'Entrada no mercado de trabalho não pode causar evasão escolar', diz pesquisador

Por Ocimara Balmant |

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Pablo Ibarrarán, do BID, orientou projeto de inserção profissional de jovens pobres na República Dominicana

“É importante que os jovens se mantenham na escola até que consigam  as habilidades mínimas para conseguir um bom emprego”, afirma o economista Pablo Ibarrarán, especialista em proteção social e saúde do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Ibarrarán está em São Paulo nesta terça (29) para participar de um seminário promovido pela Fundação Itaú Social que vai debater o uso da avaliação econômica na gestão de programas e políticas públicas para juventude. O pesquisador vai narrar sua experiência como condutor de um projeto de inserção de jovens com vulnerabilidade social no mercado de trabalho na República Dominicana.

O iG cinversou com o especialista sobre o assunto. Confira a entrevista:

Divulgação
Pablo Ibarrarán, do BID, conduziu estudo com jovens pobres na República Dominicana

iG: No Brasil, há uma grande evasão de alunos no ensino médio, estudantes com idade entre 15 e 17 anos. Um trabalho de inserção no mercado de trabalho ajudaria a mantê-los na escola?
Ibarrarán: É importante que os jovens permaneçam no sistema escolar até que adquiram as competências mínimas que lhes garantam um bom trabalho, isto é, uma ocupação com um bom salário e que lhes dê acesso a benefícios e segurança social. Em grande parte da América Latina, é necessário ao menos completar o Ensino Médio para conseguir um emprego nesse formato. Portanto, é essencial que a política pública seja pensada de forma a reduzir a taxa de abandono escolar e a melhorar a qualidade da educação. Portanto, é importante que os programas de inserção laboral busquem a reinserção desses jovens na escola. É muito importante ter isso claro. Porque tem havido más experiências, programas que acabam criando incentivos perversos, fazendo com que o jovem saia da escola para facilitar a colocação profissional.

iG: O programa de inserção de jovens pobres no mercado de trabalho que você conduziu na República Dominicana conseguiu quebrar a “herança genética” que determina a perenidade de baixos salários, subemprego e informalidade?
Ibarrarán: O principal resultado do programa foi esse. Aqueles jovens que conseguiram emprego, conseguiram bons empregos. Não aumentamos a taxa de empregabilidade, mas a qualidade da ocupação. Com isso, ajudamos a quebrar a transmissão intergeracional de pobreza. O desafio é continuar a identificar as intervenções que têm tido êxito nesse trabalho.

iG: Além da formação técnica, os bons empregos exigem competências sócio emocionais. Como ajudar o jovem pobre da América Latina a desenvolver habilidades de liderança , resolução de conflitos e persistência?
Ibarrarán: Acho que isso é o principal desafio identificado no meu estudo. Em primeiro lugar, precisamos identificar com maior segurança quais são as competências emocionais de maior impacto sobre o desempenho profissional. Em segundo lugar, precisamos desenvolver métodos para ensinar. O ideal é que com as habilidades emocionais acontecesse algo similar ao que ocorre com matemática, por exemplo. Todos nós sabemos que matemática é importante, que podemos dominar o conteúdo com o devido esforço e que é possível aferir o nível de conhecimento de cada pessoa no assunto. 

iG: O que fazer para que o jovem que participou de um programa de inserção profissional se interesse pela continuidade dos estudos? Ibarrarán: Na República Dominicana, há um esforço para mapear o perfil de cada beneficiário, a fim de decidir o que é melhor para ele: voltar à escola convencional, cursar um supletivo ou fazer formação profissional.

iG: Muitos defendem que as escolas de bairros mais pobres devem ter foco na formação profissional, já que dificilmente o egresso dali terá recursos para prosseguir os estudos em uma boa universidade. O que o senhor pensa disso?
Ibarrarán: A educação para os jovens mais pobres não deve ser diferenciada em termos de conteúdo ou de qualidade. Focar no ensino profissional não é adequado, mesmo porque esse tipo de formação não é melhor do que a convencional em termos de obtenção de melhores empregos e salários. Em todo o caso, diferenciar a qualidade e o teor de ensino por critério socioeconómico causa ainda mais segregação e desigualdade. O caminho certo é, primeiro, garantir que os mais pobres cheguem ao Ensino Médio com uma boa educação. Se isso não acontecer, é preciso oferecer apoio extra, para que eles tenham suas dificuldades sanadas e não desistam do curso, como tem acontecido.

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