'Achamos que em casa renderiam mais', dizem mães que tiraram filhos da escola

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Mães relatam rotina de ensino domiciliar em apartamento de SP, com horários específicos para as atividades

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Em um apartamento na zona leste de São Paulo, uma mãe de 41 anos recebe uma amiga, também com filhos, para o almoço. No total, estão ali seis crianças, com idades que vão de 1 a 7 anos.

Diante desse cenário, é grande o potencial para se ter uma casa tomada por bagunça, brigas, barulho, crianças exigindo a atenção das mães a toda hora e muita comida esparramada pelo chão. Mas nada disso acontece.

Vez ou outra, uma das crianças pergunta algo para mãe. Um conta que adora o computador. Uma é mais tímida, outra adora mostrar seus desenhos e contar história, inclusive uma - gravada em vídeo - sobre o nascimento de Jesus.

Um deles enrola para comer. Os mais velhos ajudam a tirar a mesa, enquanto o mais novo cochila no carrinho. Há apenas grãos de arroz pelo chão. Depois do almoço, todos brincam de desenhar na mesinha ao lado da janela.

Seria apenas um grupo de crianças comportadas e interessadas, não fosse por um detalhe. Nenhuma delas vai para escola.

F.M. é relações públicas e suas filhas tem 4 e 6 anos. M.L.C. é fisioterapeuta e têm quatro filhos: 1 ano, 3, 5 e 7 anos. As duas se conheceram há pouco mais de um ano, pela internet, em um grupo que discutia educação domiciliar.

Como ambas moravam em São Paulo e têm filhos em idades semelhantes, resolveram se conhecer pessoalmente. Desde então, se reúnem toda a semana, para as crianças brincarem e para elas próprias trocarem experiência sobre educar os filhos em casa.

Ambas não quiseram se identificar por receio de serem denunciadas, já que o chamado ensino domiciliar, apesar de reconhecido em convenções internacionais do qual o Brasil é signatário, ainda é considerado ilegal por vários juristas.

'Encantada'

ensino em casa
Escola em casa inclui aula de corte e costura

Ambas conheceram a educação domiciliar por meio de amigos. "Meu marido tinha um amigo com filhos pequenos que faziam. Fomos nos interessando pelo tema. Depois, visitamos uma família em Belo Horizonte que fazia e nos encantamos", conta F.

Já M. diz que entrou em contato com o sistema quando a família morava na Espanha, durante o período em que o marido fez uma especialização. "Lá, convivíamos com muitos estrangeiros e muitos faziam homeschooling."

Quando voltaram para o Brasil, em 2010, resolveram não matricular os filhos na escola, pois o ano já estava na metade. Em 2011, as crianças (duas, na época) frequentaram uma escola na zona oeste de São Paulo.

"Era uma escola pequena, muito boa, com professores e diretores interessados, cumpria o que prometida. Mas achamos que em casa seria melhor, que eles renderiam mais e poderíamos acompanhá-los mais de perto, diz M., explicando o porquê de terem optado pela educação doméstica.

Ela acrescenta que também achava a mensalidade cara para o que era feito na escola e que agora pode investir esse dinheiro em outras áreas da educação dos filhos.

"Nossa luta não é contra a escola. Queremos apenas ter uma opção a mais na hora de educar nossos filhos."

Rotina

Na porta da geladeira e no cantinho da sala de F., há cartazes que organizam a rotina da família e as matérias que as meninas estudam.

Na segunda-feira, é dia de português; na terça, matemática; na quarta, história e geografia; na quinta, novamente matemática e artes, e, na sexta, há uma revisão da semana. As meninas também fazem, juntamente com outras crianças em homeschool, oficina de corte e costura.

Na sala da casa, a televisão não é o centro das atenções e há, à disposição das crianças, materiais para desenhar e fazer outras atividades, além de muitos livros, incluindo uma Bíblia para crianças e vários títulos infantis.

"Não é preciso ser professora para ensinar os filhos em casa. Basta ter interesse", conta F., que monta com o marido o calendário de estudo das filhas, as metas para o ano e avalia semanalmente o andamento do esquema.

M. conta que a atividade escolar em sua casa ocorre pela manhã. "Eles arrumam a cama, trocam de roupa, tomam café, e vamos direto estudar, antes que comecem a brincar ou se distraiam com algo", conta.

"No momento, minha prioridade com o mais velho (de 7 anos) é ensinar línguas e matemática. Fazemos lições dessas matérias todo dia. E três vezes por semana, temos ciência, artes, geografia, história."

Além de trocarem informações com outras famílias, as duas mães buscam na internet atividades para os filhos nas diversas áreas. Para algumas matérias, elas seguem cartilhas e livros didáticos.

Bolha

As duas mães riem, mas com um certo ar de indignação, quando questionadas se não criam os filhos em uma redoma, um ambiente fechado e isolado. "Isso não existe. Eu não tirei eles da escola para deixá-los dentro de casa o dia todo. Muito pelo contrário", diz M. Temos encontros semanais com outras famílias que fazem educação domiciliar, participamos ativamente da programação das unidades do Sesc, as crianças fazem esportes."

Elas dizem que não são alvos de muitas críticas e que têm o apoio inclusive da família, conquistado com certo custo. "Quando decidimos, ouvi um sermão de uma hora da minha irmã, que também tem filhos. Depois, ela aceitou. Minha mãe se preocupa, mas com o fato de ser muita responsabilidade para mim. Mas explico que é tão cansativo quanto qualquer jornada de pai e mãe", diz M.

As duas admitem que o trabalho pode ser cansativo, mas que é recompensador - e dizem que na rotina há tempo para elas próprias. Na lista pregada na geladeira de F., há o item "manicure". Ela conta que o marido fica com as filhas sábados de manhã, para ela fazer "umas comprinhas" e outras atividades de que gosta.

Além do pouco tempo para si mesmas, que ambas não chegam a ver como problema, as duas mães citam, rindo, a casa bagunçada como uma desvantagem do homeschooling. Nada além disso. As crianças dizem não sentir falta da escola - uma das meninas conta que adora poder desenhar a qualquer hora.

Já para citar a lista de vantagens do método, as mães se empolgam e citam argumentos durante todo o preparo do almoço.

"A principal é a convivência familiar. Em cidades como São Paulo, pode se perder muito tempo com o deslocamento", afirma M. Ela diz que o saldo é positivo também academicamente e conta que seu filho mais velho já sabia 50 palavras em inglês aos 2 anos e meio e, aos 5, já estava alfabetizado em português.

Apesar da rotina mais flexível do que na escola, ela diz estar certa de que, se algo mudar e as crianças precisarem voltar à escola, elas estarão aptas a acompanhar a série correspondente.

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