Escolas inclusivas ajudam seus alunos a se inserirem no mercado de trabalho

Por Julia Carolina - iG São Paulo | - Atualizada às

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Pedagogos dizem que pressão social para que alunos com dificuldades cognitivas cursem uma universidade pode ser prejudicial ao próprio estudante

Há cerca de quatro anos, Raquel Sperb Martins, de 26 anos, trabalha em uma rede de loja de brinquedos em São Paulo. Começou como auxiliar, mas já foi promovida a repositora. Seria uma história comum, se ela não tivesse uma particularidade. Quando criança, médicos falaram para a família da jovem que ela teria mais dificuldade para o aprendizado. Anos depois, prestes a entrar no ensino médio, veio o diagnóstico: transtorno invasivo de desenvolvimento.

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Arquivo pessoal
Raquel Sperb entrou em uma loja pela Lei de Cotas. Há quatro anos na empresa, foi promovida

No fim do Ensino Médio, surgiu a questão: seria apropriado para Raquel cursar uma universidade?

Nesse momento, é preciso avaliar com cuidado e caso a caso, explicam os educadores que trabalham em escolas que atendem a alunos com deficiência cognitiva.

O Colégio Novo Ângulo Novo Esquema (Nane), onde Raquel estudou, tem parte de seus alunos com condições especiais de aprendizado. Para atendê-los, a escola criou um curso que os prepara para o mercado de trabalho. Ao mesmo tempo em que capacita esse estudante, a escola também orienta a empresa sobre a melhor forma de recebê-los e em quais áreas a inserção seria mais apropriada.

“Às vezes eu tenho um aluno que gosta muito de animais, então analisamos: ele tem condições de estudar veterinária? Não tem. Então vamos trabalhar com essa ideia. O aluno pode, por exemplo, trabalhar em um petshop, em um local onde treinam cachorro”, afirma Suely Palmieri Robusti, diretora da escola Nane.

No caso de Raquel, por exemplo, a jovem adorava crianças. "Como gosto bastante de criança, a professora me sugeriu vários empregos, como trabalhar em buffet infantil ou restaurante. Mas, quando ela falou da loja de brinquedos, eu adorei, meus olhos encheram de lágrima. Era o que eu queria", conta.

Nívea Fabrício, psicóloga e diretora da escola Graphein, que também faz esse trabalho de inserção no mercado de trabalho, conta que depois de descobrir o perfil dos alunos é preciso ajudar na busca pelas vagas. “Nós fazemos um levantamento das empresas que aceitam esses estudantes e ajudamos no encaminhamento”, conta.

Acompanhamento

Carolina Sacchi, de 25 anos, tem uma história parecida com a da Raquel. A família dela também descobriu, quando a jovem ainda era criança, que ela tinha dificuldade de aprendizado. Atualmente, ela trabalha como atendente em uma rede de farmácias de São Paulo. Mas já passou por outros dois trabalhos, que foram acompanhados de perto pela equipe pedagógica da Nane.

"Quando necessário fazemos um trabalho de sensibilização nas empresas, mostramos qual é o perfil do jovem que está chegando e que ele precisa ser respeitado em suas particularidades, mas isso não significa que deva ser tratado como coitadinho. Todos têm particularidades", afirma Suely.

Pressão pela universidade

Para a diretora pedagógica do Nane, Rita de Cássia Rizzo, existe uma pressão social para que os alunos queiram fazer uma universidade e isso pode acabar sendo um problema. “Agora, com tantas universidades e a facilidade crescente da seleção, muitos alunos realmente conseguem passar. Então ele entra, mas isso não significa que ele conseguirá continuar o curso.”

Rita critica ainda o fato de muitas universidades não estarem preparadas para lidar com os alunos especiais. “Você tem uma preparação para a prova do vestibular, mas não no dia a dia. Na hora do vestibular, tem a prova em braile, mas e depois? Os professores estarão preparados para lidar, por exemplo, com um aluno surdo-mudo?”

Adriana Sperb, mãe de Raquel, disse que ela e o marido chegaram a considerar que a filha fizesse um curso universitário, mas teve medo da reação dos colegas e que a universidade não estivesse preparada para recebê-la.

"A gente ficou com dúvida, ainda fica na verdade, porque eu sou engenheira, meu marido também. Vi que alguns amigos da Raquel entraram na faculdade, mas pensei: 'para que exatamente? o que ela ganharia neste momento?'”, lembra Adriana. “Hoje, no entanto, ela está muito mais madura. Acho que agora poderia encarar um curso superior.”

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