Além de preservar restante do patrimônio mobiliário da década de 60, pesquisadores mostram lógica dos móveis

A história dos 50 anos da Universidade de Brasília (UnB), completados em 2012, será contada não apenas por livros, fotos e registros históricos de documentos. Os móveis desenhados para atender aos estudantes e professores que formariam a universidade revolucionária idealizada por figuras como Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira também contarão.

O Auditório Dois Candangos foi palco da inauguração da UnB; dizem que ele ficou pronto minutos antes da cerimônia
ALAN SAMPAIO/iG BRASILIA
O Auditório Dois Candangos foi palco da inauguração da UnB; dizem que ele ficou pronto minutos antes da cerimônia

A proposta de resgatar a história dos móveis da instituição está sendo executada por um grupo bastante plural. Marcelo Mari, professor de Teoria e História da Arte, coordena a pesquisa com o professor de Filosofia Alex Calheiros, que são ajudados por estudantes de Arquitetura e do curso de Teoria Crítica e História da Arte. Eles planejam fazer um livro sobre o tema.

O interesse de todos no mobiliário da UnB se explica pela admiração deles pelo design contemporâneo. As linhas simples e retas e a valorização dos materiais brasileiros (couro e madeira) são características do design moderno, marcantes nos primeiros móveis da universidade, e mostradas por eles à reportagem do iG em vídeo abaixo.

Cada vez que se deparava com um móvel antigo, Marcelo Mari se perguntava quem seria o autor da peça, lamentava os estragos e a perda do patrimônio. Alex intuía – o que confirmou com o estudo – que havia uma intenção dos idealizadores da UnB de criar um padrão para os móveis iniciais que acompanhasse a vanguarda da arquitetura da instituição.

Os grandes prédios da UnB têm traços simples, muito concreto e grandes espaços de convivência. Os portões são aquisições recentes, porque os prédios foram feitos para promover a liberdade de circulação. As cadeiras largas, de couro e confortáveis, seguiam essa linha. Sérgio Rodrigues foi um dos primeiros convidados a traçar mesas e poltronas.

“O espírito da universidade nasceu de vanguarda, arrojado. É possível perceber isso desde a cadeira dos alunos, às poltronas dos professores, passando pelos móveis da sala de espera e chegando ao projeto pedagógico dos cursos à época”, brinca Alex Calheiros. Ele ressalta que, hoje, muitos móveis da época estão sendo replicados. “O desenho importa mais que o móvel.”

Democratização

Calheiros diz que essa produção em massa de móveis similares não era considerada um problema. Ao contrário, era um esforço dos arquitetos em democratizar os desenhos modernos. “Havia uma oficina na faculdade de Arquitetura, onde os estudantes podiam criar peças inspiradas nos originais ou intervir neles. Há cadeiras que são de alunos também”, diz.

Assista ao vídeo:


A universidade foi feita muito rapidamente (em cerca de três anos) e, com a falta de opções na cidade, quase tão recente quanto a UnB, os artistas usavam qualquer material disponível. “Sérgio Rodrigues nos contou que o tratamento do couro de muitas cadeiras foi feito em uma semana apenas. Foi uma verdadeira aventura”, diverte-se.

Em entrevista aos pesquisadores, Rodrigues também revelou ter produzido, pelo menos, 40 móveis para a UnB. Há algumas mesas e poltronas na instituição, mas grande parte do material se perdeu. A ditadura militar acabou com grande parte do acervo, porque os militares “tinham ojeriza” dos móveis. “Um professor da arquitetura que estava aqui na época lembra que eles diziam que eram móveis de comunista”, afirma Mari.

Outra dificuldade para a preservação desse patrimônio – que hoje vale milhares de reais – é o fato de o acervo da UnB só ter sido catalogado e registrado na década de 1970. O trabalho dos pesquisadores, segundo eles mesmos, têm sido de detetives à procura de pistas em fotos antigas, reportagens, livros e memórias de quem ainda está vivo.

Além de Sérgio Rodrigues, eles descobriram que o arquiteto Elvin Dubugras, pouco valorizado como design, fez muitas cadeiras e mesas ainda encontradas em departamentos e salas de reunião da universidade. “Nós achávamos que elas eram de outros artistas renomados”, admite Calheiros.

Valorizar esses artistas e mostrar que é preciso preservar o que ainda resta do patrimônio é o objetivo dos professores e dos estudantes que ajudam na pesquisa, Artur Cruvinel, 21 anos, aluno do 4º semestre do curso de Teoria Crítica e História da Arte, Luiz Eduardo Sarmento, 26, formando em Arquitetura e Thiago Freire, 20, do 6º semestre do mesmo curso.

“Essa questão do conceito único das construções e os ambientes, os móveis, se perdeu. O projeto do mobiliário é muito importante para resgatar esse conhecimento e melhorar nossa formação”, pondera Thiago. A pesquisa deve ficar pronta até outubro.


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