agora, Buenos Aires (Argentina).

Dessa vez, Brian se hospedou em uma área rural. Ele, que quer se tornar diretor de filmes, cresceu em uma pequena cidade de Indiana, nos Estados Unidos. “Foi a primeira vez que me senti em casa desde o início da viagem. Andei a cavalo pela primeira vez lá. Eu adorei a experiência”, afirmou.

Mundo maior

O estudante sintetiza a sensação de muitos outros alunos a cada parada: a cada nova cidade, a cada novo lugar, um mundo se abre para eles. “Eu fiz tantas coisas tão diferentes, que nem imaginava que pudessem existir. Eu não sabia quase nada sobre outros países, porque não estudamos isso nos Estados Unidos”, contou Jalisa Harris, 22 anos.

Para Jalisa, que saiu dos Estados Unidos pela primeira vez, a viagem está servindo como um empurrão. “Eu me sinto como uma criança solta em uma loja de doces. Tenho tanta coisa para aprender! Fui a lugares em que as pessoas falavam duas, três, quatro línguas. Eu só falo inglês! Uma das minhas metas será aprender novas línguas”, garantiu.

Aluna do curso de tecnologias digitais e cultura da Washington State University, no ano que vem, ela passará três meses no Quênia junto com sua irmã gêmea. Assim como Brian, ela acredita ter tomado a melhor decisão para suas vidas embarcando no navio. Mia Wetmore, 26 anos, buscou bolsas de estudo para conseguir realizar o sonho do intercâmbio.

“Paguei cerca de 6 mil dólares para vir, o mesmo que pagaria em um semestre regular. É importante que as pessoas não deixem de querer participar por conta do preço. Há muitas maneiras de conseguir ajuda para vir, reforça. Segundo as universitárias, o programa pode custar até 30 mil dólares.

Próxima parada

Mia, estudante de jornalismo da California State Long Beach, já planeja sair do navio no Rio de Janeiro e só reencontrar o grupo em Salvador. “Vou ficar em um hostel, gosto de me misturar com as pessoas locais, com outros viajantes. Eu tenho um professor que é do Rio e me passou muitas dicas. Estou ansiosa para conhecer esses lugares”, disse.

Ela diz que não consegue escolher um local preferido, porque fez amigos especiais em cada um e todas as experiências foram muito ricas. Para Mia, será difícil “voltar à realidade” que inclui muitas horas de estudo no mesmo lugar. “Não sei como conseguiremos”, diverte-se.

O programa

O intercâmbio Semester at Sea existe há 50 anos. Organizado pelo The Institute for Shipboard Education (ISE), em parceria com a Universidade de Virginia, já ofereceu formação a mais de 55 mil estudantes de 1,7 mil instituições diferentes, que percorreram mais de 60 países.

Estudantes de diferentes nacionalidades passam um semestre tendo aulas no navio, que percorre cerca de 15 países. A proposta é conscientizar os universitários sobre o que é a globalização, seu papel no mundo, importância do respeito a culturas e diferenças.

Além das aulas teóricas, os estudantes realizam atividades de campo, como visitas e trabalhos voluntários em áreas culturais, sociais, de meio ambiente, educacionais. Os créditos são aproveitados nas instituições de origem.

A chegada da reportagem ao programa, neste fim de semana, coincide com a Semana Internacional de Educação, promovida pelo governo norte-americano para incentivar os americanos a pensar sobre a importância dos intercâmbios e o crescimento pessoal – e para o país – que se tem com esse tipo de experiência.

*A repórter viajou a convite dos responsáveis pelo Semester at Sea e da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.